"A palavra escrita sempre foi um refúgio". Entrevista a Victor Vidal, vencedor do Prémio Leya
03 jul, 2024 - 06:13 • Maria João Costa
"Não há Pássaros Aqui" é o romance de estreia do carioca Victor Vidal, que lhe valeu o Prémio Leya. O autor confessa que, às vezes, passa "horas confecionando uma única frase" para tentar encontrar a palavra certa.
Victor Vidal diz que é uma “pessoa de poucos recursos” e que, se não fosse ter vencido o Prémio Leya, certamente não estaria em Portugal, onde esta quarta-feira vai receber o galardão. O autor, que se estreia com o romance “Não Há Pássaros Aqui”, há muito que escrevia para si, mas nunca tinha arriscado publicar.
Nesta conversa na Livraria Buchholz, em Lisboa, o autor confessa que nem contou a ninguém que se iria candidatar ao prémio que outros brasileiros, como Itamar Vieira Júnior, já tinham vencido. Foi apanhado de surpresa pela notícia do prémio para um romance que sabe que será duro para os leitores.
Victor Vidal quis escrever a história sobre a relação entre uma mãe e uma filha e como os traumas de infância marcam a vida adulta. Uma viagem a Amesterdão, e uma visita à casa de Anne Frank que sempre sonhou conhecer foram um momento-chave para a escrita do romance. Questionado sobre a atual situação do Brasil, Victor Vidal diz que já é possível voltar a sonhar.
“Não há Pássaros Aqui” é um livro que fala sobre a família, sobre como a relação da família deixa marcas na vida adulta. Que história é esta que o Vitor Vidal quis contar?
Eu quis contar uma história sobre uma relação de mãe e filha, e como essas relações na nossa infância acabam reverberando ao longo de toda a nossa vida. A semente desse romance foi a ideia de que determinadas imagens da nossa infância permanecem gravadas na nossa alma para sempre. Então essa foi a história que eu quis desenvolver, de uma infância traumática que tem consequências durante a vida inteira
Mas são traumas que ficaram gravados e que vão despertando na vida adulta?
No caso da minha protagonista, a Ana, ela percebe esses traumas de início, porque são coisas muito violentas e muito tristes que acontecem com ela. Então, isso já a marca desde a infância. É como se ela estivesse presa dentro dela mesmo, por causa desses traumas. Então ela sempre teve consciência do quão ruim foram essas coisas que aconteceram com ela.
É um livro que em alguns momentos pode ser duro para os leitores?
Eu aconselho que ele leia com atenção, e que se o livro tiver levando para um lugar muito ruim, faça uma pausa na leitura e volte quando tiver mais tranquilo. Mesmo sendo uma história muito dolorida, com mensagens muito fortes, ainda é um romance e uma ficção. Então é também para ser um entretenimento, para ter esse interesse para você passar um bom momento. Mesmo que seja um bom momento de reflexão, um bom momento de apreciação das palavras. Tem que ser também um bom momento, mesmo que trate de temas pesados.
"Ninguém do meu convívio social sabia que eu tinha escrito esse livro. Sempre fui muito tímido e inseguro"
Porque é que uma viagem a Amesterdão o inspirou para este livro?
Eu já tinha muitos elementos dessa história, eles já estavam presentes na minha vida. Eu queria muito escrever uma história de uma mãe que desaparece. Queria muito escrever uma história de personagens que encontram uma carta dentro de um livro e queria muito escrever uma história de crianças que fogem para ver o mar, mas eram ideias que estavam todas muito soltas.
Quando eu fiz essa viagem, em que pude conhecer o anexo secreto em que Anne Frank se escondeu durante a Segunda Guerra Mundial - que era um sonho meu conhecer - a experiência de estar dentro daquela casa, de imaginar aquelas pessoas escondidas me fez começar a pensar sobre o trauma e sobre as coisas que acontecem na nossa infância que permanecem para a vida inteira.
Eu ficava tanto imaginar o que teria acontecido com Anne Frank se ela tivesse sobrevivido. Que imagens ela carregaria para vida inteira? Então, ao fazer essas reflexões, eu comecei a pensar nas minhas próprias imagens da infância.
Conseguiu com isso encontrar as linhas para coser a história que tinha em mente?
Isso. Foi a partir daí que todos aqueles elementos eles se juntaram.
Este é um livro de estreia, mas o Vitor Vidal já escrevia muito para si. Como é que foi dar o passo para candidatar este livro ao Prémio Leya? Foi fácil dar esse passo?
Não, não foi fácil, foi muito difícil! Na verdade, ninguém do meu convívio social sabia que eu tinha escrito esse livro, e, muito menos que eu tinha inscrito ele num prémio. Sempre fui muito, muito tímido, muito inseguro. Então imaginei que se eu não contasse para ninguém e não acontecesse nada, estaria tudo certo.
Foi uma surpresa para todo mundo e tem sido tudo muito incrível tudo o que aconteceu depois do anúncio da vitória do prémio.
"Às vezes, passo horas confecionando uma única frase para tentando buscar a palavra certa que vá ao ponto exato daquela emoção"
Como é esse seu lugar de escrita? Até porque já tem outras coisas escritas que nunca chegou a publicar.
Acho que a palavra escrita sempre foi um refúgio. Quando comecei a escrever eu fazia uma escrita diarista. Desde que era muito jovem, eu escrevia o que vivia, o que sentia, então foi a partir daí que a palavra escrita me deu muita coragem de me reconhecer como um indivíduo, dar espaço para minha subjetividade florescer, então, a escrita, ela sempre foi uma companheira e um refugio.
Foi surpreendido pelo Prémio Leya. Que consequências está a ter na sua vida e na sua escrita?
Na minha escrita, ainda não consigo ver uma consequência. Já tenho um novo romance em trabalho. Mas a minha vida mudou completamente. O facto de eu estar aqui em Lisboa já é uma grande coisa. Eu sou uma pessoa de poucos recursos, então eu não sei quando eu poderia ter vindo aqui. Tenho conhecido pessoas incríveis, então tem mudado muito! Tem sido uma experiência muito especial para mim, que eu jamais vou esquecer.
Mas pesa mais quando se volta à escrita, depois de ganhar um prémio? Há uma responsabilidade acrescida?
Nos primeiros dias! Eu senti todas essas emoções nos primeiros dias ao anúncio do prémio. Senti medo, senti responsabilidade, senti pressão, mas como a escrita, ela sempre foi um lugar de refúgio para mim, esses sentimentos em pouco tempo sumiram, até porque eu já estava escrevendo outras coisas. Quando o prémio foi anunciado, o processo de escrita me ajudou a não sentir essa pressão.
Autor brasileiro Victor Vidal vence Prémio Leya com "Não há pássaros aqui"
Com 907 candidatos de 14 países, esta foi a edição(...)
Em relação à Língua Portuguesa, a forma como a trabalha, o que é que lhe interessa explorar?
O que me interessa explorar é conseguir captar emoções e sentimentos através da palavra. Às vezes, eu passo horas confecionando uma única frase para tentando buscar a palavra certa que vá ao ponto exato daquela emoção. Então, o que me interessa, além de criar histórias com reviravoltas com personagens interessantes, é tentar explorar o lado emocional das narrativas e alcançar os sentimentos. É o que mais me interessa.
Olhando para o Prémio Leya há já outros escritores brasileiros que o venceram. É o caso de Itamar Vieira Júnior que acabou, com Torto Arado, a ser um fenómeno. Isso, a si, deu-lhe uma espécie de guião para se candidatar a este prémio?
Com certeza. Eu já conhecia o Prémio Leya antes do Itamar vencer e se tornar uma grande estrela. Mas certamente a vitória dele, e o significado que o livro dele teve para mim e para todos nós brasileiros, foi muito importante. Tendo nós vindo de lugares tão diferentes, eu consegui olhar para o livro dele e me reconhecer. Isso foi fundamental na hora de fazer a inscrição ao prémio.
E o seu Brasil, como é que está o país neste momento, depois da saída de Bolsonaro?
O ambiente no Brasil melhorou muito com as últimas eleições, os ânimos melhoraram muito. A situação continua na saúde e educação muito precária. Mas essa mudança das últimas eleições, foi fundamental para a nossa autoestima, principalmente para autoestima dos artistas.
Conseguiram ver mais espaços e mais incentivo. Então, eu vejo como um ambiente que está voltando a sentir que se pode sonhar. Nos últimos anos passamos por momentos muito difíceis e era difícil imaginar que a gente poderia crescer, sonhar e encontrar soluções. E esse sentimento está voltando.













