Entrevista Renascença

“Batata”, “mesa” e touradas: a herança portuguesa do Prémio Nobel da Literatura Abdulrazak Gurnah

28 nov, 2025 - 17:13 • Maria João Costa

O autor de “Gente da Casa” guarda na memória as influências portuguesas deixadas em Zanzibar, onde nasceu. Em entrevista à Renascença, Gurnah admite que hoje há um novo tipo de colonialismo “instantâneo” com empresas como a Google ou o Tik Tok. Sobre a vaga de emigração na Europa, o Nobel diz que é o espelho das desigualdades no mundo, mas pede mais humanidade.

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Vive há décadas em Inglaterra, mas continua a escrever sobre o seu país que então se chamava Zanzibar, e que agora integra a Tanzânia. Abdulrazak Gurnah que venceu o Prémio Nobel da Literatura em 2021 quer contar as histórias do outro lado da colonização.

“Grande parte da literatura sobre o assunto foi escrita pelos europeus. Eles escrevem com base no que conhecem”, aponta em entrevista ao Ensaio Geral, da Renascença. O escritor admite, contudo, que não escreve sobre heróis, mas sim sobre pessoas comuns, as que diz conhecer.

O autor de “Gente da Casa” (ed. Cavalo de Ferro) que sabe algumas palavras portuguesas deixadas em Zanzibar pelos navegadores, considera que hoje há outra “espécie de domínio colonial” com as grandes empresas como a Google, a Amazon ou o Tik Tok. A diferença da colonização de há 500 anos é que é “instantânea”, aponta o Nobel.

Gente da Casa" é o seu último livro traduzido para Portugal. É uma história sobre três personagens de diferentes níveis sociais. Este é um livro que fala sobre o destino?

Provavelmente não usaria a palavra destino. Parece uma palavra muito forte. Diria que tive interesse em investigar como é as pessoas lidam com o que a vida lhes dá. Neste caso, três pessoas, embora existam outras na história, claro, mas as três personagens principais partem de situações diferentes.

Uma delas é órfã e não sabe muito sobre a sua família. Foi retirada da escola. É empregado doméstico. O outro, foi abandonado pela mãe, mas não de uma forma invulgar porque o deixa aos cuidados dos avós. Mas tem um caminho muito mais linear na vida, porque vai à escola, tem um irmão que o apoia, etc.

Já a jovem, a menina que se torna mulher, tem pais muito ansiosos, preocupados com a sua saúde. Ou seja, todos começam em pontos de partida diferentes, tal como todos nós e todos nós lidamos com o que a vida nos reservou. Depois temos de fazer algo com isso. Temos de viver.

Portanto, o meu interesse era ver como é que estas três pessoas lidariam com o que a vida lhes reservou. Por isso, digo que não é o destino. É mais sobre o que uma pessoa faz com a vida para construir algo, para se realizar.

Podemos dizer que isso também aconteceu consigo quando deixou Zanzibar e foi para Inglaterra?

Sim, com certeza. Mas acho que isso acontece com toda a gente, na verdade. Só que, em certa medida, é mais difícil para uns do que para outros. Uns nascem com famílias que os apoiam ou em circunstâncias prósperas, e outros não.

Mas todos temos de nos virar, independentemente da nossa sorte.

Mas é preciso saber estar atento aos sinais para escolher que caminho trilhar

Por isso, é interessante refletir ou investigar, porque as escolhas estão sempre a surgir diante de nós. E à medida que crescemos e nos tornamos adultos, já não há pais para nos orientar e aconselhar. Precisamos de tomar decisões por nós próprios, e fazê-lo com um certo grau de integridade.

Não se trata tanto de fazer o que é certo no sentido em que existe algo certo e algo errado, mas sim de fazer o que é bom não só para nós, mas para os outros.

Utilizou a palavra investigar. Investiga os seus personagens enquanto escreve ou já sabe que história eles vão contar?

Existe uma ideia, e eu, no meu processo de escrita, passo bastante tempo antes de começar a escrever, apenas a pensar nessa pessoa.

A literatura lembra-nos que fazemos parte de algo maior, que partilhamos a nossa humanidade com os outros.

Então primeiro escreve o livro na sua cabeça?

Não todo, e nem é que eu pense nisso de forma muito detalhada, mas pode vir-me à cabeça enquanto estou a fazer outra coisa. Posso de repente pensar: "OK, esta é uma boa maneira de pensar sobre ele", ou "quantos anos tem?", ou algo do género. Portanto, todos estes detalhes vão-se encaixando aos poucos, e aí tenho um plano geral, um esboço.

Depois também preciso de pensar em que voz é que isto vai encaixar e escrevo. Todos estes são os prazeres da escrita. Isto não é difícil, é o que torna tudo interessante.

Contudo, quando começo, às vezes simplesmente não funciona assim. Então penso: "Não, esta abordagem está errada, deixa-me pensar melhor!".

Por isso, respondendo à sua pergunta, mesmo que comece com uma imagem bastante concreta, sou muitas vezes obrigado a alterá-la, a corrigi-la, a fazê-la funcionar em conjunto com a de outra personagem. Será que essa pessoa diria mesmo isso a outra? Bom, como lhe disse, esses são os prazeres deste tipo de escrita que não segue um plano.

Eu não tenho um quadro com tudo anotado para dizer: "Este aqui vai fazer isto, este aqui vai fazer aquilo". Mas tenho apontamentos e ideias, e vai-se escrevendo, adaptando-as, alterando-as, melhorando-as, espero!

"Gente da Casa" foi o livro que escreveu depois do Prémio Nobel da Literatura. É difícil começar a escrever depois de um prémio deste? Ou já tinha começado a escrever este livro?

Já tinha começado a escrever quando recebi o prémio, mas tive de o pôr de lado por uns tempos, porque havia tanta coisa para fazer, para dizer, para conhecer pessoas.

Mas quando regressei, quer dizer, não é que tenha deixado de pensar nele, porque tinha refletido sobre o que já tinha feito e tomado certas decisões, mas quando voltei, foi o mesmo de sempre. Quer dizer, obviamente, o computador não sabe nada sobre o Prémio Nobel! Não se pode simplesmente dizer-lhe para fazer o nosso trabalho

O processo continuou o mesmo, a mesma tentativa de transferir as ideias da minha cabeça para a escrita. Mas fiquei contente de ver que o que tinha sido feito antes ainda estava vivo.

Às vezes, passado algum tempo, quando regressamos por alguma razão e pensa-se: "Isto é lixo!".

A razão pela qual escrevo é porque me interessa tentar imaginar qual é a parte que ficou de fora

Neste livro, tal como em outro escreve sobre pessoas comuns, pessoas como qualquer um de nós. Não são heróis, são as pessoas reais que lhe interessam?

Porque são as pessoas que eu conheço. Claro que posso, suponho, porque os escritores fazem isso, posso imaginar como agiria um herói. Mas não estou realmente interessado nisso.

Na maioria dos livros que escrevo, acho que o que me interessa é como começamos a falar, como as pessoas lidam com as circunstâncias em que se encontram.

Claro sou eu que as coloco nessas circunstâncias. Não é que escreva sobre pessoas reais, mas imagino como seria, digamos, estar num romance como "Paraíso".

Como seria o encontro, o aparecimento do colonialismo europeu no nosso país, porque foi um processo tardio de colonização, bem no final do século XIX. O que diria um rapaz de 14 anos, como lhe veria tudo aquilo? Bem, é assim que eu começo.

Portanto, não começo com o líder heroico da resistência ao colonialismo, porque isso já foi feito.

Acha que também tem um papel a desempenhar no contar dessas histórias que ainda não foram contadas pela narrativa histórica? São personagens que ainda não tiveram voz?

Regressando ao livro "Paraíso", muito do que li sobre esse encontro com o colonialismo europeu na nossa parte do mundo não estava completo. Há uma parte que não foi escrita, porque grande parte da literatura sobre o assunto foi escrita pelos europeus.

Eles escrevem com base no que conhecem. Não é necessariamente por mal, mas escrevem com base no que sabem. No entanto, há certas coisas que não lhes interessam, que não aparecem ou sobre as quais não têm conhecimento.

Essas são os tipos de coisas que me atraem e me levam a dizer: "Bem, não sabes isto, mas talvez devesses saber". Não se trata necessariamente de dizer que o que disse está errado. Por vezes está, mas não é necessariamente o caso. É explicar que há um outro lado.

Então, os seus livros, tem um papel no preenchimento dessa lacuna existente na literatura?

Bem, sim, mas não é essa a razão pela qual escrevo. A razão pela qual escrevo é porque me interessa tentar imaginar qual é a parte que ficou de fora. Se isso também lhe interessar a si ou a outros leitores, ótimo.

Principalmente, penso na escrita, e em mim como escritor, como uma tentativa de expressar estas ideias e estas questões que se tornaram fascinantes para mim.

Colonialismo: foram precisos 400, 500 anos para que o mundo estivesse completamente nas mãos da Europa. A Google, a Amazon e a Tik Tok têm isso de forma instantânea

Está sempre presente nos seus livros?

Espero que sim, porque me dedico muito a eles. Mas se se refere a mim como pessoa, então não, necessariamente. Bem, quero dizer, no sentido em que o que escrevo sobre o que conheço, sim, trata-se de mim, mas não de mim num sentido egocêntrico ou no sentido de "esta é a minha vida".

Vivemos uma era de extremos. Tem faltado bom senso? Acha que a literatura pode ajudar?

Primeiro gostaria de dizer que estamos a viver tempos extraordinários, porque cada época pensa que está a viver tempos extraordinários por várias razões.

O que pode a literatura fazer? A literatura pode fazer o que sempre fez.

Na verdade, o que a literatura faz, assim como a narrativa, a música, a arte, mas certamente as palavras, é falar-nos de nós próprios e fazer-nos compreender que os outros são iguais a nós.

Podemos pensar que a literatura nos lembra que fazemos parte de algo maior, que partilhamos a humanidade com os outros.

Acha que há uma nova espécie de "colonialismo" digital com grandes empresas como a Meta ou a Google?

É certamente algo novo e é certamente global de uma forma que nem o colonialismo europeu foi, porque é instantâneo.

Se pensarmos como se desenvolveu o colonialismo, foram precisos 400, 500 anos para que o mundo estivesse completamente nas mãos da Europa. A Google, a Amazon e a TikTok têm isso de forma instantânea.

É uma situação diferente, mas até certo ponto, suponho que seja uma espécie de domínio colonial, mas também há outros aspetos que o tornam mais capacitante.

Se pensarmos, por exemplo, no telemóvel e na forma como se espalhou por todo o lado e como libertou as pessoas que não conseguiam comunicar entre si, ou fazer tantas coisas, como aceder a uma biblioteca ou obter informação, agora podem fazer tudo isso.

Existe por isso, também este outro lado: as pessoas têm agora a possibilidade de se ligarem ao mundo de uma forma positiva, mas ao mesmo tempo também são mais vulneráveis ao poder destas instituições, uma vez que a vida de todos está nas mãos destas redes que sabem tudo sobre nós.

Falando do seu país, nasceu em Zanzibar, antes de fazer parte da Tanzânia. Portugal também esteve em Zanzibar. Foi um lugar muito importante para o império colonial português. Existe algum resquício dessa herança portuguesa no seu país?

Sim, existe. Estranhamente, na língua. Há palavras portuguesas que se mantiveram. Por exemplo, a palavra para batata em suaíli é "batata", que não é muito diferente.

A palavra para dinheiro é pesa que vem de "peso". Mesa é "mesa", etc. Portanto, há várias palavras que se mantiveram.

As pessoas ainda sabem que os portugueses andaram por lá. E em alguns locais, na outra ilha, em Pemba, ainda se praticam touradas, que foram introduzidas pelos portugueses. Portanto, existem alguns vestígios isolados como este.

Mas o facto é que os portugueses não conseguiram permanecer muito tempo naquela parte do mundo, porque os omanis vieram, lutaram e derrotaram-nos.

Em Mombaça, claro, onde permaneceram mais tempo, e em Malindi, ainda existe aquele enorme forte, o Forte Jesus, palco de uma batalha heróica dos portugueses. Mas essa foi a última batalha, penso que, depois disso, deixou de existir a presença portuguesa. Entre os omanis e os britânicos, creio que conseguiram eliminar a presença portuguesa!

Hoje a Europa vive a braços com a emigração. Recebemos muitos migrantes de todo o mundo, alguns fogem de situações políticas, outros por causa das alterações climáticas. Como vê este fenómeno, até porque tem aumentado o fenómeno do racismo?

Os movimentos na história da humanidade acontecem desde sempre. Milhões de europeus deixaram a Europa nos últimos séculos para ir para outros países e, por vezes, deslocando outros povos nesses países, e até matá-los.

Este movimento recente, no sentido da sua magnitude, tem vindo a ocorrer há apenas cerca de cem anos. Falo de um movimento das antigas regiões colonizadas para a Europa, América do Norte ou América Latina.

Na verdade, é uma expressão das desigualdades do mundo. Aqui há prosperidade e noutros locais há privação económica, em alguns casos. Por vezes há violência, há guerra. Portanto, há diferentes tipos de pessoas que vêm, ou vêm por razões diferentes.

Em alguns casos, são verdadeiramente refugiados, ou seja, pessoas cujas vidas estão em risco. Quando chegam, parece-me que, nessa situação, aqueles que têm condições têm a obrigação de oferecer hospitalidade. É como se estivesse em casa e alguém batesse à sua porta e lhe dissesse: "Por favor, por favor, pode dar-me um pouco de água?"

Há também outro tipo de movimento de pessoas que vêm porque querem melhorar a sua vida. Neste caso, trata-se de fazer uma escolha humanitária nos países recetores.

Permitimos a entrada dessas pessoas ou não? E, se não o permitirmos, existe uma forma legal e adequada de dizer que as permitiríamos, mas que não as queremos porque já temos pessoas suficientes para varrer as ruas?

O que está a acontecer agora é uma espécie de movimento em massa de pessoas que querem vir, principalmente jovens ambiciosos que desejam melhorar as suas vidas, e também uma espécie de pânico na Europa, que diz que estas pessoas vão destruir a nossa sociedade ou algo do género. E essa não é uma forma sensata de agir.

Acho que provavelmente existe uma forma mais humana e calma de lidar com o que está a acontecer. Mas, em alguns aspetos, talvez seja imparável. Se as pessoas precisam, vão encontrar algum lugar para ir.

Tal como aconteceu consigo quando foi para Inglaterra?

Sim, mas eu fui para lá, porque pensei que ia estudar. Mas a vida acontece e outras coisas ocorrem. E acabei por trabalhar lá o resto da minha vida.

Mas acredito mesmo que isto não é algo que se possa reverter, precisamente por aquilo que lhe dizia antes, as hoje pessoas conhecem o mundo.

Vêem tudo isto na TV e pensam: "Pois, também quero isto. Quero viver com mais conforto ou ter um emprego melhor e onde é que posso encontrar isso? Num daqueles países prósperos lá em cima."

Todo este contexto inspira a sua escrita?

Acho que as coisas sobre as quais escrevo refletem o que acontece à minha volta, com certeza. Mas não só aqui, como também lá, digamos assim.

Escrevo sobre questões desse tipo, sobre injustiça, sobre a necessidade de atos mais humanos. Mas não necessariamente num estilo polémico ou de discurso inflamado, do tipo "o que devemos fazer em relação a isto e aquilo?"

Outras pessoas sabem como fazer. Mas escrevo sobre os dilemas que as pessoas enfrentam como resultado disto, como é que lidam por exemplo, com o deslocamento, com a recusa de uma possibilidade de ir à escola

Acho que escrevo sobre coisas que acontecem à minha volta e sobre o que sei.

Quer pôr as pessoas a pensar?

Bem, isso elas é que sabem, não quero estar a condicioná-las. Mas espero que, como resultado, que as pessoas, primeiro, encontrem prazer, e, segundo, que digam: "Sim, eu compreendo isto, porque também me sinto assim", ou "Eu não sabia disso, mas agora aprendi algo". Todas estas possibilidades.

Isto é literatura. É uma experiência algo complexa. Eu sou leitor, além de escritor. E é uma experiência complexa, porque há todas estas outras coisas a acontecer ao mesmo tempo.

Não se trata apenas de aprender. Trata-se também de prazer. Trata-se também de dizer: "Concordo"!

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