Romper o Silêncio

"Mau marido, mas excelente pai"? Isso não existe, diz psicólogo

13 abr, 2026 - 07:00 • Liliana Monteiro

No podcast Romper o Silêncio, Mauro Paulino fala num “mecanismo de sobrevivência” que muitas vítimas de violência doméstica usam para desvalorizar o que acontece e "entrarem em negação”.

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"Mau marido, mas excelente pai". Isso não existe, diz psicólogo Mauro Paulino
Ouça aqui o podcast Romper o Silêncio

Quisemos saber se a velha expressão tantas vezes usadas, “é um mau marido, mas um excelente pai”, tem na psicologia algum fundo de verdade. Mauro Paulino, psicólogo forense com obra escrita sobre violência doméstica e relações, dá a resposta no episódio desta semana do podcast Romper o Silêncio, uma parceria da Renascença com a Associação Portuguesa de Mulheres Juristas (APMJ).

“As pessoas fazem a junção perigosa de achar que o facto de ter cometido violência é pouco importante e prover com alimentos em casa é suficiente para ser bom pai”, mas não é, sublinha o especialista.

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A mãe vítima “contribui” também muitas vezes para esse entendimento. “Diz que ele não batia no filho e desvaloriza o que ocorre em casa”, para muitas “reconhecer que o filho sofreu, ou que o marido foi agressivo com os filhos, é reconhecer que não foi suficientemente mãe para proteger os filhos, e isso causa uma ambivalência brutal nas mulheres que tendem, por isso, a desvalorizar o contexto de violência doméstica”.

O psicólogo fala num “mecanismo de sobrevivência” que muitas vítimas usam para desvalorizar o que acontece e "entrarem em negação”.

Neste episódio do Romper o Silêncio, Mauro Paulino sublinha ainda a diferença que, muitas vezes, existe nas versões das vítimas e filhos, uma experiência que teve quando trabalhou em casas de abrigo.

"Já ouvi tantas vezes ameaças de que mata a minha mãe, será que esta ambulância não está a ir socorrer a minha mãe?" - relata de vítima

“A vida muda no dia a dia dessa família. Lembro o caso de um adolescente, cuja capacidade de concentração mudava do dia para a noite quando ouvia uma ambulância. E a mulher vítima não tinha noção do impacto das ameaças vividas em casa na vida do filho”.

“Ele quando sabia que era dia de estar em casa, dia de folga do pai, não conseguia ouvir uma ambulância que pensava: 'já ouvi tantas vezes ameaças de que mata a minha mãe, será que esta ambulância não está a ir socorrer a minha mãe? Ou que alguém a chamou para ajudar a minha mãe'”.

E quando se diz "é bebé não se lembra de nada"? O especialista explica que também aí ficam marcas. Perante a violência, “aquele bebé ficou em pânico, o corpo inundado de stress associado a uma voz, cheiro, a uma pessoa mesmo que não exista imagem do estalo, da bofetada, do empurrão, mas a vivência está ligada à violência doméstica”.

E acrescenta que, depois, “não exploram tanto a sala, o quarto e os brinquedos porque têm receio de um conjunto de gritos e barulhos que caracterizam aquele ambiente familiar e que marcam inevitavelmente o seu desenvolvimento”.

Essa frase ainda é argumento em decisões do Tribunal

Mauro Paulino diz mesmo que o mote “é um mau marido, mas um excelente pai” é uma frase de autoconvencimento, “amplamente ouvida nos tribunais de menores”, sublinhando que há uma vertente cultural que “banaliza e legitima essa violência que passa de geração em geração”.

O psicólogo forense lamenta que continuem a existir magistrados, que avaliam questões no âmbito conjugal, “a dizerem que é melhor, e mais seguro, uma a criança numa família unida mesmo que exista violência”.

Diz notar que por parte dos advogados e magistrados se levanta, muitas vezes, a questão: “porque não saiu mais cedo da relação?”. Mauro Paulinorevela que os estudos mostram que, em média, uma vítima demora 13 anos a pedir ajuda e a terminar a relação violenta. “Ainda há preconceito na forma como trabalham na violência doméstica”.

Tribunais recebem relatórios sociais muitas vezes "enviesados"

Ao Romper o Silêncio descreve que, “às vezes, o que chega aos tribunais vai enviesado pelos técnicos que fazem avaliações, ou relatórios sociais, pedidos pelo tribunal", em que "não raras vezes temos um erro técnico que é confundir um conflito parental com violência doméstica”.

Mauro Paulino explica que são duas situações completamente distintas.

“Um conflito parental é um elemento do casal querer entregar às cinco da tarde e outro querer receber noutro horário, a isso chama-se divergência, ou algo ligado por exemplo à pensão de alimentos. Numa situação de violência doméstica estamos a falar do ascendente de um sobre o outro, um modelo de relação que se constrói de forma desadaptada permitindo a violência com danos que estão amplamente estudados.”

Crianças com consequências

Mauro Paulino afirma que “temos crianças que pela forma como vivem esta violência tendem a apresentar mais sintomas de ansiedade, depressão, baixa autoestima, tendem a ter um estilo mais agressivo para resolver conflitos”.

E lembra um trabalho do chefe da PSP Miguel Oliveira Rodrigues, que mostra que os filhos vítimas de ambiente de violência doméstica tendem a chumbar cinco vezes mais do que as outras crianças.

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