Entrevista Renascença

Mazgani acredita nos "jovens capazes" do Irão. Mudança "vai demorar, mas tenho esperança"

17 mar, 2026 - 07:00 • Maria João Costa

O músico iraniano radicado em Portugal tem novo disco. “Cidade de Cinema” é o primeiro álbum que escreve e grava em português. “É um sarilho que arranjei para mim, mudar de língua”, desabafa. Contido quando fala do Irão, o seu país, Mazgani diz que tem lá família. “A única coisa que me preocupa são realmente as pessoas inocentes."

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A conversa começou pelo novo disco “Cidade de Cinema”, o primeiro que Mazgani grava em português, passou pela digressão que tem em curso, mas não podia deixar de tocar o tema do momento, o Irão, o país de origem do músico.

Mazgani confessa que “a única coisa” que o preocupa “são realmente as pessoas inocentes”. Tem lá família ainda, com quem mantém contacto. O artista, que veio para Portugal aquando da Revolução iraniana de 1979, diz ter esperança no futuro.

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“Preferia que esta mudança de regime tivesse sido pelas pessoas, uma mudança interna. E não uma coisa que não deixa de parecer um capricho de um Presidente americano doido”, desabafa Mazgani.

O músico tem concerto marcado para Lisboa, no Auditório Carlos Paredes, no próximo dia 30 de abril. Antes, já esta quinta-feira, participa numa conversa na Sociedade Nacional de Belas Artes.


O disco “Cidade de Cinema” é o primeiro que escreve e canta integralmente em português. Que desafio se colocou a si próprio para esta empreitada?

Foi um desafio enorme. Foi um susto! Mas acho que a coisa correu bem. A ideia era, e sempre foi, ir rompendo com as coisas que sentia que sabia fazer. O desafio de cantar em português foi feito por um colega e músico que me ligou um dia a dizer: “Vamos gravar um disco em português?”

Foi uma longuíssima conversa, e eu fiquei muito defensivo, a resistir. “Sabes lá a minha vida, não sei o quê…” . Agora acho que a coisa deu-se bem.

Quando sentimos que sabemos fazer as coisas, sentimos que já estamos a desistir e que nos estamos a repetir. A ideia foi partir um bocadinho para o desconhecido

Mas parece que teve medo de fazer este disco?

A ideia é ter um bocadinho de medo. Julgo que quando sentimos que sabemos fazer as coisas, sentimos que já estamos a desistir e que nos estamos a repetir, portanto a ideia foi partir um bocadinho para o desconhecido.

Mas a resistência era enorme, porque uma pessoa vai desenvolvendo a sua caligrafia, a sua voz, em inglês e são muitos anos a escrever.

Devo-lhe dizer, por exemplo, que no disco anterior que gravei em inglês, um dia de estúdio era passado a pensar em tudo o resto menos na voz. No final do dia, em alguns minutos, eu cantava o que tinha que cantar e a coisa estava feita.

Desta vez, o que eu queria era amparo para a minha voz e que o dia fosse dedicado a cantar em português. Portanto, foi passar de alguém que sente alguma autoridade no que está a fazer para um maçarico.

E de onde vem esta ideia de “Cidade de Cinema”. É um apaixonado pela sétima arte? O cinema serviu como ingrediente para criar as músicas, como se fosse cada uma, uma cena de cinema?

Julgo que sim. Sempre me movi muito pelas imagens, mesmo quando estou a tentar rimar palavras ou procurar acordes, são imagens, ambientes, cores que me vêm.

Depois a ideia é construir o resto à volta dessa imagem primeira e tentar encontrar uma coerência, digamos, fazer um filme.

Nesse sentido, sim, o cinema sempre me serviu de inspiração e continua a ser um meio muito privilegiado para mim de ver a vida e de aprender. É uma forma de aprender como os outros são. A ficção ajuda-nos muito a conhecer os outros. E para quem quer contar histórias, acho que isso é fundamental.

Continuo a ter família no Irão. E, portanto, para mim, não é uma questão do estreito, ou do petróleo, ou da geopolítica. São as pessoas

Houve algum filme em particular que o marcou e inspirou?

É a primeira vez que digo isto. O filme que levou à escrita da canção que dá o nome ao disco “Cidade de Cinema” foi “Retrato de Uma Rapariga em Chamas”. Gostei imenso do filme.

Lembro-me depois de ter saído do cinema, já assim, meio a sentir a coisa a surgir, com a ideia de que tinha que fazer alguma coisa, como se estivesse a crescer alguma coisa.

Vai estar esta quinta-feira numa conversa na Sociedade Nacional de Belas Artes sobre o disco, depois tem mais concertos marcados?

Eu vou estar quarta-feira no Visão Fest. É um encontro, uma festa, que procura angariar fundos para os jornalistas da Visão, comprarem o título da revista. Portanto, se estiverem por perto, apareçam! É por uma boa causa.

No dia seguinte, quinta-feira vou estar à conversa na Sociedade Nacional de Belas Artes, a falar de imagens e de cinema.

Depois, também em abril, vamos estar na estrada e eu convidaria os ouvintes a visitarem as nossas redes sociais, onde vamos anunciando as datas.

Vamos continuar a promover o disco. Os concertos também foram reforçando este músculo de cantar em português. E se for possível, eu quero fazer mais um disco em português, pelo menos.

Os concertos têm muito público português, isso não o intimida por agora cantar em português?

Quando estamos nos concertos estamos a cantar num breu, mas sentimos normalmente o pulso à sala. Eu sinto que as histórias em português, as canções que vão sendo divulgadas, e que as pessoas conhecem, os singles, vejo muita gente a cantar.

Para mim é uma alegria imensa, porque, sendo a língua das pessoas, é mais fácil decorar e relacionarem-se com as histórias. Portanto, eu sinto uma diferença.

O Irão é um país jovem, onde toda a gente está bem ciente do que está a acontecer

Mas não deixa de cantar o seu reportório em inglês?

Não deixo. O repertório é uma mistura dos discos anteriores com este.

Essa caligrafia, essa estética, essa voz, essencialmente é a mesma. Eu sinto que há coerência entre os discos. O rompimento que sinto é íntimo, é um sarilho que eu arranjei para mim próprio, mudar de língua.

Mas acho que o que faço é a mesma coisa. Portanto, para mim faz sentido cantar nas duas línguas, porque essencialmente é a mesma pessoa.

É a sua identidade musical?

Sim, a minha identidade é a mesma, também pela minha história pessoal, talvez. Sempre me senti o mesmo em muitas línguas.

Falando da sua história pessoal, é inevitável que lhe pergunte que preocupação sente com a atual situação do Irão, o seu país de origem, e em particular com as suas pessoas?

É precisamente isso, as pessoas que o habitam. Eu continuo a ter família no Irão. E, portanto, para mim, não é uma questão do estreito, ou do petróleo, ou da geopolítica.

São as pessoas que habitam. Quando as coisas nos estão próximas e íntimas, não conseguimos deixar de pensar. A única coisa que me preocupa são realmente as pessoas inocentes que nada têm a ver com este regime. É desconcertante. Lança-me numa grande confusão.

Não nos chegam imagens, porque quem controla a história apresenta as suas próprias.

Mas olha para tudo isto como uma saída? Com esperança?

Eu tenho sempre esperança. Falando da política da coisa, eu preferia que esta mudança de regime tivesse sido pelas pessoas, uma mudança interna. E não uma coisa que não deixe de parecer um capricho de um Presidente americano doido.

Mas sim, o Irão é um país jovem, com muitos jovens cultíssimos, capazes, que tem uma cultura milenar – bem sabemos da sua riqueza – onde toda a gente sabe um bocadinho de poesia e toda a gente está bem ciente do que está a acontecer.

Vai demorar, é uma questão geracional, mas eu tenho esperança. Eu tenho sempre esperança...

Tem conseguido manter o contato com a sua família?

Sim, felizmente estão todos bem. Mas é uma tensão grande, como deve imaginar.

O que lhe dizem? Chegam poucas imagens sobre o que realmente se está a passar dentro do Irão.

Sabe, a questão das imagens, é também uma questão de informação. Nós dizemos, por exemplo, um título de notícia pode ser, por exemplo: “Morreram pessoas inocentes”, diz o Irão, como se fosse uma mentira.

Não nos chegam imagens, porque quem controla a história apresenta as suas próprias, não é? É tudo uma questão da historieta que se conta, da narrativa que se inventa.

É difícil, mesmo, é muito difícil esta situação. Bombardeiam escolas, como se sabe, morrem crianças inocentes, é uma tragédia imensa.

E o que a arte pode, a música que canta que poder tem perante este tipo de situações?

É uma excelente pergunta. A arte serve para tudo e não serve para nada. A beleza da arte está precisamente nessa inutilidade.

A arte não tem poder, felizmente, e por isso é que nós amamos a arte. Mas, a beleza conforta, salva, mostra-nos que há outras coisas, que há mais do que isto, que somos mais do que isto, somos um animal que cria essa coisa.

Não sei responder, é uma pergunta difícil, muito séria, muito profunda. Eu espero que as pessoas e essa riqueza cultural o permita, e aí tenho, talvez, esperança que a arte possa ajudar.

O convívio com aquilo que é verdadeiro talvez ajude a discernir o caminho certo para as coisas. Mas é uma pergunta difícil.

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