16 nov, 2025 - 08:30 • Maria João Costa
Um venceu o Prémio Nobel da Literatura em 2021, o outro, desejou o diretor do Festival Utopia em Braga, deverá um dia ganhar o Nobel da Literatura. Em comum, Abdulrazak Gurnah e Mia Couto têm o facto de serem escritores africanos. Embora de países próximos – Tanzânia e Moçambique – escrevem livros bem distintos.
No segundo dia do Festival Utopia falaram de temas que partilham como inquietações: racismo, guerra, reparações históricas e a extrema-direita. Numa sessão moderada pela jornalista Ana Daniela Soares, Mia Couto defendeu que na Europa atual “é muito visível que havia um racismo envergonhado, que deixou de ter pudor”.
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De acordo com o autor de “A Cegueira do Rio” (ed. Caminho), há hoje “um ambiente propício” para que surjam ideias como a de que “o outro está mais, e está a mais por causa da raça, ou por causa do género”.
Neste cenário que classificou como “apocalíptico”, Mia Couto alertou para o facto de facilitar a “atribuição de culpas ao outro, “aos emigrantes”. Por seu lado, Abdulrazak Gurnah que nasceu na Tanzânia, e vive há décadas em Inglaterra, considerou que hoje “há uma grande diferença, porque há maior consciência” do racismo.
“Há atos de discriminação. Eu não sofri violência, mas, ao dizerem-me coisas, as pessoas não percebiam o efeito que tinham”, recorda o Nobel sobre os seus primeiros tempos longe do país natal. Lembrando que na atualidade há leis que não permitem a discriminação, Gurnah confessou que tenta ignorar essas “pessoas cheias de ódio”.
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Oriundos de dois países que sofreram com a colonização, os escritores foram questionados sobre as reparações históricas. Mia Couto começou por referir que “a primeira grande questão, em termos de África, é nos reconciliarmos com o passado”.
Segundo o autor de “Jesusalém”, não se trata de “procurar as feridas do passado, mas sim tratar do presente”, um momento em que continuam a persistir muitas desigualdades, referiu, interrogando sobre a impossibilidade de contabilizar qualquer tipo de indeminização.
Já Gurnah apontou uma “necessidade de responsabilidade”. “Não é quem culpar, mas é esperar que a violência intensa que há em África possa terminar”, disse o autor de “Gente da Casa”.
“Não se podem pagar feridas ou vidas”, disse o escritor que apontou que é preciso “aceitar o passado”, mas reconhecendo de que desse passado há uma parte que é “culpa do colonizador”.
Na sessão em que Mia Couto admitiu que um dos livros de Gurnah foi importante para a construção do seu último romance e em que o Nobel explicou que dava na Universidade de Kent um livro de Mia Couto, nas aulas de literatura pós-colonial, os escritores abordaram ainda outra questão atual como a extrema-direita.
O escritor Mia Couto alertou para necessidade de não dar ouvido a políticos como Donald Trump ou partidos como o Chega, que colocam cartazes com frases polémicas.
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Couto lamentou “a importância que damos a estes sujeitos e a estas figuras políticas, como Trump”. No entanto, o autor moçambicano reconheceu que ele próprio é atraído, a um ritmo diário, para as declarações do presidente norte-americano.
“Eu não resisto. Vou lá ver e saber o que é que se passa, qual é o escândalo que Trump produziu. Então eu acho que eu faria melhor e, faríamos todos melhor, era ficarmos distraídos desse discurso para não nos afetar tanto”, explicou
Mas Mia Couto que já estava a ser aplaudido em peso pelo auditório do Espaço Vita esgotado, acrescentou ainda outra acha para a fogueira. “Olhar para o cartaz que diz ‘Isto não é o Bangladesh’ e dizer: “Que cartazes?! Não vejo!”
O Festival Utopia decorre até ao próximo dia 23 em vários espaços da cidade de Braga.
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