Romper o Silêncio
Violência doméstica afeta ADN da vítima. Estudos dizem que pode ir até à segunda geração
29 jun, 2026 - 06:30 • Liliana Monteiro
Cardiologista Ana Rita Victor fala em impactos diretos da violência doméstica na saúde do corpo provocados pelo stress crónico. Alerta que há genes que ficam silenciados diminuindo capacidades como a memória e a comunicação, que o cortisol mantido no tempo causa inflamação e enfarte do miocárdio e fala do dever clínico de denúncia que lamenta ainda não ter sido interiorizado pela classe médica.
A vítima de violência doméstica está sempre perante três coisas: o medo, a imprevisibilidade e o controlo. A médica cardiologista Ana Rita Victor explica que “são estas três coisas que põem a mulher (vítima) num estado de alerta durante anos, até durante décadas”.
No último episódio do podcast Romper o Silêncio, da Renascença em parceria com a Associação Portuguesa de Mulheres Juristas (APMJ), falamos sobre as consequências da violência doméstica na saúde.
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O impacto está estudado: “fica escrito no ADN da vítima, fica escrito nos filhos desta vítima, e se for numa mulher grávida, vai até à segunda geração. Não se sabia isto, não se fala disto, e eu acho que isto é extremamente relevante de ser conhecido”, afirma Ana Rita Victor.
Causa “não só consequências do ponto de vista cardiovascular, do ponto de vista cognitivo e mental, mas há impacto que fica escrito no ADN”.
A médica explica que “cada um de nós nasce com uma informação genética, o nosso ADN, imaginemos um livro que é nosso e único. Há marcas, há capítulos que vão ficar silenciados. Os capítulos ligados à inflamação passam a ser lidos. Quando a vítima está sob stress persistente, há um gene que passa a ficar hipermetilado, ou seja, ele vai ficar silenciado e nós precisamos dele para funcionar, para criar memórias, para fazer associações de ideias, para comunicar”.
O cortisol mantido no tempo causa inflamação e enfarte do miocárdio
Há manifestações imediatas relacionadas com a violência doméstica. As mais comuns passam por "queixas de palpitações, de disritmia, tensão mais alta, o cortisol ligado ao coração por muito tempo pode gerar doença coronária, enfarte agudo do miocárdio, AVC, Insuficiência cardíaca”, explica a convidada desta semana do podcast Romper o Silêncio.
A especialista garante que, se a vítima de violência doméstica na infância também foi vítima, ela tem um risco maior de enfarte, insuficiência cardíaca, revascularização e AVC.
Muitas confissões ocorrem na consulta
A cardiologista partilha que estava a fazer um ecocardiograma e a utente disse que se sentia efetivamente muito mal, cansadíssima e que esteve para ir à urgência, mas não o fez porque o marido não deixava.
“Ele não me deixa ir à urgência e já aconteceu, há cinco anos ele também não me deixar ir ao serviço de urgência e eu acabei por ter que ir e era uma apendicite”, conta o que ouviu da doente, que a deixou pensativa: “a minha mãe já me dizia, ‘o teu pai também já me batia’", sentindo que esse facto tinha normalizado a violência doméstica de que hoje era vítima era alvo, ela que tinha 60 anos.
Mas guarda outra história mais comum de uma paciente com 30 anos na altura, uma "jovem diferenciada, com uma boa profissão". “Apareceu-me com palpitações e com a tensão ligeiramente alta, extremamente ansiosa, tinha uma frequência cardíaca em repouso alta, portanto, era uma mulher que não estava bem”. Enquanto médica, tentou perceber se estava tudo bem, foi-lhe respondido que "sim".
Seis meses mais tarde, a paciente voltou à consulta com as mesmas condições. A médica diz que voltou a fazer as mesmas perguntas: “Perguntei-lhe se ela se sentia segura no trabalho, em casa, e ela tocou no assunto, não se sentia segura em casa, e esse foi o ponto de partida para se falar sobre o que se estava a passar”.
Educação e treino para detetar o mal-estar na vítima
Neste episódio do podcast Romper o Silêncio, falamos sobre o papel dos médicos na deteção de casos de violência doméstica.
“Têm que ser educados, temos que aprender a valorizar, temos que entender que o direito da mulher é igual ao direito dos homens, e não é assim ainda”, afirma Ana Rita Victor.
A clínica sugere a existência de um protocolo que abrangesse várias áreas, “quase como uma grelha, uma checklist, e quando se associassem, por exemplo, três, quatro critérios, houvesse um bullet que chamasse a atenção para o médico, e obrigasse-se a ser despistada daquela situação, da forma ideal, sem pressão”. Como forma de colmatar a ausência de controlo feito por alguns clínicos relativamente a todo o enquadramento da vítima que vai ao médico.
“Parece que o dever para com o crime público é superior ao segredo médico, portanto, é o que deveríamos fazer. Não creio que isso se faça”, conclui Ana Rita Victor.
Teresa Feria, presidente da Associação Portuguesa de Mulheres Juristas, sublinha que "se um clínico tomar a consciência de que aquela pessoa, por força das circunstâncias, está em perigo de vida, se não for denunciado, na realidade, pode estar a ser cúmplice do homicídio que vier a ocorrer”.








