23 jan, 2026 - 18:15 • Maria João Costa
A música “é uma espécie de nuvem” e as letras são “poemas que tentam não ser traídos pela música”. É desta forma que Pedro Abrunhosa define o seu novo disco, “Inverbo”. O álbum que marca o seu regresso ao estúdio, cinco anos depois, tem no centro a palavra.
O artista que escreveu de fio a pavio as letras e músicas do disco diz, em entrevista à Renascença, que hoje, sobretudo nas redes sociais, a “palavra tornou-se, não um instrumento de comunhão, mas um instrumento de afastamento”.
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Abrunhosa, que esteve recentemente no Vaticano a partilhar uma conversa com a pianista Maria João Pires e o cardeal Tolentino Mendonça, fala da importância do silêncio. “Para o músico o silêncio é o lugar onde o acorde nasce”, sublinha, numa entrevista em que fala também de política.
Apoiante de António José Seguro nas presidenciais, o músico considera que a “democracia ganhou” a 18 de janeiro, e espera que volte a ganhar a 8 de fevereiro. Mas critica Luís Montenegro por não ter assumido uma posição face aos resultados da primeira volta e lembra que “não restam dúvidas: não há lugar para hesitações”.
São poemas que tentam não ser traídos pela música. E é música que tenta não ser revoltada pela palavra. E, portanto, há aqui uma ligação entre música e palavra, cuja maior ambição é a profundidade.
Nós vivemos tempo de rapidez, de voracidade, de pouca atenção ao que é verdadeiramente importante, às pequenas coisas e à pequena felicidade.
Estas canções são isso, são histórias simples de ligação, de relações interpessoais e a palavra, que é a mais bela das invenções da humanidade, e aquela que aproxima comunidades, tentam celebrar esse momento que é estar vivo.
Já defini a música aqui como uma espécie de nuvem. É uma entidade que não se consegue agarrar. As várias camadas musicais que aqui estão, e estão muitos instrumentos, porque eu gosto de trabalhar com muitos músicos. Estas várias camadas de intervenções dos instrumentos abraçam as palavras.
Quando colocamos no meio de uma nuvem alegórica, se quiser, o poema, ele fica, deita-se sobre a canção. O poema é abraçado pela música. E é nesse sentido que eu digo que espero que a música não atraiçoe o valor das palavras e vice-versa.
Basta olhar à volta, basta ver os jornais e, pior do que tudo, é abrir as redes sociais, onde a palavra se tornou não um instrumento de comunhão e de elevação, mas um instrumento de afastamento, de redução e de maniqueísmo.
Cada vez mais, infelizmente, a tecnologia vive ao serviço de funções não propriamente muito humanas, como o lucro que não é propriamente uma das maiores virtudes da humanidade.
Mais do que nunca, a arte, e não só, todas as missões espirituais, naturalmente a religião, esta espiritualidade profunda da ética cristã, são fundamentais para que nós nos recentremos para ultrapassar a rapidez da velocidade com que nos dedicamos ao banal, passando ao lado das coisas mais fundamentais da vida.
Nós não somos felizes sem a profundidade
Ocupa o centro. Nós não somos felizes sem a profundidade. O ser humano, em circunstâncias muito atrozes como guerras, como profundas transformações sociais, necessita do lugar espiritual que é a arte para se reerguer.
Aliás, um exemplo muito rápido, há 50 mil anos, as concentrações, ainda não tribais, no meio do frio, na agressão dos elementos, protegendo-se das feras, buscando permanentemente comida para si e para os seus, encontravam sempre uma necessidade de se expressar através do movimento artístico. A mão, na parede, o desenho da garça ou do bisonte. E, portanto, repare que num ambiente tão hostil como aquele, havia a necessidade de produzir o belo. Era uma forma de consolo.
Nós estamos aí. Somos de novo essa tribo envolta em frio, à busca de consolo e a arte cumpre esse papel. Essa espiritualidade que a arte é, naturalmente, outras atividades também, mas falo da arte enquanto essa busca do absoluto, é nos vital!
O silêncio é um fascínio. Não é o vazio, é outra coisa. O silêncio é o sítio onde o acorde nasce.
Fui ouvir o D. Tolentino e ouvir a Maria João Pires. Foi uma lição. Nós fomos falar sobre algumas destas questões que estamos aqui a divagar, sobre a necessidade de repor a palavra enquanto ponte, e não enquanto farpa. O silêncio, o papel transformador da arte, o refúgio que arte e religião continuam a produzir ao ser humano.
Fomos falar sobre isso tudo. Foi uma conversa que durou cerca de uma hora e meia e que já estava agendada há bastante tempo, foi uma conversa na qual eu fui mais ouvinte, sairá sobre o lema de "Elogio do Silêncio".
Na realidade, fui silenciosamente ouvir estas duas personagens fabulosas da cultura e do pensamento, discorrerem sobre o que é que é para elas o silêncio. E acho que é uma conversa interessante.
Falo da arte enquanto busca do absoluto, é vital!
O silêncio, no caso do músico, é a sua pedra mármore. O escultor vai ao mármore e a escultura está lá dentro. Tira o excesso. A música reside no silêncio. E, portanto, o silêncio não é um local de ausência. É um local de uma presença misteriosa. Porque é no silêncio que tudo se processa.
Nós, no silêncio, pensamos. Nós, no silêncio, meditamos. Nós, no silêncio, resolvemos problemas. É também no silêncio que nós oramos.
Esta ligação a qualquer coisa do divino, é produzida neste espaço. O D. Tolentino dizia, numa frase lindíssima, que “o silêncio é um lugar”. E, de facto, acho que é a melhor definição para o conceito de silêncio.
Para mim, o silêncio é um fascínio. Mas, atenção, o silêncio não é o vazio. O vazio é outra coisa. O silêncio é estarmos no topo da montanha e ouvirmos o que vemos. Esse é o silêncio. E, para o músico, o silêncio é o sítio onde o acorde nasce.
Porque eu creio que não se pode falar da vida, da humanidade, sem o amor. Infelizmente, para muitos, pela ausência do amor, o oposto, o antagonista do amor, a guerra, o ódio, a desaceitação, a afronta ao mais fraco - porque são sempre os mais fracos, aqueles que são o objeto do ódio, nunca são os mais fortes - o amor é sempre o maior e mais rico dos projetos de toda a literatura universal, de toda a arte.
E na canção também. A canção é um formato muito específico, porque mistura duas formas de arte completamente distintas, a literária e a musical. A canção é uma história de três minutos. E nessa história nós contamos as frustrações, as ambições, os desejos, os medos, as ansiedades, mas também as celebrações e as alegrias.
Não há nada que sintetize tudo isso, como o amor, porque nós amamos tanto algo que quando o perdemos é aquilo que nos faz imensamente felizes que também nos faz imensamente infelizes.
Portanto, o amor é sempre uma metáfora do melhor e do pior que se passa no nosso profundo.
Estamos neste momento em ensaios aqui no Super Bock Arena, no Porto. Estaremos 23, 24 e 25 aqui, depois 31 em Lisboa, no Meo Arena.
São espetáculos algo de diferentes. São profundos. São profundamente interiores, são emocionais, são sítios para quem vier, que parafraseando D. Tolentino, estará num lugar.
Esse tal lugar e espaço, que necessariamente será um espaço de silêncio, será também de celebração e, permita-me a expressão, de uma liturgia sem sagrado.
Nós quando estamos em comunhão numa sala, numa arena, somos abraçados pela música, e simultaneamente somos abraçados por 15 mil pessoas no mesmo espaço, nós não deixamos de estar numa liturgia que é nossa.
Aquilo que é relevante, e me faz sorrir, é que claramente a democracia ganhou, e ganhará na segunda volta
A palavra é mesmo essa, equilíbrio. O estúdio é ascese, é o ascetismo, se quiser melhor. O estúdio é o recolhimento, é o pensamento, e o palco é a celebração. Aí, numa separação, eu diria Nietzscheana, do Apolíneo e do Dionísio, daquilo que é interior, daquilo que é celebratório.
É fundamental um e outro, mas repare, muitas das canções crescem ao vivo. Eu edito-as em disco, mas vou experimentando-as na estrada, e é muito interessante ver em sítios que eu não diria centrais, geograficamente, nas ilhas ou no interior do Alentejo ou em Trás-os-Montes, numa festa popular, eu faço questão de fazer algumas das músicas que estão no “Inverbo”.
Eu já as testei há um ano atrás, e é impressionante perceber a adesão emocional das pessoas. A canção vai ao encontro do ouvinte. De repente, o ouvinte parece que reconhece a canção, que ela sempre existiu. O palco e o estúdio são como locais de total complementaridade.
Faço a leitura que me parece mais óbvia. A democracia ganhou. Baseado nessa leitura, e olhando para os resultados, porque Marques Mendes é um democrata, porque Gouveia e Melo é um democrata, porque, apesar de todos os ruídos, também não acredito na hostilidade de Cotrim de Figueiredo perante a democracia, apesar de discordar das suas premissas ideológicas, e o resultado de António José Seguro é claríssimo.
Numa primeira volta, com 11 candidatos acho que é claríssimo que ganhou a democracia. Fico naturalmente triste por 23% da população portuguesa acreditar na mentira, no engodo e naquilo que é a inimizade perante os valores mais sagrados da Portugalidade, da sua população, da liberdade - aquilo que a ética cristã e aquilo que é o respeito pelo mais fraco.
Fico triste com o abraçar, nestes 23%, de uma inimizada assumida de países externos contra Portugal. Causa-me alguma preocupação, porque nós sabemos que aquele que teve 23% foi ao beija-mão a Trump, e o Trump não é provavelmente um amigo da Europa.
Fico muito preocupado em perceber que 23% das pessoas acham que Portugal deveria alinhar com a invasão da Gronelândia, por exemplo, ou que deveria voltar a um regime que não permitia eleições, por exemplo.
Aquilo que é relevante, e me faz sorrir, é que claramente a democracia ganhou, e ganhará na segunda volta, não tenho dúvidas.
Fico extremamente triste com Luís Montenegro, que não percebe que isto não é uma questão de indecisão. Não se pode, perante o bolo manifestamente são e o bolo manifestamente insalubre e decomposto, não se pode dizer que são iguais.
Não restam dúvidas. Aqui não há lugar para hesitações, como já foi afirmado até por pessoas da direita. E, portanto, creio que a segunda volta poderá também definir muita desta realidade.