Entrevista à Renascença

Lobo Antunes sobre o tempo da troika: "Os portugueses não merecem o que estão a fazer"

05 mar, 2026 - 10:30 • João Malheiro , Maria João Costa

Numa entrevista ao programa Ensaio Geral da Renascença, em 2012, no Festival Escritaria em Penafiel, o escritor refletia sobre a fé em Deus e a "indignidade de não justificar a honra de estar vivo". Recorde a entrevista.

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Entrevista de Lobo Antunes ao "Ensaio Geral" em 2012
Ouça a entrevista de António Lobo Antunes ao "Ensaio Geral", em 2012

[Atualizado às 22h07]

António Lobo Antunes pensava que "mais vale acreditar do que não acreditar" em Deus e que se "pode viver sem tudo, mas não se pode viver sem esperança".

Foi uma reflexão do autor que morreu esta quinta-feira, aos 83 anos, dada à Renascença, em 2012, altura em que foi entrevistado em direto pelo programa Ensaio Geral, no contexto de uma edição do Festival Literário Escritaria, em Penafiel, dedicada a Lobo Antunes.

"Não se consegue viver sem futuro. Nem que o futuro seja um minuto", aponta.

A conversa com António Lobo Antunes abordou, igualmente, o estado do país na altura, sob a alçada da troika, o que motivou fortes críticas ao então primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho.

"Agora não tenho muita vontade de olhar para ele com as maldades que está a fazer às pessoas. Agora, julgo que o que todos nós sentimos é uma imensa revolta. Os portugueses não merecem o que estão a fazer", pensava.

"Passos Coelho, mais este, mais aquele, mais aquele outro, não me merecem o menor respeito. Não me merecem o menor respeito", criticava, na altura.

"Gostaria de pôr a vida inteira entre as capas de um livro". Lobo Antunes à Renascença
"Gostaria de pôr a vida inteira entre as capas de um livro". A entrevista de Lobo Antunes à Renascença em 2012

Nesta conversa com a editora de Cultura da Renascença, Maria João Costa, Lobo Antunes realçava as injustiças do mundo, como as guerras e o sofrimento das crianças, e "a dificuldade de aceitar a finitude e a morte". Médico de profissão, e evocando a sua experiência e muito do que viu "no Hospital de Santa Maria", Lobo Antunes concluía, no entanto: "Acho que é uma indignidade a gente não justificar a honra de estar vivo".

Nesta entrevista que recordamos agora, António Lobo Antunes fala, ainda, da sua relação com a escrita, que começou desde pequeno "quando estava muito doente, com tuberculose".

"Parece que construí tudo para escrever. Não sei se uma pessoa se torna escritor ou se um escritor se torna pessoa. Por enquanto, ainda é difícil imaginar a minha vida sem isso", considerava.

Lobo Antunes contava, nesta entrevista, que os seus livros "formavam uma espécie de contínuo" e que sentia que ainda não tinha "chegado ao fim" (a verdade é que vieram mais livros nos anos seguintes). Na altura, tinha acabado de lançar o livro "Não É Meia Noite Quem Quer" (ed. D. Quixote) e admitia que "não tinha sido difícil de escrever".

"Os livros variam consoante a forma como a gente os lê. Muitas vezes pergunto-me se os livros falam, ou se são os leitores que falam e os livros ouvem".

Leia a entrevista na íntegra

Boa noite António, muito obrigada por ter aceite este convite para estar na Renascença. Começo por lhe perguntar se consegue imaginar a sua vida sem escrita?

Consigo, só não consigo imaginar a minha vida sem respirar.

A escrita é para si, portanto, também uma forma de respiração?

Não sei bem dizer-lhe, sabe, tem variado ao longo do tempo. Comecei a escrever muito pequeno, quando estava doente, com uma tuberculose e depois torna-se uma espécie de... parece que se construí tudo para escrever, não é?

Eu não sei se uma pessoa se torna escritor, se o escritor se torna pessoa, não sei bem como é que as coisas funcionam. Por enquanto ainda me é difícil imaginar a minha vida sem isso.

O futuro eu não sei.

Tem falado por vezes no "arredondar" do seu trabalho. Pergunte-lhe, que simbologia tem esse círculo? A perfeição? A plenitude?

Não, não queria deixar a obra como...Queria acabá-la, não é?

Os livros formam, pelo menos aqueles que fiz até agora, uma espécie de contínuo. E ainda não cheguei ao fim.

Na Antiga Grécia, o círculo significa a eternidade. De alguma forma essa obra que quer deixar é a sua eternidade?

Sabe, se a gente se põe a pensar, os livros tratam do que vai escrito dentro. A gente não inventa nada, no fundo.

Acabamos por falar de nós e de... normalmente um livro é feito de materiais pobres, daquilo a que a gente não olha, a que não damos atenção ou que deitamos fora.

É muito difícil falar de livros, de onde é que eles vêm, eu não sei. O que é que significam? Tão pouco sei. Não são certamente romances, não há uma intriga, não há uma história. A história não me interessa, a intriga não me interessa.

O que eu gostaria, se fosse possível, era pôr a vida inteira entre as capas de um livro.

Hoje disse precisamente que este seu novo livro [“"Não É Meia Noite Quem Quer"] é um autorretrato, apesar de ter um narrador que é uma voz feminina.

Penso que é, suponho, creio, não sei, imagino que seja, porque... Este foi um livro muito estranho na minha vida. Normalmente os livros são conquistados por nós, palavra a palavra, página a página.

Este foi dado. Apareceu assim de repente, não foi difícil de escrever. Parecia que estava a ouvir uma voz, uma voz que ditava, uma voz que ia falando. Não imagino sequer a pessoa, se existe uma pessoa por trás dessa voz.

Para mim é apenas uma voz que vem, e vai e que volta.

A figura da casa surge também neste livro como uma personagem. É importante para si que esta figura da casa? O que é que ela representa? Um espaço de memórias?

Não sei dizer-lhe. Sabe, a casa é real. Acho que é a casa dos meus pais na praia. Transformada noutra casa.

Mas era claramente feita a partir dessa casa. Imagino mais a casa como uma espécie de útero do que como uma casa. Não sei explicar-lhe.

Algumas vezes parece-me uma despedida. Outras vezes parece-me uma chegada. Os livros variam consoante a forma como a gente os lê.

E muitas vezes pergunto-me se os livros de facto falam ou se é o leitor que fala e o livro ouve.

Os livros bons são orelhas que nos escutam e que estão à nossa espera e que dialogam connosco e que nos interpelam e nos questionam e nos inquietam. E nos dão o prazer também. A questão do prazer é importante, embora o prazer seja uma coisa geralmente breve.

Hoje disse-o aqui, já esta noite, que o seu próximo livro se chama “Caminho como uma casa em chamas”.

Eu não sei se ele será publicado. [Foi publicado em 2014].

Estava a falar nele porque foi um livro que acabei há um mês ou isso assim. Porque os livros são publicados sempre com muito atraso.

Nem sequer sei se vou publicar. Não sei o que irá acontecer. Não sei se vou publicar mais livros ou não.

Porque sente essa incerteza?

Sabe, uma vez perguntaram ao Verdi por que é que ele não escrevia a autobiografia dele. E ele respondeu: “Eu já massei as pessoas tanto tempo com a minha música, não as vou agora massá-las com a minha autobiografia”. E nunca escreveu.

Sabe, os livros deram-me muito mais do que eu podia imaginar. Nunca imaginei todos estes prémios, todas estas traduções, tudo isto que me aconteceu.

E nada disto estava na minha cabeça. Comecei a publicar por acaso. Nunca pensei fazer uma carreira literária.

Pensei que ia ser médico. E que escrevia. E comecei a publicar, porque um amigo meu me agarrou nos papéis e me disse: "O que é isto?"

E tenho muita dificuldade em falar sobre eles, porque é como se estivesse a revelar coisas demasiado íntimas para serem partilhadas. Acho que as pessoas têm direito aos livros com o que lá está escrito dentro e a mais nada, não é? E não têm direito à minha vida.

Embora, por outro lado, eu tenha uma gratidão enorme. Sobretudo, em relação às pessoas do meu país. Porque é evidente que escrevo para os portugueses. Por mais traduções que haja, por mais que o Lula diga que sou um escritor brasileiro por causa do meu sangue.

Para quem eu escrevo é para as pessoas do meu país. E tenho uma grande gratidão pela generosidade com que me têm recebido sempre. Com que me têm lido. E pela simpatia e pelo calor humano que tenho recebido.

Precisamente esse calor humano. Sentimo-lo hoje aqui, nesta tarde em Penafiel, na Escritaria que o homenageia. Eu pergunto-lhe, como é que olha para esse Portugal que é, no fundo, o país para o qual escreve?

Agora não tenho muita vontade de olhar para ele com as maldades que estão a fazer às pessoas. Agora, julgo que o que todos nós sentimos é uma imensa revolta. Os portugueses não merecem o que estão a fazer.

Eu penso que isto não é nada de original. Todos nós sentimos isso.

Outro dia vinha a descer a rua para a casa. Vinha uma senhora a subir. Uma senhora bem vestida. Com muita idade, já.

Pensei, pronto, que estava a olhar para mim. Pensei que reconheceu-me. E parou à minha frente e olhou-me e disse-me, muito baixinho: “Tenho fome”.

Uma senhora bem vestida, cabelo arranjado. Acho que isto resume o que se passa connosco agora: Temos fome.

Como é que olha, também, para o regresso que está a acontecer de muitos portugueses a Angola, hoje numa outra situação, à procura de um país próspero, à procura de oportunidades? O António que conheceu Angola de outros tempos.

Acho infame os portugueses terem de ir procurar noutros países aquilo que deviam ter no país deles. Não entendo.

Porquê tanta insensibilidade? Porquê tanta imaturidade? Porquê tanta crueldade? E porquê tanta estupidez? Não entendo.

Portanto, é natural que se sinta revolta, mas depois, ao mesmo tempo, eu pasmo-me com... Já viu o que aqui tem feito pela cultura? Nunca aqui tinha estado.

A seguir ao 25 de Abril, nunca ninguém fez nada pela cultura. Os governos mais à esquerda, mais à direita, mais disto, mais aquilo. São as autarquias que fazem e continuam a fazer. Mais ninguém.

E, no fundo, um país acaba por valer pela sua cultura. Repare na França, por exemplo: Continua a viver da grande cultura do século XIX, que lhe dá imenso prestígio.

Repare nos heróis nacionais, quem são? Em Inglaterra é o Shakespeare, em Espanha o Cervantes, na Alemanha o Goethe, em Portugal o Camões, por aí fora.

Não foram buscar nenhum político, nenhum dirigente partidário, nenhum desses medíocres lugares comuns que nos governam. Por exemplo, quando eu estava em Cambridge com o Steiner, ele dizia-me: "Nenhum dos meus melhores alunos vai para a vida política. Nenhum".

Porquê?

Porque acaba por ser uma atividade de medíocres.

Mas faltam políticos? Faltam políticos ao país?

Claro que faltam, mas repare, a seguir ao 25 de Abril a Snu Abacassis, que era a fundadora da D. Quixote, convidou os dirigentes dos partidos, cada um deles para escrever. O [Álvaro] Cunhal, o Freitas do Amaral, o Mário Soares, o Sá Carneiro.

Repare a diferença de cabeças, de maturidade, com amor ao país, com os dirigentes de agora. Passos Coelho, mais este, mais aquele, mais aquele outro, não me merecem o menor respeito. Não me merecem o menor respeito.

Tive a maior relutância em apertar a mão ao primeiro-ministro na Feira do Livro. Estava ali 10 minutos à espera que eu lhe estendesse a mão. E estendi porque o editor insistiu comigo, estava a dizer que eu estava a portar-me mal. Eu não tenho a menor vontade de apertar a mão a essas pessoas.

Que esperança é que vê neste país, nesta altura?

Acabou de dar a resposta quando disse que as pessoas estão a ir para Angola.

Que esperança é que elas têm? Que esperança tem um rapaz ou uma rapariga que acabam o curso agora e a ganhar 400 ou 500 euros, ou 600 euros? Isso é uma desumanidade pessoal.

Reparei neste seu livro escreve sempre Deus com letra maiúscula, tal como em outros livros seus. Pergunto-lhe como é que vai a sua relação com Deus?

Sabe, foi ontem, quinta-feira, almocei com o Frei Bento Domingos, um amigo. Estava a falar de um livro que tinha lido sobre a não existência de Deus. E ele olhou para mim e disse: “Sabe lá a quantidade de vezes que eu mudei de Deus”.

Mas para si a ideia de Deus é óbvia.

Eu sei que as pessoas andam por aí e... os mortos continuam a andar por aí, os cemitérios estão vazios e... talvez por dificuldade em aceitar a finitude da morte e a injustiça do sofrimento. Vi morrer tanta gente nos hospitais, na guerra, etc. E sempre me pareceu tão injusto. Ver morrer crianças nos serviços de pediatria.

É uma coisa que eu não consigo aceitar. A revolta é enorme.

Mas perante essas injustiças vai de alguma forma negociando a sua relação com Deus?

Gosto de saber que eles continuam mais felizes do que aqui, noutro sítio melhor. Pelo menos sempre me dá alguma esperança.

Porque a gente pode viver sem tudo, mas não consegue viver sem esperança. Não consegue viver sem o futuro. Não consegue, nem que o futuro seja um minuto.

Por exemplo, quando de manhã acorda e o despertador toca e pensa para si só mais um minuto ou cinco minutos, esses cinco minutos são eternos, não é? Quando continua a haver um futuro para si dentro da cama, confortável, quentinho e tudo.

O fim disso indigna-me. E depois acho que o Pascal tem razão que é melhor acreditar do que não acreditar. Porque se acreditar, se não houver, acreditei. Se houver... Não acredito em nenhuma espécie de céu, como é evidente.

Mas acho que é uma indignidade a gente não não justificar a honra de estar vivo.

Pergunto-lhe se também quer deixar às suas filhas e aos seus leitores aquilo que foi uma das heranças do seu pai, o amor às coisas belas?

Não estava a pensar nas minhas filhas, nem nos meus leitores. Isso era o que eu gostava de ter deixado aos filhos. Mas sei lá, se tenho conseguido.

E o que é que o António quer deixar aos seus leitores?

Eu não quero deixar, eu quero ficar. Não quero deixar nada. Quero ficar inteiro até ao fim dos tempos.

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