Tempo
A mudança da hora faz mal à saúde? Estudos revelam mais enfartes e acidentes
24 out, 2025 - 07:00 • Diogo Camilo
Os relógios vão voltar a atrasar na madrugada de domingo, mas a ciência mostra que a alteração de horários tem cada vez menos benefícios e verdadeiros "efeitos adversos reais e repetidos", principalmente nas primeiras semanas depois da mudança.
Problemas de sono, um risco acrescido de enfarte e de alguns tipos de cancro. A mudança da hora no inverno e no verão tem um efeito negativo na saúde e os poucos pontos a favor que existem - como a menor criminalidade ou o menor consumo de energia - são cada vez menos.
Numa compilação de 77 estudos diferentes sobre o impacto da mudança de hora ao nível da saúde, economia, do crime, da segurança rodoviária e do consumo energético, investigadores alemães concluíram que existem "efeitos adversos reais e repetidos" do atrasar dos relógios na saúde e na segurança rodoviária, especialmente nas primeiras semanas após a entrada no "horário de inverno" ou "horário de verão".
A investigação, a primeira desta escala, foi publicada em janeiro deste ano na revista científica Sage e é particularmente relevante numa altura em que a União Europeia volta a discutir o tema da mudança de hora e um país em particular -a Espanha - defende o fim do regime em vigor.
Ao todo, mais de 1,2 mil milhões de pessoas de 70 países diferentes têm políticas sazonais de mudança de hora - aquilo a que nós chamamos de "horário de verão" e que noutros países tem o nome de "Daylight Saving Time".
Embora haja efeitos positivos amplamente registados, como a diminuição parcial da criminalidade ao início da noite e o registo de menos acidentes rodoviários em hora de ponta - principalmente nas primeiras semanas após a mudança de hora -, o principal objetivo da mudança de hora tem cada vez menos importância - o consumo elétrico.
Isto porque, com o avançar da tecnologia e novos padrões de consumo da sociedade, o uso da eletricidade já não acontece em grande parte durante a noite - como acontecia quando a mudança de hora começou a ser adotada.
Maior risco de enfarte, distúrbio do "relógio biológico" e cansaço
Na investigação, os dados mais documentados e consensuais são os dos efeitos da mudança de horário na saúde associados a um aumento observável de doenças cardiovasculares nos dias e semanas após o atrasar ou adiantar dos relógios.
Um dos estudos aponta para um aumento na ordem dos 5% da incidência de enfarte agudo do miocárdio durante a primeira semana após a mudança de horários, enquanto outros alargam a janela de risco para as primeiras duas semanas.
Outro dos efeitos da mudança de hora - e talvez o mais visível - é a quebra do ciclo de sono e a disrupção do ritmo circadiano, a que chamamos vulgarmente de "relógio biológico", que foi classificada pelo Centro Internacional de Pesquisa do Cancro como um elemento "potencialmente carcinogénico", o que signifca que estas alterações de horário aumentam o risco para certos tumores, devido a uma associação próxima entre o desincronizar do nosso organismo e mecanismos promotores de cancro.
Também a saúde mental e o sono têm quebras nas semanas seguintes às diferenças horárias, levando a um aumento dos episódios de insónias, cansaço, agravamento de sintomas depressivos e maior vulnerabilidade em pessoas com transtornos psiquiátricos pré-existentes, também relacionados com a menor exposição à luz matinal.
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Menos assaltos, mais acidentes e menor produtividade
Entre os pontos positivos da mudança horária está associada uma redução de certo tipos de crimes, como os assaltos e roubos à mão armada, devido ao aumento de luz no final do dia que faz diminuir a oportunidade para criminosos.
No entanto, no sentido contrário, os estudos também apontam para um aumento de acidentes de viação e de mortes na estrada nos primeiros dias e semanas de entrada no horário de verão, em parte explicados pela privação de sono e pela redução da vigilância dos condutores. Um dos estudos aponta para um aumento de 6% acidentes fatais na semana seguinte após o adiantar dos relógios em março.
Foi ainda verificada uma redução dos acidentes durante a hora de ponta a médio prazo, explicada pela maior quantidade de luz ao fim do dia.
Na economia, os estudos apontam para um aumento de consumo por existir mais luz ao fim da tarde mas, ao mesmo tempo, foram registadas perdas de produtividade por fadiga e impactos na saúde devido a internamentos que contrabalançam os pontos positiviso.
A mudança horária começou a ser adotada há mais de um século por razões energéticas, com a ideia de reduzir o consumo da iluminação, mas os estudos em diferentes países sinalizam poupanças pequenas ou inexistentes na atualidade, com alguns casos a terem um aumento líquido do consumo residencial.
Em conclusão, a investigação sugere que seja feito um balanço entre os benefícios - a redução de crime e um aumento de produtividade - e os prejuízos - como os custos para a saúde e na segurança rodoviária -, recomendando um horário permanente e medidas como campanhas de adaptação do sono e um ajuste gradual dos horários de dormir alguns dias antes da transição.






