27 nov, 2025 - 07:00 • Maria João Costa
Diz que ia morrendo na primeira digressão que acompanhou dos Rolling Stones. Annie Leibovitz, fotógrafa norte-americana, hoje com 76 anos, tinha então pouco mais de 20 anos. As fotografias que tirou de forma “obsessiva” abrem a exposição “Wonderland” que inaugurou no porto da Corunha, em Espanha, na última semana.
Annie Leibovitz é a primeira mulher a ser convidada pela Fundação Marta Ortega Pérez (MOP) para expor no chamado Molhe da Bateria. Já antes esta fundação de uma das herdeiras do Grupo Inditex, donos da Zara, tinha organizado outras exposições de fotógrafos de renome do meio da moda, como Helmut Newton ou Irvinng Penn.
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A exposição reúne mais de uma centena de fotografias, na sua maioria são retratos que caraterizam o trabalho de Annie Leibovitz. Mas a fotógrafa quis, na entrada da exposição mostrar o trabalho com os Rolling Stones para explicar aos jovens fotógrafos de onde tudo vem, e que nem sempre o trabalho é fácil.
Na visita que fez recordou: “Eu fui a fotógrafa da tournée dos Rolling Stones em 1975. Quando olham para esta parede podem ver os Rolling Stones, mas eu vejo imagens de 35 milímetros e uma reportagem muito pessoal e obsessiva”.
A artista confessa que, na altura, “não tinha ideia” onde se estava a meter. “Sabia que íamos ficar em bons hotéis e até levei a minha raquete de ténis, a achar que poderia ter umas lições. Claro que, nunca vi a luz do dia durante três meses. Estava acordada noites seguidas!”, desabafa.
“Wonderland” é, contudo, uma exposição focada na moda, embora Annie Leibovitz admita que, para si, “o trabalho na moda, nunca foi o mais importante”.
“Tem sido, um sítio ótimo para brincar, mas claro que com o passar dos anos tenho aprendido que os designers de moda são grandes artistas. Neste momento, diria que a moda e a comédia têm-nos ajudado a sobreviver nestes tempos difíceis da política”, aponta.
Com aquilo que se passa no mundo, estes jovens fotojornalistas arriscam a sua vida, isso faz-me chorar
Leibovitz, que fotografou reis e rainhas de carne e osso, como os monarcas espanhóis, ou a rainha de Inglaterra Isabel II, mas também estrelas da música e cinema, admite hoje, mais do que nunca, admirar o trabalho dos fotojornalistas.
“Hoje, para mim, a fotografia mais extraordinária é a do fotojornalismo. Com aquilo que se passa no mundo, estes jovens fotojornalistas arriscam a sua vida, isso faz-me chorar. Eles são incríveis e muito fortes”, considera a fotógrafa.
Nesta exposição, onde as fotografias surgem pregadas na parede com pioneses, com cordas simples por trás, como se estivessem presas no estúdio de Annie Leibovitz, é mostrado todo o glamour em imagens como as que retratam a atriz espanhola Penélope Cruz.
Annie Leibovitz recorda que retratou a atriz várias vezes nos Estados Unidos, mas “fotografá-la no seu país, foi diferente”, explica. Encontrou uma Penélope Cruz mais “confiante” e isso vê-se nas várias fotografias expostas da artista.
“Numa boa fotografia não queremos ver a máquina fotográfica. Queremos entrar no conteúdo da imagem”, diz Annie Leibovitz, durante uma visita com imprensa do mundo inteiro que acorreu à cidade da Corunha para a inauguração da exposição.
É de resto de histórias que se fazem os vários retratos mostrados em “Wonderland”, a exposição que Leibovitz não tinha pensado fazer, mas que aceitou depois de uma viagem a Espanha – quando foi mostrar aos monarcas espanhóis o retrato que lhes fez – que a levou à Corunha, onde estava então a exposição de Irving Penn.
À imprensa, admite que nem gosta de expor no seu país. “Aqui todos gostam da sua cidade. Tem boas 'vibes'. Acho mais interessante expor no meio do meu país, do que em Los Angeles ou Nova Iorque. Eles não precisam. Precisamos de levar a arte a cidades como esta”, diz sobre a cidade galega.
Nesta visita, Annie Leibovitz recorda o seu passado quando ainda era estudante de artes. “Não tinha dinheiro para comprar aquelas revistas de moda, eram muito caras. Ficava horas nas bancas a folheá-las” diz a fotógrafa, que aproveitava o momento para aprender a “técnica” e como os “fotógrafos usavam a cor e a composição”.
“O que comecei a fazer foi criar uma história em cada fotografia. Fiz uma série para a Revista Life sobre poetas e eu li a poesia deles, e tentei fazer fotografias onde fosse possível sentir a sua poesia”, lembra.
E, em cada retrato exposto, vai contando a história que a levou aquele momento congelado na imagem. Uma delas, a imagem de Melania Trump grávida, a pousar no final da escadas de um avião, com o marido, Donald Trump, ao lado, dentro de um carro desportivo. “A fotografia de Melania Trump é uma foto de moda”, aponta.
As mulheres são um dos focos desta exposição. Surgem retratados nomes como Sarah Jessica Parker, Rihana, Pina Bausch, Susan Sontag, Patti Smith, Laurie Anderson ou Diane Keaton. Sobre Keaton, que morreu recentemente, Annie Leibovitz lembra como trabalhou com a atriz toda a vida.
“Percebi que ela me tinha realmente inspirado. Marcou com a sua forma de vestir e como viveu a sua vida. Era muito diferente do resto das estrelas de Hollywood. Ela era uma artista e também fotógrafa. Chegava ao estúdio com ideias”, explicou.
“Lembro-me de uma das primeiras vezes que a fotografei, estava um editor de moda da Vannity Fair cheio de ideias para ela, e eu disse-lhe: 'Ela não vai vestir nada disso!' e claro que não vestiu! Ela tinha as suas ideias e ele, não estou a brincar, foi para um canto chorar”, recorda.
Esta história serve à fotógrafa norte-americana para falar das mulheres de hoje em dia. “Hoje é bom de ver que a maioria das mulheres, veste o que quer. Há como um coro de confiança na forma de ser mulher hoje”, afirma.
Ao percorrer o trabalho de Annie Leibovitz na Corunha percebemos o tempo de vida da fotógrafa e os seus contemporâneos. “Apercebi-me nos últimos 10 anos ou mais que estava numa posição única de retratar o meu tempo e a minha vida. Claro que não vou conseguir fotografar todos, vão faltar muitas pessoas, mas podem achar isto tonto, mas acho que todos são interessantes. Não consigo evitá-lo”.
A mesma obsessão com que fotografou os Rolling Stones aos 20 anos continua. “Vou para cada sessão tentando dar o meu melhor e a tentar entender a pessoa, seja ela um rei ou um designer de moda. Só os tento perceber!”, admite.
Para Annie Leibovitz, hoje quando retrata alguém importa-lhe a “intemporalidade” da fotografia. “Gosto de sair de uma sessão fotográfica sabendo que fiz algo que pode perdurar no tempo, independentemente de quem seja o retratado”, explicou.
Questionada pela imprensa espanhola se gostaria de retratar o empresário Amancio Ortega, dono da Zara, e pai da presidente da fundação MOP, Annie Leibovitz explica: “Não tive tempo para pensar em quem quero fotografar aqui, mas claro que o senhor Ortega era uma ótima ideia. Depende dele. Ele é muito reservado”, diz.
Nesta exposição patente até 1 de maio de 2026, com entrada gratuita, o visitante vai também encontrar retratos de outros famosos, como o escritor Salman Rushdie ou do magnata Elon Musk.
Por no passado ter trabalhado “durante 30 anos” para revistas como a Rolling Stone, ao lado de grandes escritores como “Andrew Thompson, Tom Wolf e Truman Capote”, Annie Leibovitz explica que sempre foi exigente com o seu trabalho e que, muitas vezes, “sobressai o lado jornalístico, mesmo em retratos de moda”.
Destas memórias, entre fotografias a preto-e-branco e muitas a cor, a fotógrafa recorda a rir outro episódio do seu passado. “Fotografava a preto-e-branco, porque não sabia fotografar a cores quando comecei a trabalhar para a Rolling Stone. Eu menti-lhes! Disse que sabia!”, confessa Annie Leibovitz.
Hoje admite que sente “muita empatia” por quem retrata, sejam eles monarcas ou estrelas da moda, desporto, cinema, literatura ou cinema. Esta exposição “Wonderland” é um exemplo dessa empatia que se vê no olhar de todos os que Annie Leibovitz retratou ao longo dos anos.