Cultura

Palácio de Queluz recupera oratório de D. João VI dois séculos após a morte do monarca

11 mar, 2026 - 17:21 • Olímpia Mairos

Espaço de oração do rei foi reconstituído com objetos originais e permite agora conhecer de perto a dimensão espiritual do monarca.

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Palácio de Queluz recupera oratório de D. João VI dois séculos após a morte do monarca. Foto: Emigus/PSML
Palácio de Queluz recupera oratório de D. João VI dois séculos após a morte do monarca. Foto: Emigus/PSML
Oratório D. João VI. Foto: Emigus/PSML
Oratório D. João VI. Foto: Emigus/PSML
Nosa Senhora da Conceição de Jean Baptiste Debret. Foto: Luís Pavão/PSML
Nosa Senhora da Conceição de Jean Baptiste Debret. Foto: Luís Pavão/PSML
Santa Maria Madalena de Domingos Sequeira. Foto: Luís Pavão/PSML
Santa Maria Madalena de Domingos Sequeira. Foto: Luís Pavão/PSML
São José com o Menino atribuído à Princesa Maria Francisca Benedita. Foto. Luís Pavão/PSML

Duzentos anos após a morte de D. João VI, o Palácio Nacional de Queluz voltou a revelar um dos espaços mais íntimos do monarca: o oratório onde se recolhia diariamente em oração. Pela primeira vez em mais de um século, o compartimento pode ser observado numa versão muito próxima da que o rei conheceu, recuperando a atmosfera e os objetos originais que marcavam a sua prática religiosa.

O projeto de reconstituição foi apresentado esta segunda-feira, 10 de março, data que assinala o bicentenário da morte do monarca, numa conferência realizada no próprio palácio.

Na apresentação, o presidente do conselho de administração da Parques de Sintra – Monte da Lua destacou a relevância histórica do espaço. “Trata-se de um compartimento pequeno, mas de enorme valor histórico, simbólico e museológico”, afirmou João Sousa Rego.

Segundo o responsável, o trabalho desenvolvido permitiu recuperar não apenas a configuração do espaço, mas também o conjunto de objetos que ali existiam. “Este projeto permitiu devolver ao oratório a sua dignidade arquitetónica, o seu enquadramento decorativo e a coerência histórica do acervo que nele se conserva”, sublinhou.

O responsável acrescentou ainda que “foi possível restituir a este espaço os objetos que pertenceram a D. João VI e recriar a atmosfera que o caracterizava nas décadas de 1820 e 1830”.

Para João Sousa Rego, a intervenção enquadra-se na missão da instituição de preservar e divulgar o património histórico. “Esta é a missão da Parques de Sintra: cuidar do património com conhecimento, devolvê-lo ao público com rigor e preparar o seu futuro com responsabilidade.”

Oratório D. João VI. Foto: Emigus/PSML
Oratório D. João VI. Foto: Emigus/PSML
Oratório D. João VI. Foto: Emigus/PSML
Oratório D. João VI. Foto: Emigus/PSML
Oratório D. João VI. Foto: Emigus/PSML
Oratório D. João VI. Foto: Emigus/PSML
Oratório D. João VI. Foto: Emigus/PSML
Oratório D. João VI. Foto: Emigus/PSML

Uma fotografia de 1905 ajudou a reconstituir o espaço

A investigação histórica que permitiu a reconstrução do oratório teve como ponto de partida uma fotografia datada de 1905, que mostra o compartimento tal como foi preservado após a morte de D. Pedro IV, ocorrida na Sala D. Quixote, contígua ao oratório.

A partir dessa imagem e de outras fontes documentais, como inventários da época, foi possível perceber como era o espaço e quais os objetos que o decoravam.

O estudo revelou uma particularidade inesperada: apesar de ser um dos compartimentos mais pequenos do palácio, o oratório é também um dos espaços onde subsistem mais peças originais, incluindo um importante conjunto de pinturas que transformam o espaço numa pequena galeria.

Muitos destes objetos estavam, contudo, dispersos ou tinham sido alterados ao longo do tempo. Algumas pinturas tinham perdido as molduras originais, que tinham sido reaproveitadas como espelhos durante o século XX.

Depois de reunidas as diferentes peças, iniciou-se a fase de intervenção, que envolveu uma equipa multidisciplinar de conservadores e restauradores, com especialistas em pintura, madeira, metais, papel e têxteis.

O projeto incluiu ainda o restauro do teto, das portas e janelas e de outros elementos em madeira, bem como a reposição do revestimento em damasco encarnado que caracterizava originalmente as paredes do espaço.

Um espaço íntimo de fé e arte

O oratório de D. João VI é um compartimento de dimensões reduzidas, mas marcado pela riqueza decorativa e simbólica. As paredes são dominadas por pinturas religiosas que revelam a profunda devoção católica do monarca.

No centro do espaço destaca-se a pintura retabular “São João Batista com o Cordeiro”, da autoria de Arnaud Pallière, dedicada ao santo onomástico do rei.

Outra obra relevante é “Santa Maria Madalena”, de Domingos Sequeira, executada em Roma durante o período em que o artista estudava com bolsa atribuída por D. Maria I.

Entre as pinturas presentes no oratório encontram-se ainda “São José com o Menino”, atribuída à princesa Maria Francisca Benedita, tia de D. João VI, e “Nossa Senhora da Conceição”, de Jean-Baptiste Debret, pintada no Rio de Janeiro em 1816.

Investimento de cerca de 100 mil euros

A reconstituição do oratório implicou um investimento de cerca de 100 mil euros e complementa outro projeto recente no palácio: a recuperação da Sala D. Quixote, onde em setembro do ano passado foi reconstituído o leito onde morreu D. Pedro IV.

A iniciativa pretende enriquecer a experiência de visita e oferecer uma leitura mais fiel da história do palácio, que esteve ligado às vidas de D. João VI, D. Miguel I e D. Pedro IV.

A Parques de Sintra adianta que continuará a desenvolver projetos de recuperação em diferentes áreas do Palácio de Queluz, com o objetivo de valorizar e preservar um dos mais importantes conjuntos patrimoniais do país.

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