12 dez, 2025 - 20:42 • Maria João Costa
Detesta formalismos. Diz que escreveu uma tragédia greco-americana. Gonçalo M. Tavares levou sete anos a rever “O Fim dos Estados Unidos da América” (ed. Relógio d’Agua), o livro com cerca de 900 páginas que ao autor diz ser uma “sátira”.
Gonçalo M. Tavares espera não ser julgado pelo título e pela “tendência para a superficialidade muito forte” que hoje existe. Em entrevista à Renascença, explica que a nova epopeia em que se meteu “não é um ataque aos Estados Unidos”. Quer antes, com o livro, “pensar como é que um império hoje lida com um problema”.
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Escrito antes da pandemia, “O Fim dos Estados Unidos da América” tem como cenário uma América atacada por uma peste, essa “peste pode ser o desemprego”, explica. Confessa que há coisas que admira na América, mas “chamar rico a um país que tem 40 milhões de pobres” é uma visão de riqueza que diz não ser a sua.
No livro que lhe saiu numa espécie de transe, como um “zombie”, admite que descobriu uma nova forma de escrever. Nesta epopeia em que “a língua portuguesa está no centro”, tenta usar as armas da literatura para combater “a fluidez tonta que anda em grande circulação pelo mundo” e “introduzir a reflexão num século de aceleração de estupidez”.
“O Fim dos Estados Unidos da América” é de novo uma epopeia, mas desta vez com um registo de escrita mais livre, muito marcado pelo ritmo e sonoridade das palavras. Que história é esta que lhe levou sete anos a lançar?
A escrita propriamente dita é normalmente rápida. É estranho. Depois demoro a rever, a entranhar-me e a saber o que é deixo cair. Mas acho que isto é um livro muito livre.
É uma história de uma peste que entra nos Estados Unidos e, de alguma maneira, de como o país vai reagindo e como várias seitas malucas vão tentar descobrir a cura para a peste. A certa altura há a tensão de uma possível guerra civil.
Há aqui a questão dos personagens Ted Trash e do Left Wing, a questão política; depois umas personagens como uns ativistas, ou um informático.
Sinto que não conseguiria escrever isto há 10 anos
Uma grande diferença em relação ao "Uma Viagem à Índia" é que era um livro em que o Bloom era o centro, e esta epopeia é uma epopeia de personagens.
Tem um Tai-Chi, um mestre chinês, tem personagens da mitologia grega, o Laio, Jocasta e Tirésias, que remetem também para o mito de Édipo e, portanto, em termos de linguagem nada tem a ver com "Uma Viagem à Índia". É um outro mundo.
Uma escrita diferente?
Sinto que não conseguiria escrever isto há 10 anos. Em termos técnicos é como um cineasta que vai vendo as suas mudanças. Isto em termos técnicos é muito mais exigente.
Interessava muito esta questão da língua e da liberdade da língua. Há linguagem mais erudita ou mais cuidada, mas que é de repente abalroada com uma linguagem mais popular. Isso é algo que posiciona esta epopeia no século XXI.
A epopeia clássica era uma espécie de blindagem da linguagem, de uma linguagem muito fechada. Acho que uma das coisas fundamentais dos tempos em que vivemos é esta não divisão das palavras - das palavras altas e palavras baixas, ou palavras ricas e palavras pobres.
Lembro-me perfeitamente - não sei se ainda existe, espero que não - do dicionário de calão. Havia um dicionário, digamos, sério, e depois havia o dicionário de calão. Felizmente, o calão, as palavras do bairro foram entrando no dicionário normal. Hoje temos um dicionário único.
Eu escrevo instintivamente, sem pensar nas palavras, mas houve aqui uma liberdade completa de poder começar uma frase num tom e, de repente, terminar noutro.
É uma história com vários narradores. É uma sátira
Em termos narrativos é também diferente?
É uma história com vários narradores. É uma sátira. Gosto muito destas personagens. Acho que são muito dadas e cómicas, mas ninguém é perdoado
O Ted Trash, que é o líder fascista, não é perdoado, mas também o Left Wing, o líder da esquerda e depois mais tarde da extrema-esquerda, também não é perdoado.
Até o narrador, a certa altura, o autor diz que o narrador está aqui a esquecer-se de algumas personagens, está meio desastrado, portanto é algo que tenta ter um sentido crítico e satírico em relação à política, mas não só. Também há a questão da ciência, da inteligência, do pensamento grego, do pensamento e da ação americana.
Isto pode servir como um eventual diagnóstico dos Estados Unidos da América
Não deixa de ser paradigmático que coloque este livro neste contexto de uma peste, embora o tenha escrito antes da pandemia de Covid-19, mas de uma peste que entra num país que atravessa um dos momentos mais desafiantes da sua história, a nível político. Há um olhar crítico quanto aos desafios que a maior democracia enfrenta hoje?
Acho que pode ser lido assim. Um livro de ficção pode ser lido de diferentes maneiras. A certa altura na pequena entrada do livro falo da questão da ficção "fica", “só a ficção fica”. Isto pode servir como um eventual diagnóstico dos Estados Unidos da América, mas é muito importante dizer que eu admiro uma quantidade de coisas da América.
Fiz uma grande viagem pelos Estados Unidos de carro, tenho familiares que estudaram nas universidades americanas, os Estados Unidos têm uma questão da ação absolutamente incrível para resolver problemas. Fomos à Lua e se calhar até resolvemos a questão das vacinas, porque há ali um espírito americano da ação que admiro.
Chamar rico a um país que tem 40 milhões de pobres é uma visão de riqueza que não é minha
Mas claro que há outras coisas que não admiro, não apenas de agora, mas agora é talvez mais evidente quando vemos o que está a acontecer.
Uma das coisas que está aqui, é a questão da riqueza e da pobreza. Uma coisa que não admiro é que é o país mais rico do mundo, que produz mais riqueza - mais do que a China - tem 40 milhões de pobres. Isto é até quase paradoxal. Chamar rico a um país que tem 40 milhões de pobres é uma visão de riqueza que não é minha.
Isto não é um ataque aos Estados Unidos. É pensar como é que um império hoje lida com um problema, que pode ser uma peste, mas a peste pode ser o desemprego ou qualquer coisa.
Também me interessava esta relação entre a Grécia e os Estados Unidos, entre uma Grécia reflexiva e que, se nós tivéssemos à espera dela, ainda hoje, mesmo que os gregos antigos tivessem acesso à tecnologia para ir à lua, acho que não teriam ido, porque começavam a pensar: “Faz sentido? Será que?” Enfim, estariam ainda a debater as grandes questões de o porquê de ir à lua. Já os Estados Unidos estão centrados no "como". Não perdem tempo em grandes reflexões, para o mal e para o bem. A questão é "Como é que vamos?".
Portanto, este livro é muito sobre esta herança, que nós também temos como europeus da Grécia e de Roma, esta questão dos mitos - e há aqui personagens realmente míticas que se cruzam, o Tirésias, o oráculo, que se cruza com o Al Capone, com o cientista de Harvard, com um coveiro, com o McDonald's ou com os Simpsons.
Acho que é um diálogo importante. Tem a ver com esta mitologia grega que vem de trás, e por outro lado, os mitos americanos que a colonização abafou por completo ou eliminou nos mitos indígenas.
Há mitos índios absolutamente extraordinários, mas que foram anulados, e de alguma maneira a sociedade americana tem mitos para a frente, para o bem e para o mal. Por exemplo, o mito de ir à Lua e o mito agora de ir a Marte. De repente é uma transformação. O mito não nos faz olhar para trás, mas sim para a frente.
Este livro tem muito a ver com isso. A personagem Bloom está entre o mundo grego, que reflete, e o mundo Yankee que age, sabendo muito bem que há americanos a pensarem extraordinariamente e grandes gregos a agir de uma forma convicta. Isto é uma sátira.
Regressou à sua personagem Bloom. Em que medida este anti-herói serve esta história? Ele é uma espécie de D. Quixote? Até tem a companhia de um Sancho Pança, que é o Creonte.
Isso é engraçado, não tinha pensado nisso. É bonita essa interpretação. O Bloom, sim, é uma espécie de D. Quixote. Nunca tinha pensado nisso. Até no "Uma Viagem à Índia"!
A grande diferença é que este é um livro de personagens, mas está sempre aqui o Bloom a tentar resolver qualquer coisa.
É um homem aparentemente banal, mas que ouve de um oráculo e de algumas vozes, como de um psicanalista que é ele que vai salvar a América da peste e parte pelo país.
É um D. Quixote no sentido em que é alguém pouco prático. É um bocado de trapalhão. Aqui não há moinhos, mas há de alguma maneira seitas que, de repente, dizem que vão curar a peste com uma dança muito lenta de 10 mil pessoas, em que só o polegar e o indicador da mão direita é que mexem ligeiramente.
Se isso acontecer sincronizado, isso vai curar a América! E de repente o Bloom está diante daquele bailado, meio fascinado, meio desconfiado, portanto é alguém que tem assim uma espécie de moinhos de vento, da cura da peste, e é alguém um bocado ingénuo, ou seja, também uma parte de Sancho.
O Creonte, o amigo dele, pode ser visto como alguém muitas vezes mais terra a terra. Ele vai dizendo ao Bloom: "Atenção, tu não és um herói, não és um super-herói". Acho que pode ser engraçada essa alusão ao D. Quixote e ao Sancho.
Nesta epopeia há um lado muito teatral, ou seja, as personagens vão surgindo como num palco, vão sendo introduzidas com as suas histórias ao leitor.
Não pensei especificamente na questão do teatro. A mim interessava-me que as personagens fossem apresentadas com a notícia de que a peste está a entrar nos Estados Unidos.
É curioso falar da questão do teatro, porque, o António Guerreiro na apresentação falou bastante sobre isso e aproximou-o de "Os últimos dias da humanidade", de Karl Krauss, que é uma peça de teatro.
É interessante, porque há uma reação muito engraçada que é da leitura em voz alta. Eu acho que há várias leituras. Uma leitura rápida, uma leitura lenta, também uma leitura muda e uma leitura em voz alta.
Eu escrevi a matéria bruta, toda em 2019, início de 2020. Portanto, estava terminada quando apareceu a pandemia
Há aqui uma questão sonora que penso que é importante. E há um projeto já, tanto no Porto, como em Lisboa, de se poder ler um livro alto do início ao fim e haver uma gravação. Isto remete para uma literatura que possa ser ouvida.
Eu escrevi isto muito como um "zombie" mental. Ia pensando e narrando com um determinado ritmo, dando importância ao som. É também um livro em que a língua portuguesa está muito no centro.
Uma vez num documentário do Marco Martins, o Gonçalo M. Tavares aparecia a escrever no computador de uma forma torrencial. Este "O Fim dos Estados Unidos da América" também lhe saiu com essa mesma torrente?
Eu escrevi a matéria bruta, toda em 2019, início de 2020. Portanto, estava terminada quando apareceu a pandemia. O momento de escrita, como está a dar o exemplo, realmente é uma coisa meio torrencial.
Aqui, o mais surpreendente é que é uma escrita completamente diferente. Se alguém leu o "Aprender a Rezar na Era da Técnica", ou o "Jerusalém" ou mesmo "Uma Viagem à Índia" nada tem a ver com isto.
Eu descobri qualquer coisa que não conseguia fazer antes. Descobri que consigo pensar e narrar, seguindo uma espécie de ritmo, som e repetições. Isso é muito engraçado.
Remete para uma concentração ou uma espécie de transe. Preciso de concentrar-me agora, para entrar nesta linguagem. Preciso me esforçar, mas quando estava a escrever, era mesmo uma coisa de transe, em que as palavras, naturalmente, iam contando a história.
Quer dar algum exemplo?
Estou a abrir aqui, ao acaso o livro…"Máquinas criadas para manipular débeis esqueletos". Há de repente, o som "M".
O que eu acho que descobri é que aquilo que pensava que era inconciliável, a questão do sentido do que estamos a dizer e a questão do som, afinal era conciliável.
Senti que consigo contar a história, consigo pensar, ao mesmo tempo tendo por base uma canção, um ritmo. Isso, para mim, foi uma descoberta do meu cérebro.
É como se descobrisse uma área do meu cérebro criativo, com a linguagem que pensava que não era possível.
Há aqui qualquer coisa de repetições sonoras, mas sempre sem abdicar do que quero dizer, porque se há coisa que detesto e me afasta é a questão do formalismo.
Descobri algo para mim muito importante. É claramente fora. Parece-me uma outra língua.
O "Diário da Peste", que escrevi depois deste livro, já é uma consequência. Apesar de ser completamente distinto, já tem qualquer coisa a ver com esta questão da importância do som e do pensamento.
Parece uma coisa meio mística, mas sentia, a partir de certa altura que estava a assistir ao som a pensar. Viu-me a escrever nesse documentário. Eu escrevi exatamente da mesma maneira, ou seja, não paro a pensar numa palavra ou se ponho esta ou aquela palavra. Isso não existe! Estou a escrever e "buumm buuum". Eu estive aqui uns meses, enquanto escrevi-a isto, num outro mundo.
Talvez por isso, tenha demorado também tanto tempo para rever. Porque era muito difícil entrar nesta outra língua.
Como é que acha que a América de Donald Trump, a América de hoje, veria este livro?
Há muitos que não veriam, nem leriam! Aliás, é engraçado, porque nós estamos numa época trágica e cómica, como todas as tragédias.
Esta coisa de ler os títulos e tirar conclusões é engraçada. Este livro tem 900 páginas. E é engraçado que, às vezes, as pessoas leem o título, "O Fim dos Estados Unidos da América", e pensam logo que é um livro contra a América.
Uma coisa que marca o tempo é isto. Há pessoas que sabendo que é um livro de 900 páginas, podem logo começar a dissertar a partir do título. É muito engraçado.
Acho que há uma tendência para a superficialidade muito forte, quer nos Estados Unidos da América, quer em todo lado.
Eu diria que este livro, nesse particular, é quase de outro século. Espero que seja de séculos anteriores e de séculos futuros! Logo de imediato pela questão da dimensão, não é? E pelo ritmo. Mas acho que as pessoas não leriam.
Felizmente tenho alguns malucos engraçados que leem os livros, mas a tragédia da linguagem, para quem gosta da questão da linguagem e da escrita, é que o Elon Musk ou o Trump dizem uma frase - dou como exemplo a frase do Elon Musk que falou de empatia tóxica para a economia - e essa frase terrível tem infinitamente mais importância na realidade dos Estados Unidos, do que qualquer calhamaço de 900 páginas.
É o dramático disto! É perceber como a literatura tenta combater com os seus meios, com as mãos, sem qualquer armamento, e é um combate injusto. É absolutamente derrotada à partida. Mas gosto desta ideia do derrotado apresentar-se a combate.
Eu diria que esta epopeia, "O Fim dos Estados Unidos da América", quando eventualmente sair nos Estados Unidos, é o derrotado a apresentar-se a combate. Alguém que vai ser chacinado apresenta-se a combate.
É uma tentativa de uma micro coragem, de introduzir a reflexão, o tempo e a canção num século de aceleração, de estupidez, de slogans rápidos, de falta de pensamento.
Um derrotado por se apresentar ao combate, não vai mudar a história, mas pelo menos alguém sabe que algumas pessoas se apresentam a combate sabendo que são derrotados. Acho que este livro é isso também.
É um livro que de alguma maneira, tenta combater a fluidez tonta que anda em grande circulação pelo mundo, felizmente com muitíssimas exceções de resistentes.