Entrevista
Philippe Starck: "Quando vejo pessoas a destruir a democracia por estupidez, sinto-me um pouco perdido"
06 mar, 2026 - 08:00 • Ana Catarina André
O designer, recentemente distinguido pela Universidade Católica, está a trabalhar em dois novos projetos em Portugal: um em Grândola e outro no Estoril. Referindo-se ao contexto internacional, lamenta que atualmente haja “pessoas com sangue na boca”.
É um dos principais nomes do design contemporâneo. Aos 77 anos, Philippe Starck distingue-se por uma obra multifacetada, que vai do mobiliário à arquitetura de hotéis, passando por objetos do quotidiano como o famoso espremedor Juicy Salif.
Em entrevista à Renascença, poucos dias depois de ter sido agraciado com o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade Católica, o designer que vive em Portugal considera que, atualmente, “a violência do ataque contra a democracia é assustadora” e afirma que, “por razões humanistas”, Portugal é atualmente “um centro”.
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A democratização do design é um dos principais focos do seu trabalho. Como é que isso influencia o seu processo criativo?
O design criativo não influencia o meu trabalho. O meu trabalho é design criativo, mas a maneira de trabalhar é muito especial, porque não completamente normal, podemos dizer assim. Trabalho principalmente com grandes linhas, linhas fortes, políticas, humanísticas, ecológicas. Depois, deixo o meu subconsciente fazer o trabalho.
É por isso que consigo fazer tantas coisas em tantos territórios. É porque penso, sem pensar, repito, com a minha subconsciência, entre cinco minutos e 50 anos, em tudo que faço. E quando está bem cozinhado, no meu cérebro, como que cai – eu só tenho de imprimi-lo. Assim, sou completamente livre e posso fazer o que quero e tentar ficar rebelde e lutar pelo que preciso de lutar.
Mas durante esse processo pensa nesta questão da democratização?
A democratização está dentro do meu trabalho, faz parte dele. Acredito que todos precisam de ter o produto certo, com a qualidade certa, com o preço certo. Não gosto muito da ideia de só algumas elites terem poder para comprá-lo. É muito fácil satisfazer as elites, porque conhecemo-las. É muito mais complicado satisfazer milhões de pessoas – são muitas.
Portugal é o meu Éden, o meu paraíso
Tem projetos neste momento em Portugal?
Tentei não trabalhar em Portugal, porque Portugal é o meu Éden, o meu paraíso e não quero misturar meus sonhos com a realidade. Aqui, produzo a minha ideia, trabalho com a minha subconsciência. Estamos no topo da montanha, no topo da neve, no meio da areia. Trabalho sozinho e Portugal é muito bom para mim, mas só para sonhar, só para sonhar, embora seja obrigado a satisfazer alguns amigos.
Sim, nós temos dois projetos [em Portugal]: um é um projeto muito bonito de grande qualidade, perto de Melides, na Serra de Grândola, lindo. E o outro será um novo hotel Éden, no Estoril. Consiste na destruição do antigo hotel, que era muito feio, para fazer algo de grande qualidade, com uma boa arquitetura.
Esses dois projetos estão em execução?
Estão em processo. Acho que ambos ficarão concluídos dentro de um ano, um ano e meio, no máximo dois.
A violência do ataque contra a democracia é assustadora
Considerando o atual contexto internacional, que papel pode ter o design num mundo polarizado como o que hoje temos?
O meu trabalho é um design democrático. No design democrático, há democracia e tudo no meu trabalho é sobre democracia. É por isso que, quando vejo pessoas a destruir a democracia, por estupidez e avidez, ao fim de mais de dois mil anos, sinto-me um pouco perdido e impotente. A violência do ataque contra a democracia é assustadora.
Por isso, desculpe-me dizer, continuo o meu trabalho o melhor que posso, esperando aquilo que não sabemos. Acho que a democracia será definitivamente impactada – não morta –, mas definitivamente grandemente impactada. O que vemos hoje não vai continuar no mesmo nível. Hoje trata-se de uma histeria. São pessoas com sangue na boca. Acho que dentro de algum tempo isso irá diminuir, mas a democracia será definitivamente impactada.
Nesse contexto, até que ponto pensa que a Europa está a preservar valores humanistas? Portugal, em particular?
Hoje, por razões humanistas Portugal é um centro, porque em Portugal e em grande parte da Europa – há exceções – temos ainda uma escala humana. Esta escala humana é muito importante e temo-la. Não sei se podemos dizer isso para Portugal, mas temos uma forma natural, latina, de trabalhar com sentido comum, com a ideia de equilíbrio, de honestidade.
Hoje, as pessoas, de direita ou de esquerda, não querem criar um novo modelo. Só querem ganhar e matar. Não é assim. A vida não é assim. A vida é sempre uma mistura, um cocktail inteligente, é por isso que sobrevive, mas é assim que as coisas funcionam. Nada funciona com dois componentes. As coisas funcionam com um milhão de componentes.
Escolheu Portugal para viver. Referiu que é um lugar de sonho. Como é que olha para o que está a acontecer em zonas como a Comporta, onde há cada vez mais empreendimentos de luxo?
Adoro o Alentejo, a região, Melides, Comporta. Tenho uma quinta orgânica em Melides, na Serra de Grândola. É um lugar fantástico. Foi protegido por tanto tempo, não por razões boas, mas protegido. Agora há uma democratização com coisas de melhor qualidade que chegam, mas com outras coisas negativas. Mas está muito bem protegido e há pessoas, como a família Amorim, que fazem muitas coisas muito bem feitas.
Há 10 anos, estava ansioso pelo futuro da Comporta, mas finalmente as pessoas que fazem coisas na Comporta, e nesta área, entenderam que podem fazê-las bem. Está bastante bem feito. Não podemos dizer: ‘Não venham. Ficamos com algumas pessoas felizes, a elite’. É lindo, é incrível. O máximo número de pessoas é bem-vindo, porque é assim a vida. Mas há diferentes razões, diferentes maneiras de fazê-lo.
Portugal enfrentou recentemente várias tempestades. Como é que olha para o impacto que tiveram? Referiu anteriormente, noutras entrevistas, que por cá tem vizinhos, uma comunidade. Como é que também vos afetou?
Para mim é um desastre absoluto, porque primeiro a minha quinta foi muito impactada. Perdemos 25 árvores, os edifícios da quinta foram destruídos, coisas assim. Isso eu posso reconstruir. A minha preocupação é que moro no cimo da Serra de Sintra. Durante 12 anos, tenho caminhado e andando com a minha bicicleta nesta beleza absoluta de harmonia. É um local único no mundo. Algumas pessoas dizem que é uma serra mágica. Eu digo que sim: é mágica. Ontem estive por lá e dá vontade de chorar. Está completamente destruído, completamente destruído. Não podemos dizer para sempre, mas por décadas e décadas e décadas. É um lugar de guerra agora. É realmente muito triste, muito triste.
O problema é que além da tempestade, do vento, da chuva, também temos o fogo. Entre o fogo e a chuva, estamos cercados por um grande perigo. Estamos bem equipados contra o fogo. Temos tanques e coisas assim. Para a água é mais difícil. Sabemos que vai acontecer, aconteceu, mas é difícil, porque a destruição acontece tão depressa. Estou em frente à praia de Guincho e já não há mais praia, desapareceu. Atualmente é surpreendente como a natureza pode ser destruída assim.
Enquanto artista, como é que olha para a cultura em Portugal e para o acesso que existe ao mundo cultural?
Primeiro, não sou um artista. Tento ser um criador, o que é o suficiente. Desculpe-me, mas não sei nada. Não tenho ideia, nunca vejo o que as outras pessoas fazem. Trabalho 12 horas por dia, sozinho. Não tenho tempo para saber o que está a acontecer no mundo, exceto esta tempestade horrível.
Esta entrevista a Philippe Starck foi gravada antes do ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irão.








