Entrevista Renascença
Sobreviveu a um míssil russo e está a escrever um livro para sarar as feridas
14 nov, 2024 - 08:00 • Maria João Costa
O escritor Hector Abad Faciolince está a escrever um novo livro passado na Ucrânia. Numa altura em que lança em Portugal o romance “Salvo o meu coração, tudo está bem”, o autor colombiano revela que no livro que está a escrever quer dar voz à escritora ucraniana que morreu à sua frente num ataque russo.
Hector Abad Faciolince levou 20 anos para escrever “Somos o Esquecimento que Seremos” (ed. Alfaguara), o seu livro de maior sucesso e onde lida com a morte do seu pai que foi assassinado nas ruas de Medellín. Agora, está de novo a escrever sobre uma perda.
O autor de nacionalidade colombiana sobreviveu, a 27 de junho do ano passado, a um míssil russo que caiu num restaurante onde jantava com um grupo de amigos. O “inferno” que lhes caiu em cima tirou a vida à jovem escritora ucraniana Victoria Amelina.
Em Lisboa, onde esteve a promover o seu mais recente livro, “Salvo o meu Coração, tudo está bem” (ed. Alfaguara), o escritor explica que só escrevendo é que consegue lidar com uma memória tão traumática.
Embora o exercício de recordação seja “difícil”, Hector Abad Faciolince diz que quer “dar voz a Victoria Amelina” e “contar a história de um crime de guerra com o que os russos a mataram”.
Estamos aqui em Lisboa a fazer esta entrevista, porque está vivo. Sobreviveu a um ataque russo na Ucrânia no ano passado. Como é que tudo aconteceu?
No ano passado, há cerca de um ano, apresentei, na Feira do Livro de Kiev o meu livro “Somos o Esquecimento que Seremos”, em ucraniano.
Eu pertenço a um movimento que surgiu na Colômbia e na América Latina que se chama “Aguanta Ucrânia” e estava ali com uma jornalista de guerra colombiana Catalina Gómez e com o fundador deste movimento, o Sérgio Jaramillo. Eles disseram-me: “Vamos aproximar-nos um pouco mais da frente de guerra.”
Eu não queria ir, mas acabei por concordar, e fomos acompanhados por uma escritora ucraniana muito jovem, a Victoria Amelina, que tinha a idade da minha filha. Ambas tinham nascido em 1986, ano do desastre de Chernobyl.
E ela acompanhou-nos para nos mostrar os locais de alguns dos piores crimes de guerra cometidos pelos invasores russos. E no último dia fomos a um restaurante de que ela gostava muito, na cidade de Kramatorsk - uma cidade gravemente atingida pela guerra.
Foi aí que foram atacados?
Quando estávamos a começar a comer neste restaurante cheio de civis, caiu do céu o inferno. Caiu-nos em cima um míssil russo. Caiu sobre metade do teto do restaurante e desabou todo o telhado do restaurante.
Tivemos a sorte de estar na esplanada e não dentro. A grande maioria dos mortos e feridos ocorreu dentro do restaurante. Na esplanada houve apenas uma pessoa morta e foi a nossa amiga Victoria Amelina.
Para mim, foi muito duro. Foi horrível, e ainda é horrível que uma menina da idade da minha filha, que deixou um filho órfão de 12 anos, tenha sido mortalmente ferida à minha frente.
Como vê a situação da Ucrânia hoje?
Vejo muito mal. Agora milhares e milhares de soldados norte-coreanos estão a juntar-se para ajudar os russos na sua terrível invasão e destruição da Ucrânia.
O chefe supremo da Coreia do Norte, um país horrível onde as pessoas passam fome e não têm liberdade, esse chefe diz que a guerra de Putin contra a Ucrânia é uma guerra sagrada!
É, pelo contrário, uma guerra infame e criminosa. Agora os criminosos unem-se. Kim Jong-un e Putin estão juntos destruindo a Ucrânia. É muito difícil que a Ucrânia possa resistir. Está a resistir, por todos nós, e creio que o nosso dever é apoiá-la, sempre.
Há matéria literária em algo tão brutal na sua vida?
Quando algo assim tão incompreensível e estranho acontece, que um velho como eu, por exemplo, sobreviva no meio de muitas pessoas que morrem. Ver duas gémeas de 14 anos que estavam dentro do restaurante com o pai, a festejar as boas notas que tinham tirado, morrerem à frente do pai, e este sobreviver… Essas coisas horríveis que às vezes acontecem, de um pai sobreviver às suas filhas ou de um homem velho sobreviver a uma mulher mais jovem, embora eu esteja feliz por estar vivo, isso é estranho!
A única forma que tenho de tentar compreendê-lo, de explicá-lo a mim, e aos leitores, é escrevendo.
Todo este ano e meio tenho tentado escrever sobre essa experiência. É algo que me dá muito trabalho. É difícil para mim, porque me obriga a recordar. E há muitas coisas que eu gostaria de não ter presente na minha mente o tempo todo.
Então, uma maneira de também me poder afastar disso e de me curar intimamente é tentar escrevê-lo, para entendê-lo e também para dar voz a Victoria Amelina, que já não tem voz para contar a história de um crime de guerra com o que os russos a mataram.









