Entrevista Renascença

Mário Laginha: "Às vezes sento-me ao piano um bocado revoltado a pensar, deixa ver se desabafo aqui um pouco”

30 jan, 2026 - 23:50 • Maria João Costa

Há 19 anos que não lançava um disco a solo. A sua carreira foi feita quase sempre em duos ou trios, mas chegou o momento de editar um novo disco em nome próprio. Mário Laginha apresenta “Retorno”, o seu novo trabalho, a 5 e 6 de fevereiro, no CCB.

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“Um dia, a minha mulher, a Francisca, disse-me: ‘Tu tens de fazer um disco a solo!’. Foi muito assertiva, como aliás é sempre, e convenceu-me”, conta-nos Mário Laginha sentado ao piano. O músico explica assim como surgiu “Retorno”, o segundo disco a solo da sua carreira.

Passaram 19 anos, desde que lançou “Canções e Fugas”, o seu primeiro trabalho a solo. Pelo meio gravou vários discos em duo ou trio e deixou-se contaminar pelas várias influências, uma delas a do fado. “Retorno” resulta desse somatório.

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O disco que conta com cinco improvisos vai ser apresentado em concerto já dias 5 e 6 de fevereiro, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Em entrevista à Renascença, enquanto vai de vez em quando tocando piano, explica-nos que é nas teclas que por vezes desabafa, perante o que vê no mundo.

“Acho que a política mundial e os caminhos que muitos países por quem eu tinha imenso respeito têm trilhado politicamente, é muito assustador. É uma regressão daquilo em que acredito, do humanismo, de um estado social em que as pessoas se ajudam”, diz Mário Laginha.

Como é que levou 19 anos para gravar o seu segundo disco a solo, sendo que tem já uma longa carreira com muitos outros discos editados, mas sempre em parceria com outros artistas?

É uma boa questão! Quando fiz o primeiro disco a solo, tinha muita vontade de o fazer. Mas depois tinha vontade de fazer imensas coisas que não tinha feito. Eu passei anos e anos em que tocava quase exclusivamente, só com a Maria João.

E de repente gostava de fazer discos em trio, queria fazer trios diferentes, queria experimentar isto e aquilo, depois tocava com o Pedro Burmester, depois comecei a fazer alguns concertos com o Camané e fizemos um disco. Enfim, várias coisas foram sucedendo e eu fui adiando.

Um dia, a minha mulher, a Francisca, disse-me: "Tu tens de fazer um disco a solo!". E foi muito assertiva, como aliás é sempre, e convenceu-me. E eu disse, ok, tenho de fazer um disco a solo.

É à Francisca que devemos este seu disco, então?

Sim, o disco é dedicado a ela (risos). Além de ter um tema que é também dedicado a ela que na realidade é um improviso. Acho que é justo.

Na Covid houve uma altura em que pensei, vou escrever o mais que puder música para piano e solo

Precisou de um tempo mais recatado, mais isolado para que nascesse este "Retorno"?

As composições, mesmo para outras formações, normalmente nascem em momentos de solidão, porque sou eu, em casa, com um piano e vêm-me ideias.

Só que às vezes estou a ter uma ideia e penso: se calhar este tema vai ser para aquele trio, e começo a imaginar o contrabaixo a fazer isto (toca no piano), ou faz... (toca no piano) e vou escrevendo.

Mas realmente agora, durante esse tempo, de vez em quando, havia ideias que eu achava, "ok, isto é para eu tocar a solo".

E fui tendo cada vez mais material, e acho que na Covid houve uma altura em que eu pensei, vou escrever o mais que puder música para piano e solo.

Também para mim, a situação da Covid levou-me a pensar que tinha que aproveitar esse tempo de reclusão para escrever música para piano.

O que é que este disco diz sobre o Mário Laginha em 2026?

Acho que, sem querer ser demasiado simplista, diz um bocado quem sou eu em 2026 ou em 2025.

Eu tenho influências de muitos tipos de música, que vai da música africana, à brasileira, à música clássica, o jazz - se calhar a primeira delas - a música portuguesa, até o fado de onde eu normalmente nunca deixava que viessem influências nenhumas, eu deixei.

Não desatei a escrever fados, as pessoas que pensarem nisso vão ter uma desilusão, porque não há nenhum fado no disco. Mas acho que há muitos temas em que há melodias e ornamentos que não teria feito se não tivesse deixado essa influência entrar mais facilmente.

Deixou o fado contaminar a sua criação?

Acho que sim. Ter tocado com o Camané, e termos feito um disco, também teve um papel importante nisso.

A política mundial e os caminhos que muitos países por quem tinha imenso respeito têm trilhado politicamente, é muito assustador

De onde vem o título do disco? É um retorno, no sentido de ser um regresso aos discos a solo, mas retorno é também o nome de um dos temas do disco.

Sim, por isso achei um bom título. Devo dizer para que saibam a verdade dos factos, esse tema, "Retorno", foi escrito para uma banda sonora de um filme do João Mário Grilo que se chama "Campo de Sangue", que nasce de um livro da Dulce Maria Cardoso.

Na realidade eu não queria nada chamar "Campo de Sangue" a esse tema fora do contexto do filme, e remeteria um bocado para o filme.

Depois achei que gostava de manter um título que também remetesse para a autora do livro, o "Campo de Sangue", porque ela tem um outro livro que se chama "Retorno", de que eu gosto muito.

Atenção que o meu tema não tem nada a ver com retornados, é outra coisa. Mas é um retorno ao piano solo e a uma certa intimidade e solidão.

Teve que ficar Retorno! Por acaso depois até achei que devia perguntar à Dulce Maria Cardoso se não se importava que eu utilizasse esse nome, não só para o tema, como para o disco e ela concordou.

No disco tem vários temas chamados "Improviso". A partir do momento em que fica registado, gravado em disco, perde esse carácter de improviso, de instantâneo?

Não deixa de ser para quem ouve, o testemunho de um improviso. Eu sentei-me ao piano e comecei a tocar. Fiz mais do que cinco, e depois escolhi cinco para o disco.

Eu queria incluí-los, porque quando toco a solo, e todos estes anos, de vez em quando, dei concertos a solo, faço sempre um improviso ou dois. Só que isso nunca entra nos discos, e eu queria ter improvisos no disco.

Até porque isso faz parte, um bocado, da minha matriz e dos meus concertos a solo. Isso existe, com alguma regularidade, nos meus concertos. Mas nunca ficavam nos discos, e agora quis que ficassem.

Vai sair um livro com todos os temas do disco, menos os improvisos, porque os improvisos não estão escritos, foi o que aconteceu.

Quero contar uma história e conto uma história em disco

Tem já os concertos de lançamento marcados no Centro Cultural de Belém, dias 5 e 6, mas depois vai continuar a apresentar o disco pelo país?

Sim. Agora quero tocar o mais possível à volta deste repertório, chamar a atenção para a existência do disco, falar nele. Eu sei que não vou ficar milionário a vender discos. Os discos agora fazem-se para uma pessoa dizer: "Eu agora fiz isto". Se eu tocar ao vivo, tenho este projeto para apresentar.

Mas, também, pertenço a uma geração que vendeu discos, e gosto do objeto! Lembro-me que sempre que ouvia um disco gostava de pegar nele, olhar para as fotografias dos músicos no estúdio, ver o que é que eles diziam, o nome dos textos, gostava de mergulhar naquele universo do autor.

E, portanto, acho graça a fazer isso, e fui dos que quis sempre, para além das aplicações, dos Spotify, Apple Music, etc., o disco.

O mercado do consumo de música mudou vertiginosamente nos últimos anos. O disco perdeu terreno em relação aos concertos. Os espetáculos tornaram mais centrais na carreira artística?

Acho que é mais obrigatório só no sentido em que a nossa existência financeira está alicerçada em concertos, ponto. No meu caso, eu não sou professor, não dou aulas, portanto, os meus ganhos vêm de tocar ao vivo, escrever música, e direitos de autor. Tudo à volta da música.

Os discos não dão dinheiro. É completamente irrelevante o dinheiro que dão os discos. Mas não deixa de ser uma ferramenta muito importante para nós, quer dizer, os discos estão para os compositores, como os livros para os autores.

Eu quero contar uma história e conto uma história em disco. Por isso é que eu acho graça, e acho que esse tempo está a acabar. Eu gostava da ideia de comprar um disco e ouvir o disco inteiro, e pensar, aquela ordem, aquela sequência de temas e tal, foi pensada pelo autor, deixa ver o que é que ele me quis dizer.

Agora, e eu aceito, porque tenho filhos, gosta-se de um tema, vai-se ouvir esse tema, gosto daquele, vou ouvir aquele. É uma coisa que é fruto dos tempos. As pessoas estão online, gosto desta, vou ouvir esta. Eu gosto muito da ideia de contar uma história.

E que concertos tem?

Dias 5 e 6 no Centro Cultural de Belém, depois a 13 de março em Espinho. E depois, acho que todos os meses vou tocando um bocado por aí. Se as pessoas estiverem atentas, vou passar lá perto, espero eu.

A coisa mais importante que tem um músico é aquilo que a cabeça dá. As ideias, a imaginação e a vontade de fazer experiências

Está sentado ao piano enquanto falamos?

Estou! (toca no piano). Eu passo muito tempo sentado ao piano (risos).

Quero dizer, não é sempre a estudar, mas eu componho ao piano, depois tenho aqui o computador, e às vezes estou a compor, depois preciso de enviar um mail ou responder a qualquer coisa, não saio do piano, é aqui mesmo que escrevo.

Mas sim, estou umas horas sentado ao piano. Não sei exatamente quantas, mas depende. Quando tenho que estudar muito, estudo quatro ou cinco horas, mas outras vezes estudo duas e componho três, ou um ou cinco, depende!

É curioso que use a palavra "estudar". Não é ensaiar?

Sim, é engraçado. Até pensei que ia perguntar por outro termo que muita gente diz: "Ah, tu quanto tempo é que treinas?". Para mim, eu pratiquei ginástica, e na ginástica eu treinava.

No piano, é também um treino, claro, mecânico e físico, mas chamo a isso estudar porque para mim sempre foi estudar.

Estuda-se tocando, só que não estamos só exercitar os dedos, e por isso é que eu gosto mais da ideia de estudar. É também um treino, mas mais uma vez, remete muito para a ideia do lado mecânico.

Ora, eu acho que a coisa mais importante que tem um músico é aquilo que a cabeça nos dá. As ideias, a imaginação e a vontade de fazer experiências. E isso é da cabeça. Portanto, eu gosto mais de o termo estudar.

E o piano também serve de escape para o dia-a-dia, sobretudo face ao momento que o mundo atravessa. Sente muitas vezes o impulso de ir para o piano para lidar com as notícias que o rodeiam? Como vê a atualidade hoje?

Muito há a dizer sobre... Mas em primeiro lugar, eu digo que acho que a política mundial e os caminhos que muitos países por quem eu tinha imenso respeito têm trilhado politicamente, é muito assustador. Para mim é muito assustador! Acho que é uma regressão daquilo em que eu acredito, do humanismo, de um Estado social em que as pessoas se ajudam.

Eu gosto que uma pessoa pense em deixar de ter pobres, não porque lhes damos uma esmola, mas porque lhes arranjamos trabalho e porque fazemos com que eles possam trabalhar e ter uma vida digna. Ou seja, agora que fiz esta declaração de interesses, acho que às vezes penso... É bom não esquecer que há coisas maravilhosas no mundo. A música é uma delas, mas há muitas outras.

A arte remete para essa procura de um olhar para o mundo em que há beleza, amor, compreensão e paz. E, portanto, eu, quando estou pessimista, e acho que não é difícil ser pessimista agora, é fácil, penso eu tenho imensos amigos que são pessoas maravilhosas, há imensa gente incrível em todo o mundo, sejam elas do meu país ou imigrantes, há gente maravilhosa, assim como há gente má, tanto nossas como imigrantes.

Portanto, eu quero dar-me e pensar nas coisas boas que não deixaram de existir, que parecem que estão a ser escondidas e remetidas para um canto, ainda por cima de forma propositada, com um fim. Isso a mim choca-me muito.

E sim, às vezes sento-me ao piano um bocado revoltado e a pensar, opá, ok, deixa cá ver se desabafo aqui um pouco.

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