Óscares 2026
IA, novas formas de ver cinema e muita política na noite de Óscares em que Hollywood não mordeu a língua
16 mar, 2026 - 04:55 • Inês Braga Sampaio
Conan O'Brien lançou o mote, logo de início, para uma gala em que o cinema foi elevado a símbolo de "resiliência", em "tempos muito caóticos e assustadores". Realizadores foram os mais arrojados de uma noite em que se falou de novas tecnologias, "streaming" e YouTube, violência, globalismo e Donald Trump.
"Não à guerra e libertem a Palestina". Foram estas as primeiras palavras de Javier Bardem, quando subiu ao palco, para apresentar o Óscar de Melhor Filme Internacional. Numa gala em que a Inteligência Artificial (IA) e as novas tecnologias foram alvo de várias piadas, o grande destaque vai, no entanto, para a forma como os protagonistas de Hollywood não se inibiram a falar de política.
Bardem já aparecera na passadeira vermelha com dois alfinetes de lapela. Um que usara em 2003, a propósito da guerra no Iraque, a dizer "no a la guerra", "não à guerra" em português. Agora, reutilizado para protestar o conflito no Médio Oriente.
"Aqui estamos, 23 anos depois, com uma nova guerra ilegal, criada por [Donald] Trump e [Benjamin] Netanyahu com outra mentira, que é derrotar o regime. Mas eles estão a radicalizar o regime com as suas ações horríficas. A verdadeira razão são armas de destruição maciça", afirmou.
O outro alfinete era "um símbolo de resistência" pela Palestina.
Não foi o único a falar sobre o tema. O elenco de "A Voz de Hind Rajab", um filme sobre uma criança que morreu na sequência dos bombardeamentos em Gaza, exigiu "um cessar-fogo permanente".
"Neste momento, não há cessar-fogo. Continua a haver bombardeamentos, destruição, deslocados, em todo o mundo: Palestina, Líbano, Irão, Venezuela, todo o mundo", lamentou a atriz Saja Kilani.
Amar Hlelel realçou que faltava alguém "muito importante" à comitiva do filme: o ator Motaz Malhees, que terá sido "impedido de entrar" nos Estados Unidos para ir aos Óscares.
Os protestos na passadeira vermelha foram o aperitivo para uma noite em que Hollywood não mordeu a língua. E mesmo sem mencionar Donald Trump, as piadas mais acídicas caíram, de várias bocas diferentes, sobre o Presidente dos EUA.
O primeiro foi o apresentador da gala, Conan O'Brien, que assinalou o facto de que, pela primeira vez desde 2012, nenhum britânico foi nomeado para os Óscares de Melhor Ator e Melhor Atriz.
"Questionado sobre o assunto, um porta-voz britânico disse: 'Ao menos, nós prendemos os nossos pedófilos'", atirou, em referência à detenção do ex-príncipe André, por ligações a Jeffrey Epstein.
Outra "boca" de Conan foi para o sistema de saúde norte-americano, com menção sobre "Hamnet", em que a personagem principal dá à luz na floresta: "Ou, como chamamos na América, cuidados de saúde acessíveis."
Num registo mais sério, o apresentador apelou a que esta noite de Óscares fosse um farol de otimismo, em "tempos muito caóticos e assustadores".
"É em momentos como estes que acredito que os Óscares são particularmente ressonantes. Ora vejam: estão representados 31 países de seis continentes. E cada filme que saudamos é o produto de milhares de pessoas que falam diferentes línguas e que trabalham duramente para fazer algo bonito. Fazemos tributo, esta noite, não apenas ao cinema, mas aos ideais de arte global, colaboração, paciência, resiliência e a mais rara qualidade dos dias de hoje: otimismo. Por isso, celebremos, não por pensarmos que tudo está bem, mas porque temos esperança e trabalhamos por melhores dias", afirmou.
O humor mordaz não esteve apenas a cargo de Conan O'Brien. O humorista Jimmy Kimmel, que em setembro de 2025 foi tirado do ar pela ABC (que transmitiu os Óscares desta noite, nos EUA) devido a um discurso sobre Donald Trump e a morte de Charlie Kirk que não agradou a uma fação da política norte-americana, foi chamado a apresentar os prémios para documentários.
Primeiro, realçou que, enquanto alguns documentários "te mostram a andar pela Casa Branca a experimentar sapatos" — uma piada sobre "Melania", que ilustra a vida da primeira dama dos EUA —, "contar uma história que te pode matar é verdadeira coragem".
"Como sabem, há países cujos líderes não apoiam a liberdade de expressão. Não estou autorizado a dizer quais. Vamos ficar pela Coreia do Norte e a CBS", atirou, em referência ao facto de a estação televisiva, que é rival da ABC, pertence agora ao grupo Paramount, cujo dono tem proximidade a Trump.
De seguida, ao apresentar o Óscar de Melhor Longa-Metragem Documental, Kimmel voltou, sem mencionar Trump, a fazer mira a "Melania": "Ele vai ficar tão zangado por a mulher dele não ter sido nomeada."
Vencedores não medem palavras
Se os prémios não saíram muito do que se afigurava previsível, os discursos dos vencedores surpreenderam pela carga política, em especial da parte dos realizadores.
Já depois de Natalie Musteata, que recebeu a estatueta por "Two People Exchanging Saliva" — que empatou na categoria de Melhor Curta-Metragem — , ter destacado que o seu filme era "estranho e 'queer' e feito por uma maioria de mulheres", o seu parceiro na realização, Alexandre Singh, realçou a multiculturalidade da equipa, com pessoas de várias nacionalidades.
O correalizador da curta-metragem em língua francesa deixou, depois, uma mensagem aos mais jovens: "Vocês são a esperança num mundo que é escuro e absurdo e ridículo e horrífico, mas é por isso que fazemos filmes, não é? Porque acreditamos que a arte pode mudar a alma das pessoas. Talvez demore dez anos, mas podemos mudar a sociedade através da arte, através da criatividade."
Ainda no tema da globalidade do cinema, Maggie Kang, realizadora de "Guerreiras do KPop", dedicou o triunfo na categoria de Melhor Filme de Animação à Coreia do Sul e a todos os sul-coreanos.
"Lamento muito que tenha demorado tanto para nos vermos num filme como este. Mas ele está aqui, e isso significa que a próxima geração não terá de sentir falta disso", afiançou.
Autumn Cheyenne Arkapaw, primeira mulher a vencer o Óscar de Melhor Fotografia, pediu a todas as mulheres na plateia que se levantassem, porque "não estaria" ali sem elas.
Chegou, mais tarde, a vez de Paul Thomas Anderson, que recebeu o Óscar de Melhor Argumento Adaptado (o primeiro de dois prémios que arrecadou).
"Eu escrevi este filme para os meus filhos, para lhes pedir desculpa pela confusão que deixámos neste mundo que lhes estamos a entregar. Mas também com o encorajamento de que eles serão a geração que, espero, nos trará algum senso comum e alguma decência", declarou.
Poucos minutos passados, foi a vez de "All the Empty Rooms", um filme sobre tiroteios nas escolas, ganhar na categoria de Melhor Curta-Metragem Documental. Gloria Cazares, a mãe de uma das crianças assassinadas, também subiu ao palco, para receber o galardão, e deixou o seu testemunho.
"A minha filha Jackie tinha nove anos quando foi morta em Uvalde. Desde esse dia, o quarto dela está congelado no tempo. A Jackie é mais que uma manchete. É a nossa luz e a nossa vida. A violência com armas é agora a maior causa de morte de crianças e adolescentes. Nós acreditamos que se o mundo pudesse ver os quartos vazios deles, seríamos uma América diferente", asseverou.
Um dos mais marcantes discursos da noite esteve a cargo de David Borenstein, que recebeu o Óscar de Melhor Documentário, com "Mr Nobody Against Putin", um filme "sobre como perdes o teu país".
"O que percebemos foi que perdes o teu país através de incontáveis, pequenos, minúsculos atos de cumplicidade. Quando nos tornamos cúmplices, quando o nosso governo assassina pessoas nas ruas das nossas grandes cidades. Quando não dizemos nada, quando oligarcas tomam conta dos 'media' e controlam como podemos produzi-los e consumi-los. Todos enfrentamos uma escolha moral, mas, felizmente, até um zé-ninguém é mais poderoso do que pensam", discursou.
Pavel Talankin, protagonista do filme, disse na sua língua materna, que teve tradução para inglês: "Durante quatro anos, olhávamos para o céu à procura de estrelas cadentes, para podermos fazer um desejo muito importante. Mas há países que, em vez de estrelas cadentes, têm bombas e drones a cair. Em nome do nosso futuro e dos nossos filhos, parem todas as regras agora."
Quando chegou o momento de "Valor Sentimental" ganhar a estatueta de Melhor Filme Internacional, o realizador Joachim Trier subiu ao palco para fazer um apelo: "Todos os adultos são responsáveis por todas as crianças. Não votemos em políticos que não tomam isso em consideração."
Novas tecnologias não escapam
O grande destaque desta gala dos Óscares foi a política, em virtude dos vários discursos sem rodeios. Não obstante, a tecnologia e as novas formas de ver cinema também estiveram em foco — tal como Mário Augusto antecipara, no episódio do "Watch Party", o podcast de cinema e séries da Renascença, de antevisão da cerimónia.
Para começar, a Inteligência Artificial (IA).
"Tenho a honra de ser o último apresentador humano dos Óscares", clamou Conan O'Brien logo a abrir, para gargalhada geral.
Na apresentação do Óscar para Melhor Filme de Animação, o ator Will Arnett também fez mira à IA: "Esta noite, celebramos pessoas, não IA. Animação é mais que um comando, é uma forma de arte e precisa de ser preservada."
Conan voltou à carga uns minutos depois, com um "anúncio" a brincar com a IA e as novas formas de ver cinema: a falsa empresa Ventura Crossroads (nome que, num ecrã de telemóvel, fica reduzido a "turds", inglês para "estrumes"), que quer "preservar a história do cinema" e lança os filmes em formato vertical. Inevitavelmente, muito se perde.
Houve outro segmento sobre o público "moderno", que se debruçou sobre a crescente exigência dos produtores de que seja repetida informação várias vezes no ecrã, de forma a que quem vê filmes ou séries enquanto olha para o telemóvel não perca o fio à meada. O resultado foi um clip a brincar com o clássico "Casablanca", com repetições estapafúrdias de informação.
Conan leu, ainda, um resumo da noite dos Óscares com várias expressões utilizadas pelos mais jovens, o que ao ouvido destreinado soava a um rol de incongruências.
Recados para streaming e YouTube
"Train Dreams", "Frankenstein" e "Guerreiras do KPop", todos da Netflix e nomeados a Óscares, foram feitos a pensar no "streaming".
Para serem considerados a prémios da Academia, os filmes são obrigados a ter distribuição no cinema, pelo que estes três títulos tiveram de passar pelas salas. A Netflix, que defende que o futuro do cinema é o "streaming", está a tentar que essa regra seja anulada, para não ter de passar as suas produções fora da plataforma.
Acontece que o dono da Netflix marcou presença no Dolby Theatre, o que mereceu a atenção de Conan O'Brien: "Ted Sarandos está pela primeira vez num cinema."
Por outro lado, a Amazon não teve filmes nomeados.
"Como assim, o site em que compro o meu papel higiénico não tem Óscares?", questionou o apresentador.
A partir de 2029, a gala dos Óscares passará a ser transmitida no YouTube. Algo que não escapou à ironia de Conan O'Brien.
Primeiro, com um segmento em que foi interrompido por "pop-ups" de publicidade, algo a que os utilizadores do YouTube estão bem habituados. A atriz Jane Lynch foi a protagonistas dos incómodos anúncios.
Já no epílogo da cerimónia, foi transmitido um vídeo em que Conan é parabenizado pelo excelente trabalho a apresentar os Óscares e presenteado com o título de "apresentador para a vida".
Ainda se está a habituar ao novo escritório, porém, quando é envenenado por um gás verde e morre. Quem herda o cargo de "apresentador para a vida" é o YouTuber Mr. Beast.
Veja a lista completa dos vencedores:
- Melhor Filme: "Batalha Atrás de Batalha"
- Melhor Realização: Paul Thomas Anderson, "Batalha Atrás de Batalha
- Melhor Ator: Michael B. Jordan, "Pecadores"
- Melhor Atriz: Jessie Buckley, "Hamnet"
- Melhor Ator Secundário: Sean Penn, "Batalha Atrás de Batalha"
- Melhor Atriz Secundária: Amy Madigan, "Weapons"
- Melhor Argumento Original: Ryan Coogler, "Pecadores"
- Melhor Argumento Adaptado: Paul Thomas Anderson, "Batalha Atrás de Batalha"
- Melhor Fotografia: Autumn Durald Arkapaw, "Pecadores"
- Melhor Montagem: "Batalha Atrás de Batalha"
- Melhor Design de Produção: "Frankenstein"
- Melhor Guarda-Roupa: "Frankenstein"
- Melhor Maquilhagem: "Frankenstein"
- Melhor Som: "F1"
- Melhor Banda Sonora: Ludwig Goransson, "Pecadores"
- Melhor Canção Original: "Golden", "Guerreiras do K-Pop"
- Melhores Efeitos Especiais: "Avatar: Fogo e Cinzas"
- Melhor Curta-Metragem em Imagem Real: "The Singers" e "Two People Exchanging Saliva"
- Melhor Documentário: "Mr. Nobody Against Putin"
- Melhor Curta-Metragem Documental: "All the Empty Rooms"
- Melhor Filme de Animação: "Guerreiras do K-Pop"
- Melhor Curta-Metragem de Animação: "The Girl Who Cried Pearls"
- Melhor Filme Internacional: "Valor Sentimental"
- Melhor Casting: "Batalha Atrás de Batalha"










