Ciência

Melhor amigo do homem. Novos estudos mostram que o cão acompanha o ser humano há 11 mil anos

14 nov, 2025 - 13:23 • The Conversation/Reuters

Duas novas investigações mostram que a relação entre cães e humanos é muito mais antiga e complexa do que se pensava. As migrações de povos da Europa e da Ásia coincidem com mudanças genéticas nos cães, revelando que acompanhavam as populações humanas ao longo dos milénios.

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Dos cães das aldeias aos caniches miniatura, ao dogue alemão, o mastim tibetano ou o husky siberiano, os cães apresentam uma variedade impressionante de formas, cores e tamanhos. Atualmente, estima-se que existam cerca de 700 milhões de cães a viver com ou perto de humanos.

Para muitos de nós, os cães são companheiros leais, parceiros de trabalho e membros estimados da família – e as histórias das nossas espécies estão profundamente entrelaçadas. Mas como surgiu esta diversidade incrível – e desde quando é que existe esta relação com os humanos?

Dois novos estudos publicados esta quinta-feira na revista científica Science dão-nos algumas respostas. Um, liderado por Allowen Evin da Universidade de Montpellier, baseia-se em restos esqueléticos antigos. O outro, liderado por Shao-Jie Zhang do Instituto de Zoologia de Kunming, recorre ao estudo de ADN de cães antigos da Eurásia Oriental.

Em conjunto, as duas investigações sugerem que a história dos cães e a sua ligação aos humanos é mais antiga e mais complexa do que se pensava.

As origens da diversidade dos cães modernos

O estudo de Montpellier utilizou 643 crânios de cães e lobos dos últimos 50 mil anos para investigar as origens da diversidade dos cães modernos.

A análise da equipa sugere que a distinta forma de crânio “tipo cão” surgiu pela primeira vez há cerca de 11 mil anos, durante o Holoceno, o período desde a última idade do gelo. Encontraram também uma diversidade física considerável nos crânios de cães do mesmo período.

Isto significa que as várias formas e tamanhos dos cães de hoje não é apenas resultado dos intensos programas de criação selectiva que se tornaram populares nos últimos séculos. Parte dessa variação surgiu milénios antes.

A equipa voltou a analisar as formas dos crânios dos 17 crânios conhecidos de cães ou lobos do Pleistoceno Tardio, um período geológico de 129.000 a 11.700 anos atrás, com alguns dos crânios a terem 50 mil anos.

Descobriram que todos estes crânios do Pleistoceno eram essencialmente semelhantes aos de lobos, incluindo alguns anteriormente identificados como pertencendo a cães primitivos.

Importa salientar que isto sugere que, embora a separação entre lobos e cães provavelmente tenha ocorrido durante o Pleistoceno, a forma do crânio dos primeiros cães só começou a mudar mais perto do Holoceno – isto é, há 11 mil anos. No entanto, alguns crânios de cães do Holoceno mantinham ainda características semelhantes às dos lobos.

Esta investigação sugere que os primeiros cães eram muito mais diversos do que se pensava. Esta diversidade pode ter preparado o terreno para as variações extremas de tamanho e forma dos cães que temos hoje.

Companheiros de viagem

Estudos do genoma já conhecidos identificaram quatro grandes linhagens de cães que provavelmente tiveram origem há cerca de 20.000 anos: cães do Leste Asiático e do Ártico, da Europa e do Médio Oriente.

As origens destas linhagens antigas ainda estão a ser desvendadas. No entanto, estudar as mudanças na ancestralidade dos cães ao longo do tempo e entre diferentes regiões pode ajudar-nos a compreender melhor tanto as origens dos cães, como os movimentos dos humanos neolíticos (da Idade da Pedra).

O novo estudo utilizou 73 genomas antigos de cães dos últimos 10 mil anos para explorar como humanos e cães se deslocaram pela Eurásia Oriental ao longo do tempo.

A análise destes cães antigos identificou múltiplas mudanças na ancestralidade de cães na Eurásia Oriental em épocas que coincidem com os movimentos de grupos humanos específicos (caçadores-recolectores, agricultores e pastores). Isto sugere que, à medida que diferentes grupos culturais humanos se deslocavam pela Eurásia, os seus cães frequentemente viajavam com eles, transportando as suas assinaturas genéticas únicas.

Houve algumas discrepâncias entre a ancestralidade de populações humanas e caninas em certas partes da Ásia. Por exemplo, caçadores-recolectores orientais de Veretye e Botai, que estavam mais próximos de humanos da Eurásia Ocidental, tinham sobretudo cães orientais (do Ártico) em vez dos cães ocidentais observados noutras culturas da Eurásia Ocidental da época.

Isto significa que os cães podem ter sido uma componente importante da troca cultural ou do comércio entre diferentes culturas ou comunidades humanas. Também pode ilustrar complexidades na evolução dos cães que ainda não compreendemos totalmente.

O trabalho apresenta provas convincentes de que, na Eurásia Oriental de há milhares de anos, os cães desempenharam um papel indispensável nas sociedades humanas como importantes “pacotes bioculturais” que se deslocavam com os humanos. Em outras palavras, os humanos levavam os seus companheiros consigo nas suas viagens (e talvez os trocassem), em vez de simplesmente adquirirem novos cães após se moverem para novas regiões.

Estes resultados realçam a relação duradoura, complexa e entrelaçada entre cães e humanos, que se estende por mais de 10.000 anos.

A ancestralidade genética dos cães pode servir como um registo vivo das migrações humanas antigas, redes de comércio e trocas culturais. Estudos sobre cães antigos podem também ajudar-nos a compreender os factores ambientais que contribuíram para a evolução dos cães e para a sua relação com os humanos.

A transformar a nossa compreensão dos cães

Em conjunto, estes novos estudos transformam profundamente a nossa compreensão de como os cães se tornaram tão diversos e de como se relacionaram com os humanos ao longo do tempo.

Ambos os estudos salientam que a incrível diversidade dos cães modernos não é um fenómeno totalmente recente. As bases genéticas e morfológicas desta variação foram estabelecidas há milhares de anos, moldadas pela selecção natural, pela selecção humana e por ambientes diversos, muito antes dos programas de criação estruturada dos últimos séculos.

Estudos futuros que investiguem a diversidade física e a ancestralidade dos cães ao longo do tempo podem aprofundar a nossa compreensão das complexas origens e disseminação dos cães pelo mundo. Quaisquer que sejam as suas origens, esta investigação aprofunda a nossa valorização do vínculo único e antigo entre humanos e cães – um vínculo quase tão diverso quanto os próprios canídeos.

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