Presidente da República
"A ideia mais louca" de Marcelo. Vhils, o artista que "veio da rua", retrata o Presidente
05 mar, 2026 - 00:14 • Marisa Gonçalves
O retrato é feito a partir de jornais nacionais de 2016 a 2026 que surgem colados, sobrepostos e escavados por incisão. A técnica é a mesma que Vhils aplica nos muros e nas fachadas das cidades.
O agora Presidente cessante, Marcelo Rebelo de Sousa, desafiou Alexandre Farto, Vhils, a fazer o seu retrato para integrar a galeria do Museu da Presidência. A primeira resposta foi negativa e Marcelo pensou que poderia não se concretizar, mas a obra acabou por ver a luz do dia.
“Quando fui abordado para este projeto, a minha primeira resposta foi não. Não porque não reconhecesse a importância, mas reconhecia-a em demasiado, porque venho de um sítio diferente. Venho da margem sul, freguesia da Arrentela Seixal, venho de pintar paredes e às vezes comboios. A distância entre o comboio da Fertagus e esta Galeria em Belém, é em muitos sentidos, a distância de todo um país”, revela o artista, na cerimónia de apresentação oficial do retrato presidencial.
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Depois, Vhils acabou por abraçar a obra de curiosidade aguçada. “Havia uma pergunta que me interessava responder, como é que se retrata alguém que foi retratado todos os dias durante 10 anos, por todos os jornais deste país? Perguntei ao Senhor Presidente como queria ser retratado e ele respondeu: com o peso de dois mandatos”, conta.
O artista diz que foi essa frase que lhe deu a chave para concretizar o trabalho. Os jornais que acompanharam e ajudaram a pensar o país durante esses 10 anos.
“Os incêndios, a pandemia, as crises políticas, as ruturas que atravessámos num contexto global de populismo amplificado pela disrupção tecnológica vigente. Tudo isso está aqui nestas camadas, literalmente”, adianta Vhils.
"Destruindo a superfície, para revelar o que está por baixo"
O retrato que compôs é feito a partir de jornais nacionais de 2016 a 2026 que surgem colados, sobrepostos, escavados por incisão e cobertos de branco.
Vhils explica que usou a mesma técnica que aplica nos muros e nas fachadas das cidades. “Destruindo a superfície, para revelar o que está por baixo”, aponta.
Depois de Columbano Bordalo Pinheiro, que assina um conjunto de três pinturas a óleo com o retrato de três Presidentes da República Portuguesa, sendo eles Manuel de Arriaga, Teófilo Braga e Manuel Teixeira Gomes, depois de Júlio pomar que pintou com o Presidente Soares, e depois de Paula Rego que retratou o Presidente Sampaio, esta é a primeira vez que um retrato não é pintura, mas relevo, volume e matéria. Nas suas palavras, Vhils diz também que é a primeira vez que um retrato é feito por alguém que “vem da rua”.
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“Os meus pais vieram do Alentejo profundo, fixaram-se na periferia de Lisboa, quando as estradas ainda eram terra batida. Não tinham acesso a galerias nem a museus, nem à linguagem que se fala nestes espaços. O que tiveram foi uma escola pública e isso bastou as margens e digo-vos com convicção, não são lugares onde as coisas faltam. São lugares onde as coisas se misturam, onde a diversidade gera força e onde se cria sem pedir autorização”, adianta.
"Esta foi a minha maior originalidade"
Agora, face à obra exposta na galeria, Marcelo Rebelo de Sousa diz que foi apenas o pretexto para uma grande obra.
“Vi-o a ser colocado e de repente, confesso que foi verdadeiramente um choque em termos de rutura, numa casa que está cheia de ruturas. As pessoas esquecem que, mesmo nos retratos que estão ao outro lado, há ruturas”, afirma.
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O Presidente cessante não esconde que se trata de uma rutura com as linhas artísticas anteriores e entende que isso é também sinal de vitalidade em democracia.
“Fiquei muito satisfeito e ao mesmo tempo a dizer para mim mesmo que foi a ideia mais louca que tive em 10 anos de mandato. Eu sou considerado muito original. Esta foi a minha maior originalidade. O que eu muitas vezes dizia que é que aos 50 anos de democracia, virou-se um ciclo e aqui quem virou o ciclo foi o Vhils”, aponta.
Alexandre Farto diz que quer que a contemporaneidade tenha lugar ao lado da história que já está inscrita nas paredes do Museu da Presidência da República.
A cerimónia desta quarta-feira decorreu cinco dias antes de Marcelo Rebelo de Sousa cessar funções como chefe de Estado.







