Entrevista Renascença

Livros que mudam a humanidade? "Não conheço nenhum caso", diz Enrique Vila-Matas

13 fev, 2026 - 06:00 • Maria João Costa

É um dos escritores espanhóis mais aclamados. Enrique Vila-Matas lançou em Portugal “Cânone de Câmara Escura”. Em entrevista à Renascença, o autor confessa não estar otimista com a atual situação mundial, mas considera-a estimulante para uma luta.

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Enrique Vila-Matas: Não conheço nenhum livro que tenha mudado a humanidade
Enrique Vila-Matas: Não conheço nenhum livro que tenha mudado a humanidade

Enrique Vila-Matas aparece à hora combinada na ligação digital para Barcelona. Está sentado num cadeirão, em sua casa, junto a uma janela, numa certa penumbra. O escritor, que é considerado um dos mais aclamados de Espanha, começa por dizer à Renascença que é, mais do que tudo, um “leitor que escreve”.

Foi nessa condição que escreveu o livro “Cânone de Câmara Escura” (Ed. D. Quixote) que está a lançar agora em Portugal, com tradução de Teixeira de Aguilar. Como de habitual em muitas das suas obras, trata-se de um livro que celebra a literatura.

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“É um livro que sinto ser muito meu, quem sabe é o livro mais pessoal que escrevi”, revela. No epicentro da ação está a história de Vidal Escabia que selecionou 71 livros para um cânone “intempestivo”, como lhe chama Vila-Matas.

“É uma tentativa de retirar a solenidade ao que se entende por cânone, criando um cânone diferente que talvez seja feito por uma suposta pessoa que é um Android. Escrevi com a intenção que fosse um cânone intempestivo. Até poderia ter sido um dos títulos do livro! É intempestivo no sentido de Nietzsche, ou seja, significa fora do tempo. Não é sobre o que se escreve agora, mas para o que vem no futuro e que podemos ver de fora”, afirma.

Em entrevista ao Ensaio Geral, da Renascença, o autor cuja obra está traduzida em 37 línguas deixa escapar que este seu livro é uma clara crítica ao cânone mais conhecido da literatura, aquele que foi reunido na obra “Cânone Ocidental” de Harold Bloom.

Cada pessoa pode ter o seu cânone e creio que um cânone é demasiado académico e rígido. O cânone mais famoso é o do Harold Bloom que para mim é horroroso, porque contém autores que para mim foram superados por outros que não aparecem. O cânone é uma seleção livre de cada pessoa. Cada um faz o cânone dos livros que gostou de ler. E neste caso é um cânone feito, possivelmente, por um Android”.

Aquilo que escrevo é evidentemente livre

Na obra agora publicada, Vila-Matas recheia de referências literárias, cinematográficas ou das artes plásticas. São recordações, explica-nos, porque hoje já pouco vai ao cinema ou visita exposições.

Mas Enrique Vila-Matas coloca também uma tónica política no livro, quando recorda Stefan Zweig, o escritor de origem austríaca que fugiu da Europa devido à perseguição nazi. Vila-Matas escreve sobre a “Europa de hoje”, onde “não se veem ou não se quer ver” os sinais que vão “abrindo caminho à barbárie”.

Questionamos o escritor catalão sobre esta passagem de “Cânone de Câmara Escura”. Diz-nos que “é curioso” porque foi escrito “há já três anos”.

“Escrevi com convicção, mas ainda não tinha acontecido o que se passa agora. Curiosamente, é um parágrafo que indica que iriamos nesta direção em que estamos agora”.

Não tenho soluções. Não estou otimista, mas creio que possa ser um estímulo para lutar contra o que sempre detestamos. Há a ideia de que, ao escrever livros, podes mudar a humanidade, mas eu não conheço nenhum caso em que isso se tenha passado”, desabafa de forma cética.

Para o autor “cada um tem de cumprir o seu trabalho, fazê-lo e aspirar a que o livro mude o mundo”, ainda assim considera essa uma tarefa “complicada”.

“Somos 60 milhões na Terra, são 60 milhões de opiniões. É algo que está fora de mim. Posso convencer as pessoas a serem mais livres no pensamento e mentalmente, porque aquilo que escrevo é evidentemente livre quanto ao pensamento e mentalidade. É um mundo sem fronteiras o que está no livro”.

O autor do famoso “Bartleby e Companhia” é um homem que vive mergulhado nos livros e a prová-lo a resposta que nos dá. Mesmo durante uma entrevista, a sua cabeça está na literatura

“Agora por exemplo, estou a responder às suas perguntas, estou em minha casa, e, no meio disto, quase sem dar conta, estou a montar uma narrativa. Este é o modo de viver de forma literária. Estou a estruturar como se visse o que se está a passar e estivesse a interpretar, mesmo enquanto respondo às suas perguntas. Porque a literatura faz parte da vida real.

Interrogamos Vila-Matas sobre essa relação entre o real e a escrita. “Os livros, por exemplo, têm folhas e páginas que saem das árvores, ou seja, um livro é mais um elemento das nossas vidas. Há uma simbiose entre as duas coisas, não há separação. Nem há razão para isso”, diz-nos.

A literatura faz a vida melhor, no meu caso, porque comunico com consciências de outros que escrevem”, afirma. “É a única possibilidade que vejo de comunicar com as consciências, é lendo-as. A consciência do outro é diferente da tua, quanto mais conheces essas consciências melhor para a tua própria vida”, considera o autor que já venceu, entre outros o Prémio Médicis Étranger e o Prémio da Real Academia Espanhola.

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