Cinema
Festival de Cannes. Os filmes vencedores a ter em conta até ao fim do ano
27 mai, 2025 - 11:55 • João Malheiro
Duas coproduções portuguesas estiveram em grande destaque, um filme iraniano foi o grande vencedor e o Brasil pode ter um novo candidato ao Óscar.
O Festival de Cannes deste ano terminou no sábado e lançou a atenção sobre vários filmes que podem vir a marcar a indústria do cinema nos próximos meses.
A língua portuguesa esteve em grande destaque, com duas coproduções portuguesas e um filme brasileiro a saírem de Cannes com prémios em categorias importantes.
Esta semana, no episódio desta quinta-feira do podcast "Watch Party", vamos analisar em maior detalhe os vencedores do Festival de Cannes. Por agora, elaboramos uma lista dos principais filmes premiados a ter em conta.
"Era uma Vez em Gaza"
A categoria de prémios Un Certain Regard - a segunda competição de Cannes - premiou duas produções com participação de Portugal. O prémio de Melhor Realizador foi para os os irmãos palestinianos Tarzan e Arab Nasser.
O seu filme "Era uma Vez em Gaza" foi produzido em parceria com a RTP e retrata a vida na região sob o domínio do Hamas e reflete sobre a destruição da região.
Uma longa-metragem que foi desenvolvida ao longo de uma década, muito tempo antes do conflito atual entre Israel e Hamas que tem levado a uma crise humanitária em Gaza. Depois de 7 de outubro de 2023, o arrgumento foi rescrito para refletir a nova realidade do povo dos cineastas.
"O Riso e a Faca"
Já o Prémio de Melhor Atriz na categoria Un Certain Regard foi para Cleo Diára, atriz cabo-verdiana que participa no filme "O Riso e a Faca", do português Pedro Pinho.
Com cerca de 3h30 de duração, a longa-metragem fala de um engenheiro português que vai trabalhar numa ONG em África no projeto de uma estrada entre o deserto e a selva.
O filme segue Sérgio, um engenheiro ambiental que se envolve "numa relação íntima, mas desequilibrada com dois habitantes da cidade, Diara e Gui. À medida que se adentra nas dinâmicas neocoloniais da comunidade de expatriados, esse laço frágil torna-se o seu único refúgio perante a solidão ou a barbárie", refere a sinopse.
Para lá de Cleo Diára, a produção conta com as interpretações de Sérgio Coragem e Jonathan Guilherme nos papéis principais.
"Ressurection"
Foi um dos filmes mais peculiares a competir pela Palme d'Or, com muitos críticos a descrever uma experiência única e complexa escrita e realizada pelo chinês Bi Gan.
Depois do seu primeiro filme "Kaili Blues" ter conquistado três prémios em Locarno, a sua terceira longa-metragem valeu-lhe um novo prémio, desta vez em Cannes. O júri da edição deste ano do festival criou um prémio especial para celebrar o filme que dizem ser algo completamente diferente de tudo o resto que foi visto ao longo das últimas duas semanas, em França.
A longa-metragem retrata um futuro em que a Humanidade não consegue sonhar. No entanto, um dia uma mulher encontra uma criatura que ainda é capaz de o fazer. Usando tecnologia, tenta entrar na sua mente e descobrir os seus segredos.
"Sirât"
O terceiro lugar do Festival de Cannes repartiu-se por dois filmes. O primeiro foi "Sirât", uma coprodução entre Espanha e França escrita e realizada por Óliver Laxe.
A narrativa fala de um pai que viaja até Marrocos para tentar encontrar a filha que desapareceu durante uma rave.
Uma viagem pelo deserto com destino incerto que é descrita pelo cineasta como o seu trabalho "mais político e radical".
"Sound of Falling"
O outro lado do terceiro lugar em Cannes foi para o filme alemão "Sound of Falling" da realizadora Mascha Schilinski.
Quatro raparigas são as protagonistas do filme - Alma, Erika, Angelika e Lenka vivem em períodos históricos diferentes, mas as suas vidas estão todas interconectadas pelo lugar onde passam a infância: Uma quinta na região de Altmark.
O filme surgiu depois da cineasta ter passado um verão num local semelhante e ter encontrado uma fotografia de 1920 onde três mulheres desconhecidas estavam retratadas: "À medida que explorávamos a quinta, sentíamos o peso dos séculos. O que é que aconteceu dentro destas paredes no passado?", questionou Mascha Schilinski.
"O Agente Secreto"
Vem aí um novo "Ainda Estou Aqui"? Pelo menos, é o que o cinema brasileiro deseja a "O Agente Secreto" em termos de notoriedade e sucesso quer na bilheteira, quer nas grandes galas de prémios.
O filme saiu de Cannes com dois prémios - o que vai contra a tradição de premiar filmes apenas uma vez - valendo a Wagner Moura a vitória na categoria de Melhor Ator e a Kleber Mendonça Filho o reconhecimento em Melhor Realizador.
A longa-metragem passa-se no Recife, em 1977, durante o período da ditadura militar no Brasil. Wagner Moura faz de Marcelo, um especialista em tecnologia que regressa à cidade natal, muitos anos depois. Apesar de tentar escapar de um passado obscuro e conturbado, acaba por se envolver na rede de espionagem da região. O alemão Udo Kier também integra o elenco, depois de já ter colaborado com Kleber Mendonça Filho em "Bacurau".
Apesar de ainda não ser certo que "O Agente Secreto" consiga competir com as grandes produções de Hollywood, a verdade é que a Neon - a distribuidora que venceu os Óscares deste ano com "Anora" - já adquiriu os direitos de distribuição para o mercado norte-americano.
"Sentimental Value"
Depois do filme "A Pior Pessoa do Mundo" ter sido das grandes sensações de 2021, Joachim Trier regressou ao Festival de Cannes com mais um drama que está a ser aclamado. Para muitos críticos, "Sentimental Value" foi mesmo a melhor longa-metragem do evento, mas o júri atribuiu-lhe o Grand Prix - equivalente ao segundo lugar.
Renate Reinsve volta a ser a protagonista do cineasta, interpretando uma atriz que, depois da morte da mãe, volta a viver com o seu pai. O veterando Stellan Skarsgård faz de patriarca desta família disfuncional que tenta encontrar união por entre o luto.
A estreia do filme ficou marcada por uma ovação de pé que se prolongou durante 19 minutos, tornando-se numa das aclamações mais longas da história de Cannes. Com a distribuição assegurada para os principais mercados internacionais, "Sentimental Value" promete ser um dos dramas a não perder este ano.
"It Was Just an Accident"
A cobiçada Palme d’Or foi para um filme que não contava na conversa das obras mais mediáticas do festival. “It Was Just an Accident” trata-se de uma comédia de cerca de 1h30 sobre um homem que atropela um cão, enquanto conduzia com a mulher grávida.
Ao parar numa garagem próxima do acidente para tentar arranjar o carro, descobre que o homem que o ajuda é parecido com o oficial do governo que o torturou na prisão e decide raptá-lo. Uma sequência de eventos imprevisível que tem como objetivo principal ser uma crítica ao regime autoritário do Irão.
Esta vitória faz com que Jafar Panahi seja apenas o quarto cineasta a conseguir vencer os três principais festivais de cinema europeus: O festival de Veneza em 2000, o festival de Berlim em 2015, e, agora, o festival de Cannes.















