Romper o Silêncio

Saúde mental sem resposta: "Uma consulta de crise na semana seguinte pode ser tarde demais"

15 jun, 2026 - 07:00 • Liliana Monteiro

Coordenadora do Núcleo de Apoio à Criança e Jovem em Risco no Hospital D. Estefânia fala em falta de respostas imediatas quando há sinais de efeitos graves na saúde mental dos menores. Leonor Sassetti lamenta que só quem tem dinheiro possa receber alguns cuidados a título particular. Destaca a importância do programa Escola Segura, da PSP, e fala na necessidade de todos nós aprendermos a ouvir com atenção os mais novos.

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Saúde mental sem resposta: "Uma consulta de crise na semana seguinte pode ser tarde demais"
Saúde mental sem resposta: "Uma consulta de crise na semana seguinte pode ser tarde demais"

Há mais de três décadas a lidar com crianças e adolescentes, a médica Leonor Sassetti afirma estarem provados os efeitos no crescimento de quem vive no seio de um lar de agressão que envolva violência doméstica, direta ou indireta.

Cada vez dizemos mais que as crianças sofrem com a violência doméstica, mesmo que não lhes seja diretamente dirigida, há efeitos imediatos”, diz a coordenadora do Núcleo de Apoio à Criança e Jovem em Risco no Hospital D. Estefânia, em Lisboa.

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O episódio desta semana do podcast Romper o Silêncio aborda o tema das crianças expostas à violência doméstica com a ajuda de Leonor Sassetti.

A médica pediatra de adolescentes lembra que “todas as pessoas que lidam com crianças, os professores, etc… têm de estar atentos a sinais e sintomas como o nervosismo, a dor de cabeça, a dor de barriga, atrasos na linguagem, alterações do sono e alimentares que podem ser sinónimo de ambiente tóxico em casa”.

Sublinha que, “mais tarde, as crianças que vivem nesses ambientes, copiam o modelo dos adultos e repetem os comportamentos com o companheiro, namorado, ou marido e mulher”.

Um adolescente que tem uma tentativa de suicídio tem de ter consulta logo, ter um espaço para começar a organizar a resposta àquela situação e não há

Mas há mais. Leonor Sassetti diz que existe hoje “a noção claríssima que na base da maior parte da patologia, responsável por morbilidade e mortalidade importante, a nível cardiovascular, oncologia, mesmo a infertilidade, estão relacionadas com o trauma da violência". “Se se perguntar ao doente sobre o que se passou na infância percebe-se que há, muitas vezes, violência e maus tratos”, explica.

No Hospital D. Estefânia, em Lisboa, são sinalizados quase 500 casos por ano de agressões a crianças e jovens, sejam sexuais ou de outra forma, números que têm aumentado, segundo a especialista que coordena o Núcleo de Apoio à Criança e Jovem em Risco.

A situação levou mesmo à criação de uma consulta para acompanhar essas situações. “Tem um nome muito engraçado, que chama-se CARP (significa cuidar) - Consulta de Apoio ao Risco Pediátrico”, atendimento que com a pandemia criou uma nova valência, as teleconsultas, que evitam deslocações de outras zonas longínquas do país.

Nestas declarações ao podcast Romper o Silêncio, a pediatra Leonor Sassetti denuncia: “A saúde mental não dá resposta, não está organizada para haver uma consulta de crise, por exemplo, na semana seguinte a um episódio. Um adolescente que tem uma tentativa de suicídio tem de ter consulta logo, ter um espaço para começar a organizar a resposta àquela situação e não há!”.

Quisemos saber se não há de todo, ou se surge mais tarde, ao que responde: “Pode haver meses mais tarde, e isso chega? Pode ser tarde demais?”.

Tratamento só para quem tem dinheiro. “Como sociedade democrática, não podemos permitir uma coisa destas”

Leonor Sassetti confessa que quem tem mais possibilidade económicas procura a saúde privada. "A acessibilidade a acompanhamento de saúde mental conforme capacidades económicas tira-me do sério, mas é o que acontece (...) como sociedade democrática do 25 de Abril, não podemos permitir uma coisa destas”, alerta.

A profissional revela ainda que na urgência do Hospital D. Estefânia são cada vez mais os casos referenciados de desequilíbrio mental pela equipa de pedopsiquiatria ao Núcleo de Apoio à Criança e Jovem em Risco. “Dizem ser de famílias de risco”, explica.

"O que fazemos é a pressão de ir ligando para as consultas para ver se marcam urgentemente o atendimento e há hospitais que lá vão sendo sensíveis a essa pressão. Mas isto é um grande, grande problema”, alerta.

“Temos que aprender a ouvir e a não cortar o discurso” da criança

A médica alerta que é fundamental saber ouvir as crianças e os jovens. “Sempre, sempre, sempre, é ouvir! As pessoas deviam até ser todas treinadas um bocadinho. Temos que aprender a ouvir e a não cortar o discurso. Isso é muito importante. Isso faz confiar, mas não podemos ter a intenção de querer que a criança nos conte tudo assim de repente.”

O mais importante “é criar a relação” para que fique a vontade de voltar porque se confiou. “Eu diria que a primeira coisa é acreditar e depois é manter-se próximo. Temos de aceitar que é a criança que vai escolher quem é a pessoa principal a quem vai contar”, sublinha a pediatra.

Agentes da Escola Segura são muitas vezes quem recebe as queixas

Leonor Sassetti fala ainda da importância de dar estímulo e confiança a quem decide revelar as agressões, lembrando que o não acolhimento do que é dito pode levar os jovens a desistir e ficar fechados no mundo das agressões.

“’Tu tens toda a razão e nós vamos-te proteger’. Porque eles, muitas vezes, ouvem exatamente a conversa contrária, não é?”. Afirmando que é importante mostrar que a criança pode contar com aquela pessoa para a defender e que não está sozinha.

Muitos casos são contados aos agentes da PSP da Escola Segura. “Tenho imensas histórias dessas. Um dia não se aguentou mais e explodiu, e contou à amiga que se lembrou de pedir ajuda à polícia da Escola Segura. E portanto, esses profissionais, que hoje em dia têm cada vez melhor formação, são muitas vezes os que recebem estas queixas”, conta Leonor Sassetti neste novo episódio do Romper o Silêncio, uma parceria da Renascença com a Associação Portuguesa de Mulheres Juristas.


Se precisa de ajuda ou tem dúvidas sobre questões de saúde mental, contacte um médico especialista, ou um dos vários serviços e linhas de apoio gratuitas, como o SNS 24 (808 24 24 24), o SOS Voz Amiga (800 209 899/213 544 545), o SOS Criança (116 111), a Linha Jovem (800 208 020) ou o SOS Adolescente (800 202 484).

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