Entrevista Renascença

Graça Morais: "Não consigo estar no atelier como se estivesse numa torre de marfim, insensível ao que se passa à minha volta"

13 mar, 2026 - 19:03 • Maria João Costa

“Graça Morais: Uma Antologia” é a exposição que abre este sábado no Palácio Anjos, em Algés. A artista mostra um conjunto de trabalhos que refletem temas atuais, como a violência, os fogos, a emigração ou a condição da mulher. Na exposição, pela primeira vez, Graça Morais revela as fotografias que faz para usar no atelier para criar as suas obras.

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ENTREVISTA GRAÇA MORAIS
"Sobretudo, pinto os sentimentos, as emoções e os olhares" Foto Maria João Costa RR

Diz que é “cruel” na pintura. Não mente a si mesma. É verdadeira quando está no atelier, o seu “micromundo”. Graça Morais está a poucos dias de completar 78 anos e abre agora, no Palácio Anjos, em Algés, “Uma antologia”.

A exposição reúne um conjunto de 170 obras que percorre cerca de 40 anos da sua carreira. Não está lá tudo, mas estão, pela primeira vez, fotografias a preto-e-branco que a artista tira como matéria de estudo para as obras que depois cria no atelier.

Em entrevista à Renascença, Graça Morais assume que não é indiferente às notícias que vê, sejam os incêndios, seja a violência sobre as mulheres ou a emigração. Traz tudo isso para a sua arte que confessa não ser de “militância”. “Faço isso quase como uma obrigação, de estar atenta a um mundo que me cerca”, aponta.

Mas a artista que na exposição mostra, por exemplo, um quadro seu que voltou a comprar quando o viu num leilão, diz que precisa de “retiros de silêncio”. É nesses momentos que pinta folhas, sementes ou um simples tomate coração de boi. “Preciso disso para conseguir aguentar-me psicologicamente”, admite, porque nas outras obras sabe que põe “em perigo” a sua “situação económica”. “Nem todas as pessoas gostam de ter quadros que as incomodem em casa. É mais fácil comprar obras abstratas, com flores.”

"Graça Morais — Uma Antologia" é o nome desta exposição aqui no Palácio Anjos, em Algés. É uma antologia "possível"? Que seleção fez?

Isto é uma antologia, mas não reúne todos os períodos da minha pintura. É uma pequena antologia, mas com grandes obras, a meu ver, e com algumas pequenas. Tem pinturas de grandes dimensões e tem pequenos desenhos, que gosto muito de fazer.

São desenhos que acho que faziam falta nesta exposição para revelar aspetos diferentes da minha criatividade.

Também apresento várias fotografias. Não é costumo dar esse valor às fotografias como obras em si, mas esta exposição tem fotografias que vão ser surpreendentes para muitas pessoas.

No fundo revela o seu processo criativo, porque a fotografia serve-lhe de matéria-prima para depois desenvolver os desenhos?

Sim, ao longo da minha vida, desde os anos 80, sempre fotografei muito, não com pretensões de fazer fotografias de muita qualidade, mas como uma base de trabalho. Estas ultrapassam essa base de trabalho.

Realmente serviram, sobretudo umas que fotografei numa cena que era um verdadeiro ritual da matança do porco. Essas fotografias são verdadeiras obras em si, e uma ou outra serviram-me de base para desenhar a carvão e a pastel. Um desses desenhos grandes está na exposição.

Vemos nesta exposição as várias técnicas que usa, desde o pastel, ao carvão. Acaba por, nesta antologia, revelar aquilo que são as suas matérias-primas?

Há obras que são desenhos e são pinturas. Eu não sei distinguir, nem sei dizer se só são desenhos ou se só são pinturas. Vivem muito do traço, vivem muito do desenho.

Nas minhas pinturas, sobretudo, pinto os sentimentos, as emoções e os olhares

Eu gosto muito de desenhar o carvão e a pastel, e há grandes telas, sobretudo uma que pintei no ano de 2017, no ano daquela tragédia dos incêndios, e essa tela é uma grande pintura acrílico.

Vemos também temas que são seus, os rostos das mulheres, a matança do porco, a violência doméstica. Traz para esta exposição aquilo que a inquieta como artista?

A violência doméstica não aparece como uma ilustração. Eu acho que o que se pode ver naqueles rostos é que havia, naquelas mulheres, um grande sofrimento.

Mas, de facto, as minhas obras nunca são ilustradoras, por isso nós nunca vemos aquilo que muitas vezes se vê na televisão e nos jornais, que é a violência do homem sobre a mulher.

Mas, nas minhas pinturas, sobretudo, pinto os sentimentos, as emoções e os olhares. E é isso que eu acho que passa para as pessoas, aquela dimensão do enorme sofrimento que as pessoas vivem quando são sujeitas a situações que são dramáticas nas suas vidas.

Faço retiros de silêncio, porque preciso para conseguir aguentar-me psicologicamente. É nesses momentos que faço esses desenhos que são segredos

Nem sempre tem a ver com a violência do homem, mas sim com a violência da vida, com as exigências que, geralmente, a vida dessas mulheres têm e que acontecem ainda hoje.

Eu ao ler notícias nos jornais fico impressionada como é que há mulheres que ficam com quatro crianças a ganhar uma ninharia e, por isso, têm de se desdobrar a trabalhar porque os homens abandonam-nas com essas crianças.

Acho que são situações sociais dramáticas e que o Governo tem a obrigação de apoiar mais, e a sociedade civil também tem de estar mais atenta a esses casos.

E cabe ao artista também contribuir para a consciência cívica?

Da minha parte, não faço isso como militância, mas faço isso realmente com muita sinceridade. É a minha forma de ser solidária com essas pessoas, de mostrar, de deixar um testemunho.

Graças aos jornalistas temos uma guerra em direto. Graças ou, infelizmente, mas ainda bem que existem jornalistas que se sacrificam e vão ao terreno e filmam e comunicam. Às vezes pondo em perigo as suas vidas.

Eu não ponho em perigo a minha vida ao fazer esta minha pintura, mas muitas vezes ponho em perigo a minha situação económica, porque nem todas as pessoas gostam de ter quadros que as incomodem em casa. É mais fácil comprar obras abstratas, com flores.

Eu também gosto de pintar flores, mas só pequeninas. Eu, quando pinto cenas, como estão aqui, ligadas à natureza, resulta dessa minha relação com o campo e com a natureza que pontualmente visito e que trago para o meu atelier e dá-me muita paz.

Que paz é essa?

Eu preciso dessa paz. Costumo dizer que às vezes faço retiros de silêncio, porque preciso para conseguir aguentar-me psicologicamente e fisicamente. É nesses momentos que faço esses desenhos que são segredos e que realmente me apaziguam e que fazem parte da vida.

Mas isso também se sente aqui nesta exposição, porque há uma espécie de diferentes ritmos de sala para sala. Intercala esses quadros que diz que são mais difíceis, com esses outros desenhos mais de pormenor, de uma fruta, de umas folhas.

Por exemplo, um irmão ofereceu-me tomate para comer e levou-me umas uvas. E eu acho aquelas formas tão bonitas que antes de os comer, desenho-os e depois realmente acabam por ter a sua utilidade.

É essa relação com as coisas mais simples da vida. Mas, infelizmente, eu enfrento o dia-a-dia com um... Não consigo dizer... Não faço isso por militância, de facto, mas faço isso quase como uma obrigação de estar atenta a um mundo que me cerca.

E, nesse mundo, olho mais para as mulheres do que para os homens, porque a mim é mais fácil estar junto das mulheres.

Nós, entre as mulheres, criamos confidências. É mais fácil desabafarmos e conhecermos melhor o que é o nosso mundo. Mas isso desde que era criança, que só me deixavam brincar com meninas, viver no meio de tias e a conviver muito com uma mãe extraordinária e com aquelas mulheres da aldeia.

Hoje, infelizmente, quando vou à aldeia onde nasci, só há duas mulheres vivas, as outras já estão todas no cemitério.

Mas, no lugar onde vivo, gosto muito de ir a um café onde vão pessoas muito simples. E essas pessoas são pessoas que... Olhe, algumas são ciganas.

Acho muito a graça à maneira como elas tratam os netos e como os netos são mimados por elas. Porque têm uma relação com os filhos e com as crianças em que não há proibições. E às vezes nem sempre é muito fácil, mas é interessante vermos.

Às vezes vou na rua, em Lisboa e ouço falar inglês, hindu, crioulo. É tão interessante. A minha cidade está cheia. Eu gosto de Lisboa. E realmente há uma mistura de pessoas com hábitos diferentes e são todas muito pacíficas. Nunca me sinto ameaçada junto a essas pessoas.

Mas há quem se diga ameaçado. Há um discurso de ódio cada vez maior. Acaba por querer trazer isso para a arte?

Hoje, esse discurso é um discurso de extrema-direita. Que, infelizmente, cada vez tem mais força em toda a Europa.

Ao mesmo tempo, temos de aceitar que há pessoas que têm dificuldade de aceitar a diferença, porque se sentem ameaçadas. E o medo é uma constante.

A verdade é que nos noticiários, as televisões, não deviam exagerar na repetição constante de certos crimes. Essas notícias devem ser dadas, mas não com tanta insistência.

Porque ao darem-se e repetirem-se com tanta insistência, dá a impressão de que realmente vivemos num mundo onde só há assaltos, só há crimes. E, felizmente, não é isso.

Há, mas temos coisas tão maravilhosas que não se dá o valor que nós precisamos que se desse para que as pessoas se sentissem mais felizes.

Eu fiz uma série de obras que ofereci ao Centro de Arte Contemporânea, em Bragança sobre os emigrantes. Aquela fase em que os emigrantes morriam no oceano era dramático.

Vi o desespero quando olhava para aquelas imagens na televisão e nos jornais. Eu recortava algumas figuras. Que desespero! Essas pessoas deviam estar a fugir da guerra, ou a fugir de serem torturadas, muitas delas, ou a fugir da fome.

Quando forças de extrema-direita… essas pessoas são nossos irmãos, fazem parte da humanidade, e sofrem a procurar um lugar no mundo, e depois chegam aqui e voltam a ser escravizados, muitas vezes.

Isso entra na minha pintura, de facto, porque acho que o mundo sempre viveu situações dessas e sempre houve artistas sensíveis a essas situações. Outros não.

Eu não consigo estar no meu atelier como se estivesse numa torre de marfim, insensível ao que se passa à minha volta.

E por isso às vezes também é mais difícil vender a arte que faz?

Sim, há obras que não são vendáveis, não são comerciáveis, mas eu não me preocupo.

A pintura para mim, o desenho, o ser artista, nunca teve como fim enriquecimento. Claro que gosto de viver com qualidade de vida, e por isso é que eu dei aulas durante muitos anos, porque ao dar aulas ganhava o suficiente para depois, na pintura, me sentir cada vez mais livre.

Depois do 25 de Abril, essa liberdade foi maior, e hoje continua. Felizmente vivemos num país em democracia onde um artista, a única censura é a censura dos pares, é a censura dos poucos escritores que escrevem nos jornais sobre arte.

Embora, cada vez escrevam menos, e, sobretudo, às vezes há uma censura silenciosa de pessoas que não gostam de nós, por qualquer razão, e nem sequer se dão ao trabalho de olhar com atenção para a nossa obra. Mas isso sempre aconteceu.

Por isso é que houve grandes artistas que durante períodos foram esquecidos e depois voltaram a ser conhecidos, e eu, ao entrar neste mundo mágico e extraordinário da criação, sei que tenho que contar com pessoas que, realmente, cada vez gostam mais da minha pintura e com outros que não gostam.

Mas continuo a fazer aquilo que acho que tenho que fazer, porque quando estou no meu atelier a pintar, são os momentos de maior verdade, porque não posso estar a mentir-me a mim mesma.

Quando nós estamos em certas situações, às vezes podemos fazer algum fingimento, até para não magoar as pessoas, mas na pintura, não, sou cruel.

Recordo uma vez, em Marrocos, numa exposição que o Presidente Mário Soares levou, convidou vários artistas, e eu estava presente. Um dos ministros do Rei de Marrocos olhou para mim e disse: "Mas foi a senhora que pintou isto? Ah, mas a senhora tem um ar muito pacífico.". E eu disse assim: "Sabe, eu aqui estou em descanso. Quando estou no meu atelier, estou sempre em guerra".

E agora as idas ao atelier são um momento diário? Como é que é o seu ritmo de trabalho?

Nem sempre consigo estar todos os dias no atelier, porque cada vez tenho mais desafios.

Este desafio, por exemplo, que está lá em baixo na exposição, aquele grande cartão de homenagem aos presos políticos do 25 de Abril, foi um cartão que implicou muita concentração, muito isolamento, muita reflexão. Foi difícil, porque é uma grande responsabilidade homenagear pessoas que ajudaram a que este país hoje seja o país que é, e sofreram horrores.

Foram presos políticos na Prisão de Caxias antes da Revolução de 1974.

Já a prisão em si é horrível, quanto mais a tortura! E por isso eu demorei muito a conseguir chegar a uma ideia de que realmente não sentisse vergonha, ao oferecer estas imagens a esses presos políticos.

Alguns estão vivos, outros não. No dia da inauguração estiveram ali muitos desses presos políticos que me vieram cumprimentar.

E agora, esse painel que tem cinco metros, está a ser copiado em azulejo na Fábrica Viúva Lamego e vai ter a dimensão de 20 metros por 6 metros de altura.

Pretendo que seja realmente um memorial a um tempo em que houve tanta gente a sofrer e lembrar às pessoas que nós não queremos que esse tempo volte.

Queremos é viver um tempo de felicidade e de grande amor entre as pessoas.

Mas perguntava-lhe sobre o seu ritmo de trabalho...

Quando há uma obra pública, isso implica muitas reuniões. Agora implica ir à fábrica ver como é que está a ser feito.

Eu, às vezes, preferia estar um mês inteiro fechada naquele meu micromundo. Mas também tenho de tratar de outros assuntos.

Lembro que uma vez o José Saramago disse-me: "Tenho saudades do tempo em que não era conhecido, porque depois do Prémio Nobel não tenho descanso para escrever." Estava sempre a ser solicitado, a ir a muitos países e foi muito homenageado.

Eu não sou homenageada dessa maneira, mas com o Centro de Arte Contemporânea em Bragança, alimentar aquele centro duas ou três vezes no ano com obras que estou sempre a descobrir com o diretor, abrimos gavetas e dizemos: "Ah! isto nunca foi exposto, vamos mostrar aquilo tem qualidade”. O que não tem qualidade eu nunca mostro.

Mas o não ter qualidade muda com o tempo, sabe? Às vezes, há coisas que acho que são fracas e daqui a uns tempos olho para elas e até acho que não são tão fracas.

Porquê?

Não sei, tem a ver com a nossa própria evolução como pessoa e como intelectualmente uma pessoa vai evoluindo e vai vendo.

Quando vejo exposições de outros artistas estou sempre a pensar, sobretudo quando são aquelas grandes obras, como é que eu gostava de fazer essas obras tão grandes e chego ao atelier e acho que é tudo mau, é tudo fraco.

Mas depois passa-se um tempo e começo a ver que não, mas que afinal até já consegui muito!

Tem aqui um quadro nesta exposição que, contou-me há pouco, que é seu, mas que teve de o comprar de volta?

É um desenho a carvão que está na sala onde está aquela série da caça e da matança [do porco]. Eu expus durante muitos anos na Galeria 111. O Manuel Brito era um grande galerista, e mulher também, e trabalhei com eles.

Expunha lá e toda a parte comercial passava pela Galeria 111. E de vez em quando, agora com a minha idade, já começa a haver muitos quadros que são revendidos, porque às vezes são os filhos que herdam os quadros, outras vezes são as pessoas que precisam ganhar algum dinheiro e põem em venda nos leilões.

Nem sempre os leilões fazem os preços que eu acho que os quadros mereciam. Mas enfim… E disseram-me que havia um quadro muito bom e vi a fotografia e disse: "Ah, mas é que eu não tenho nenhum quadro desta série, porque a 111 vendeu tudo." E comprei-o para mim!

Já não é a primeira vez que mando alguém comprar um quadro meu, quando esse quadro me interessa, porque estou a fazer uma coleção.

Tenho muitas obras que guardei ao longo dos anos, porque ninguém as comprava. E há outras obras que confesso que tenho pena de ter vendido porque são pontos de grande referência na minha pintura e fazia-me falta às vezes olhar para elas na atelier.

Mas como tenho esta oportunidade de fazer várias exposições em Bragança, e cada vez mais também por todo o país, lá vamos descobrindo onde é que essas obras andam. E agora esta está aqui e é bom.

É um olhar sobre o passado. É como quando encontramos uma pessoa de família que já não víamos há anos, mas ficámos muito contentes, abraçamo-nos e parece que foi ontem.

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