Entrevista Renascença

25 anos de carreira de Katia Guerreiro: “Não tenho medo nenhum de fugir do fado”

12 jul, 2025 - 08:20 • Maria João Costa

Dia 16 de julho Katia Guerreio celebra 25 anos de carreira com um concerto no Centro Cultural de Belém. A fadista que está a estrear uma canção escrita por Toli César Machado dos GNR diz que sente hoje mais “livre” a cantar.

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Confessa que não deixa de “ficar nervosa antes de entrar no palco” ou “ansiosa a preparar espetáculos novos”. Katia Guerreiro está a celebrar 25 anos de carreira e vai subir ao palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, a 16 de julho, para comemorar.

Em entrevista ao Ensaio Geral, da Renascença, numa altura em que está a lançar “Capitães da Areia”, uma canção que lhe foi oferecida por Toli César Machado, dos GNR, Katia Guerreiro assume que “existem muitos momentos” na sua carreira em que não tem “medo nenhum de fugir do fado” e que isso “faz parte” de si.

“Eu sou muito fadista, mas não sou exclusivamente fadista. Gosto de música” afirma Katia que se sente hoje “mais livre” do que há 25 anos quando João Braga a chamou para o fado. Para trás ficou uma carreira como médica, mas hoje abraça também o desafio de estar a programar, como comissária, a Capital Portuguesa da Cultura em Ponta Delgada para 2026.

Que balanço faz de 25 anos de carreira? O que mudou?

Acho que, na essência, está tudo muito igual. Claro que existe uma maturidade da voz e de interpretação. Há muita vida que correu ao longo destes 25 anos. Naturalmente, todas as experiências de vida e artísticas que fui tendo influenciam muito a forma de cantar e de estar em palco.

Acho que me sinto hoje muito mais livre do que me sentia há 25 anos. Isso garantidamente!

Eu era uma menina inexperiente quando comecei a cantar. E, hoje, sou uma mulher crescida com muita coisa diferente tanto a nível pessoal, como artístico.

Fui mãe e tenho, a nível artístico, muita bagagem de muitos palcos, muito mundo e muitas experiências de partilha artística com artistas do mundo inteiro que me trazem, naturalmente, para a forma de cantar. É uma alegria diferente e menos inseguranças.

Menos nervos?

Não deixo de ficar nervosa antes de entrar no palco. Não deixo de ficar ansiosa a preparar espetáculos novos. Mas tenho, naturalmente, uma maturidade que me ajuda a tomar decisões olhando sempre para a perspetiva do público.

Dentro da liberdade de que falava, é ter também aquela vontade de estar em cima do palco a desfrutar, a divertir-me e a ter a consciência de uma responsabilidade cada vez maior naquilo que faço.

Mas, não é de todo castrador. Aliás, é o sentido de liberdade que sinto cada vez maior, sabendo que, ao longo destes 25 anos, atingi um lugar onde sei que tenho um público que me é muito fiel, que me segue há muitos anos, que conhece a minha trajetória, que conhece o meu repertório e conhece a minha coerência.

Nestes 25 anos de comemorações, o que eu estou a querer fazer é trazer esse sentido de liberdade para cima do palco e fazer tudo aquilo que me apetecer. Trago para o palco uma parte da minha história.

Como se põe 25 anos em palco?

É muito difícil levar para cima do palco 25 anos. Mas quero que, neste espetáculo, aconteçam momentos muito definidores daquilo que me tem trazido a este lugar. Dos sítios por onde passei, sejam eles palcos, sejam eles territoriais ou pessoas, e pessoas que fizeram sempre parte e estão a fazer parte desta história.

E terá convidados em palco?

Trago. Tenho muito aquela coisa de que não vou revelar os convidados, porque quero surpreender o público, em primeiro lugar. Tento sempre fazer concertos que sejam um bocadinho surpreendentes. Se estiver a lançar um disco, quero mostrar e quero surpreender as pessoas com aquilo que, de novo, traz o disco.

Estou a fazer um concerto comemorativo e este é o terceiro que faço. Fiz nos 10 anos de carreira, fiz nos 20 com uma decalagem por causa de uma pandemia que aconteceu pelo caminho. Mas quando decidi celebrar os 20 anos, também quis trazer muito disto.

Agora, com os 25 anos, trago esta liberdade. E quero surpreender o público. Não quero que as pessoas vão por causa dos convidados. Sei que as pessoas vão por mim e porque sabem que vão ser surpreendidas. Gosto muito de manter isso.

Tem uma nova canção. O que é este “Capitães da Areia”?

Isto foi uma oferta linda do Toli César Machado, grande compositor do GNR, clássico compositor do GNR, que, em parceria com o Hélder Moutinho, fez este poema lindíssimo de amor.

No fundo, acaba por ser muito a minha forma de viver o amor, do sentimento de liberdade que gosto de sentir através do amor e da paixão. Quando se ama e quando uma pessoa se apaixona, sente-se livre, liberta-se de muitas amarras, de muitas prisões.

Este poema é, claramente, uma ode a essa liberdade do amor. Eu sinto-me tão bem a cantar e acompanhada por um músico de excelência, que é o João Bernardo, que, para além de ser um excelente músico, é também meu conterrâneo. É um jovem talentosíssimo, que fui descobrindo assistindo a um espetáculo dele lindíssimo na Ribeira Grande, nos Açores, em São Miguel.

Daí esta canção ter apenas piano?

Sim, porque trabalhámos os dois muito isto. Tivemos várias sessões os dois a estudar o melhor ambiente para esta canção, que não é um fado de todo, é uma canção. Apeteceu-me imenso fazê-la neste registo muito íntimo.

Aliás, há uns dias o Tiago Curado, que foi quem produziu o tema, descreveu a forma como nós fomos ao estúdio gravar e o que aconteceu no estúdio. Fizemos dois ou três takes de gravação e sabíamos que faltava ali um ingrediente qualquer.

Às tantas eu descalcei-me, sentei-me ao lado do piano e num take só gravámos este tema. Eu canto quase a sussurrar, num limite de voz, quase de silêncio. É muito difícil cantar assim, sem que se perca qualquer coisa ou sem que se falhe.

Não estou com isto a querer elogiar-me, mas porque, de facto, criou-se o ambiente. Não queria apetrecho nenhum à minha volta, queria que fosse eu e o João Bernardo, os dois ali, a viver aquele momento de música e de intimidade em absoluto. Saiu aquela beleza da qual fiquei muito orgulhosa.

Mas não é assumidamente fado. Isso incomoda-a?

Isto que estou a fazer nos “Capitães da Areia”, não é de todo uma coisa incomum na minha carreira. Aliás, ao visitar-se o meu repertório todo, desde o primeiro disco até agora, percebe-se que existem muitos momentos destes em que não tenho medo nenhum de fugir do fado, porque isto também faz parte de mim.

Eu sou muito fadista, mas não sou exclusivamente fadista. Eu gosto de música.

Naturalmente que há registos que me agradam também de abordar. E este é um deles, em que esta intimidade e esta verdade a cantar não deixam de ser muito inspiradas no fado.

Mas claro que isto não é um fado, nem é cantado com registo fado. Mas há muita gente que diz: ‘saís do registo fado, mas continuas a sentir o fado na tua voz’. E isto é muito bonito de ouvir! Fico muito feliz.

Como será este ano de celebrações?

Este ano de comemorações dos 25 anos é efetivamente aquilo que me apetecer fazer. O plano é, não ter planos nenhuns. Tudo aquilo que fizer ao longo deste ano de 25 anos de carreira, é o que me apetecer fazer. Independentemente se é fado ou não é fado.

Acontecerá fado, como acontecerão outros momentos que não são fado. Mas tudo isto fará parte de um registo, que no fundo, no final, terá um resultado, que eu não sei qual é.

Não vai fugir muito de tudo aquilo que eu fui fazendo ao longo do tempo. Recordo que em 2005 gravei o disco “Tudo ou Nada”, onde tenho a participação do Bernardo Sassetti a cantar “A Minha Senhora das Dores”, e não deixa de ser um registo também fora do fado.

Como tantos outros temas que eu tenho ao longo da minha carreira, “A Estranha Paixão” e outros temas internacionais, que fui cantando em palco, e que nunca gravei, à parte do “Lisboa”, do Charles Aznavour. São todos eles registos fora do fado, mas não estou a fazer nada de novo, a Amália também o fez.

Está hoje envolvida na organização da Capital Portuguesa da Cultura, em Ponta Delgada em 2026. Qual serão as apostas?

Tenho neste momento uma equipa curatorial a trabalhar comigo em todas as áreas artísticas. Da arquitetura à arte urbana, da dança, à gastronomia, ao teatro, literatura, dança, artes inclusivas, religiosidade - que é um ponto muito forte da identidade cultural de Ponta Delgada e dos Açores no geral - a etnografia, as artes visuais, o cinema e audiovisuais - onde há uma tradição e história muito grande de cinema, não nos podemos esquecer das grandes obras do Zeca Medeiros – São onze curadorias.

Todos os curadores estão neste momento a desenvolver programas, onde obrigatoriamente têm de desenvolver também um projeto educativo. Cada um está a trabalhar nas suas áreas. Eu estou naturalmente, acho que seria muito difícil não ser eu, a tomar conta da música, juntamente com os dois parceiros desta viagem, da equipa nuclear, que é o Tiago Curado e a Isabel Worm.

Temos os três a música nas mãos, porque eu depois tenho uma data de outras coisas para gerir, e não consigo tratar disto sozinha. Já temos apostas muito interessantes e fortes para programar para a Capital Portuguesa da Cultura.

Estamos a desenvolver este projeto educativo em torno de tudo aquilo que nós fizermos na capital. Todos os artistas e todos os projetos e eventos que forem realizados na Capital Portuguesa da Cultura terão de envolver-se obrigatoriamente num projeto educativo, porque a ideia efetivamente é que deixe um legado e uma marca no território.

Isto é um trabalho de filigrana para conseguirmos envolver a comunidade educativa. Para nós a comunidade educativa não envolve só professores e educadores, nem só as crianças, envolve também as famílias, para que as crianças e os professores e educadores tenham um suporte para que os miúdos possam, através da curiosidade possam ter apoio, incentivo, motivação para desenvolverem e irem atrás dessas curiosidades.

Portanto, é um trabalho filigrana, como dizia, que me está a dar imenso gozo. É imenso o trabalho, mas estou apaixonada por este projeto. Naturalmente não posso também deixar de descurar a minha carreira artística, até porque ela me alimenta a alma e dá-me cada vez mais vontade de fazer tudo como gosto de fazer, de forma inteira, nunca por metade.

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