05 dez, 2025 - 12:15 • João Malheiro
A Netflix é a nova proprietária da Warner Bros., negócio que inclui os estúdios de cinema e televisão, a HBO Max e a HBO. O negócio foi fechado esta sexta-feira, confirmando os rumores que davam a empresa número um de streaming no mundo como favorita na aquisição, já que superava as ofertas da Paramount Skydance e da Comcast, como escreviam meios especializados como a "Variety" ou a "Deadline".
Ao contrário das outras propostas, que contemplavam a compra total da Warner Bros. Discovery, a Netflix pretendia apenas adquirir a marca Waner Bros. e os seus conteúdos relacionados com a área do Cinema e do streaming. A Discovery e os canais de televisão tradicional como CNN, TNT, TBS, entre outros, continuariam a ser uma empresa à parte.
Até agora, a Netflix tem sido capaz de conquistar o mercado de streaming sem deter grandes propriedades intelectuais ou procurar adquirir os seus direitos, focando-se sobretudo em produzir conteúdos originais próprios. No entanto, com este acordo, a marca passa a ser dona de um legado de filmes de quase 100 anos, assim como todas as séries da chancela HBO, para lá de outras criações, como os super-heróis da DC Studios, a saga "Harry Potter", os desenhos animados "Looney Tunes" e "Scooby-Doo", o monstro King Kong e a versão ocidental de Godzilla, entre muitos outros.
A oferta da Netflix foi, segundo comunicado da empresa, de 27,75 dólares por ação da Warner Bros., o que equivale a um total de 82,7 mil milhões de dólares (acima de 70 mil milhões de euros).
Um grupo de cineastas e produtores anónimos assinaram uma carta dirigida ao Congresso dos Estados Unidos da América (EUA) a alertar para uma potencial "destruição" do mercado das salas de Cinema tradicionais. Isto porque, até agora, a Netflix tem mantido uma política bastante cética quanto ao lançamento dos seus conteúdos em sala, procurando privilegiar o streaming dos seus filmes, mesmo aqueles feitos por realizadores consagrados como Guillermo Del Toro, David Fincher ou Martin Scorsese.
Em 2023, Ted Sarandos - um dos CEOs da Netflix e a mais alta figura pública da empresa - disse mesmo numa chamada com acionistas que "levar a malta às salas simplesmente não é o nosso ramo". E a verdade é que as principais exibidoras norte-americanas criticam, constantemente, a estratégia para a distribuição (ou falta dela) em sala da Netflix. De resto, a AMC - a maior exibidora dos EUA - está praticamente de relações cortadas com a empresa de streaming, recusando-se a passar filmes em janelas de apenas 15 dias (como é a preferência da Netflix).
Antes do acordo ser firmado, a "Variety" escrevia que a proposta da Netflix para adquirir a Warner Bros. contemplava, precisamente, que futuros filmes do estúdio estejam em sala por apenas duas semanas, antes de serem disponibilizados em streaming. Uma decisão que a Netflix negou até agora, alegando que quer respeitar o "legado cinematográfico" que pretende adquirir.
A carta assinada por realizadores e produtores, que dizem preferir manterem-se anónimos por medo de retaliação por parte destas empresas, apontam que a Netflix poderia "asfixiar" as salas de Cinema, caso o acordo em causa se concretizasse.
A Warner Bros. lançou em sala 12 filmes em 2025, como os êxitos de bilheteira "Um Filme Minecraft", "Superman" e "F1: O Filme" e os candidatos sérios aos Óscares "Batalha Atrás de Batalha" e "Pecadores". A menos de um mês do final do ano, é o estúdio de Hollywood mais bem-sucedido nas salas de Cinema, em 2025.
Por isso, o grupo de profissionais da indústria pede, urgentemente, ao Congresso norte-americano que analise a proposta da Netflix "sob o mais alto escrutínio" das regras da concorrência do país.
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A atriz Sonia Balacó e a realizadora Tota Alves ju(...)
A compra da Warner Bros. já era um tópico de conversa em Washington, nas últimas semanas, e o avanço da Netflix apenas veio intensificar as discussões. Segundo o "The New York Post", a Casa Branca e o Departamento de Justiça norte-americano estão com sérias dúvidas quanto à viabilidade deste negócio e o seu impacto no ecossistema da indústria do Cinema.
A maior preocupação nem se prende tanto com o comportamento da Netflix perante o mercado de exibição tradicional, mas mais com um eventual desiquilíbrio dentro do mundo do streaming. De acordo com os dados mais recentes do site FlixPatrol, que reúne as informações públicas mais recentes de cada empresa, a Netflix domina o mercado com mais de 300 milhões de assinantes em todo o mundo. Já a HBO Max ocupa a quarta posição do ranking com cerca de 128 milhões de subscritores.
É que ao adquirir a Warner Bros., a Netflix passa a deter todos os conteúdos da HBO Max, podendo cavar um fosso considerável face aos rivais mais diretos como a Prime Video da Amazon ou a Disney+. Outro risco, dizem fontes da administração Trump, é de que os preços de assinatura disparem para níveis inaceitáveis.
No entanto, a realidade é que uma aquisição desta magnitude ser travada pelo Congresso seria a abertura de um precedente, pois, até hoje, estes negócios têm avançado com sucesso. A Disney, que se tem mantido silenciosa sobre este tema, é dos maiores exemplos, tendo comprado a Marvel Studios, a Lucasfilm (produtora da saga "Star Wars") e o conglomerado 21st Century Fox, nas últimas décadas.
A Paramount e a Skydance fundiram-se ainda este ano e a própria Warner Bros. tinha-se juntado à Discovery em 2021. Todos estes acordos acionaram alertas na indústria do entretenimento, porém acabaram sempre por se concretizarem.
A preferência pela Netflix surgiu com alguma surpresa, pois a imprensa especializada apontava a Paramount Skydance como a pretendente mais provável para adquirir a Warner Bros. Discovery, num negócio que contemplava a totalidade da empresa, e não apenas os conteúdos de Cinema e streaming.
A proposta da empresa liderada por David Ellison contemplava financiamento do Médio Oriente, contando com o apoio de fundos de investimento da Arábia Saudita, do Qatar e dos Emirados Árabes Unidos. A seu favor jogava, igualmente, a proximidade que ele e o seu pai, Larry Ellison, atualmente o segundo homem mais rico do mundo, partilham com Donald Trump.
"São amigos meus. São grandes apoiantes", referiu o Presidente dos EUA há uns meses, citado pela CNN.
Esta proximidade da Paramount Skydance com a Casa Branca provoca outro tipo de receios na indústria do entretenimento. No início de novembro, a "Variety" referia que David Ellison teria elaborado uma lista de atores banidos de trabalhar em produções da sua empresa, devido a posições "antissemitas". Em setembro, a Paramount Skydance criticou publicamente artistas como Emma Stone, Javier Bardem, Mark Ruffalo, Joaquin Phoenix, Emma D'Arcy, entre outros, que assinaram uma carta a pedir um boicote a Israel, "contra o genocídio e o apartheid do povo palestiniano".
De resto, o pai do líder da Paramount Skydance, Larry Ellison é um amigo próximo do primeiro-ministro de Israel e um dos maiores doadores de um fundo de apoio ao exército israelita.
Os medos de censura agravaram-se com o cancelamento do "The Late Show with Stephen Colbert", apesar de ser o programa noturno mais visto da televisão norte-americana, em julho. O canal CBS é detido pela Paramount que, na altura, ainda tentava obter a aprovação da Comissão Federal de Comunicações dos EUA para a fusão de 8,4 mil milhões de dólares com a Skydance Media, entretanto aprovada.
O terceiro concorrente à compra da Warner Bros. era a Comcast. Partindo claramente em desvantagem, face à Netflix e à Paramount Skydance, a empresa é uma das mais relevantes do mercado e também provocaria discussões sobre monopolização, pois detém o estúdio Universal, a plataforma de streaming Peacock e a rede de canais NBC.
Esta sexta-feira, acabaram-se as dúvidas e a Netflix fechou o negócio. No entanto, a conclusão da transação só acontecerá, segundo o comunicado, depois da separação, previamente anunciada, da divisão Global Networks da WBD, a Discovery Global, numa nova empresa de capital aberto, cuja conclusão está prevista para o terceiro trimestre de 2026.