Entrevista Renascença

José Luís Peixoto: Perante a guerra “estamos muito perto do pior do passado”

20 mar, 2026 - 17:41 • Maria João Costa

Acaba de receber o Prémio Vergílio Ferreira. José Luís Peixoto escreve há 27 anos e lançou recentemente o livro “A Montanha” que parte de histórias de doentes oncológicos do IPO do Porto. Questionado sobre a situação no Irão e Líbano, países que conhece, lamenta a guerra e diz que “temos muito para evoluir”.

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Entrevista José Luís Peixoto
Ouça aqui a entrevista: "O livro pretende trazer uma reflexão sobre o significado da vida, porque perante a morte questionamo-nos" Foto: Patrícia Santos Pinto

José Luís Peixoto considera que a guerra que diariamente chega em imagens pela televisão é “uma marca de que não temos evoluído tanto como imaginamos”. O escritor galardoado há dias com o Prémio Vergílio Ferreira tem recebido notícias do terreno através de amigos que tem em países afetados pelo conflito.

Em entrevista à Renascença, o autor lamenta que em termos tecnológicos o mundo sinta que “estamos muito à frente”, mas que “naquilo que importa”, perante a guerra, “ainda estamos muito perto do pior do passado”. “Temos muito para evoluir”, aponta.

“A Montanha” (ed. Quetzal) é o novo romance de José Luís Peixoto. O livro que parte das vidas de vários doentes oncológicos do IPO do Porto, serve ao escritor para voltar à história do seu pai que retratou no seu primeiro livro “Morreste-me”. Diz que se fecha um ciclo, mas o tema da “finitude” ainda “não acabou completamente” para si.

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Este livro nasce, antes de mais, de um desafio de um médico do IPO do Porto. Ali estavam várias histórias pessoais, matéria-prima para um escritor. Que histórias é que foste procurar?

Sim, em 2019 foi-me falado de um projeto do IPO do Porto que consistia em atribuir a vários escritores o contacto com vários pacientes do IPO e a partir daí iria-se fazer um livro coletivo que tinha esse princípio.

Esse livro acabou por não avançar, mas eu fiquei com o contacto e pensei que para mim seria interessante se conseguisse desenvolver essa ideia num outro projeto que depois acabou por ser este romance.

Esse projeto, de certa forma, também fazia-me um sentido especial porque vinha na sequência de livros que publiquei antes e que também tinham esta relação com histórias reais que aconteceram.

É o caso do romance anterior, "Almoço de Domingo" que tem a ver com a vida de Rui Nabeiro ou, antes desse, o romance "Autobiografia", que tinha a ver com a vida de uma figura muito conhecida, que era José Saramago.

O livro pretende trazer uma reflexão sobre o significado da vida. A literatura acaba por ser um meio privilegiado para trazer questões

Aqui são outras histórias de pessoas anónimas.

Neste caso, trata-se de outras histórias que não tinham uma relação entre si para lá dessa ligação ao IPO do Porto e à doença oncológica.

Para mim fazia muito sentido porque esse também é um tema, o da finitude e da doença que já estava presente noutros livros meus e que eu achei que podia desenvolver aqui de uma forma que me parecia à partida marcante.

Depois, à medida que o livro foi avançando, acabaram por entrar outras dimensões, outras histórias, outras ideias, embora este ponto de partida seja muito forte.

Como é que consegues equilibrar a realidade e a ficção? Estas são histórias que têm rostos muito pessoais. Até onde é que se vai? Até que ponto é que se expõem essas histórias?

Esse é um dos principais desafios na escrita de um livro como este. Para mim, foi, talvez, realmente o grande desafio, porque se trata de histórias que são muito sensíveis.

São as histórias de vida de pessoas, que tocam não só os próprios, mas todos aqueles que estão à sua volta e que também tendo que ver com uma situação tão intensa na vida como é o contacto com esta doença, acaba por ter ainda esse acréscimo de sensibilidade e, no caso deste trabalho literário, de dificuldade.

Não há uma resposta que seja definitiva, tem de existir um certo bom senso e também tem de ficar muito claro para as pessoas com quem falei de que é que se tratará este trabalho.

E as pessoas foram sempre disponíveis contigo?

Sim, totalmente disponíveis. Aliás, esse foi um dos pontos de partida fundamentais para que acontecesse. Essa disponibilidade e generosidade foi um acréscimo de responsabilidade para mim, porque também queria estar à altura da confiança que estava a ser depositada em mim.

Claro, sempre também percebendo, porque preciso também dessa autocompreensão, que aquilo que eu for contar acaba por ser sempre uma decantação daquilo que efetivamente aconteceu

Estarei a escrever sobre coisas que não presenciei, que me foram contadas e que provavelmente vão perdendo e ganhando algumas dimensões à medida que vão passando de uma pessoa para outra, porque os protagonistas partilharam-nas comigo, eu fiz um entendimento a partir delas e tento partilhá-las com outras pessoas que também farão o seu próprio entendimento.

Voltas ao tema da morte, que marcou o teu primeiro sucesso, "Morreste-me", um livro em que falas da morte do teu pai. Vivemos o tempo das redes sociais, dos "likes", de gente que parece sempre vender saúde. Contar histórias que têm outro rosto e a tal finitude de que falavas, é um desafio?

Sinto que sim. Na verdade, a morte, enquanto tabu, é algo que inclusivamente precede esta realidade das redes sociais e da vida tecnológica que temos.

Já desde há algum tempo que a morte e a ideia da eterna juventude são muito presentes. Fazem parte de um certo mal-entendido, de uma certa ilusão que é cultivada com muita abundância. Mas sinto que essa também é uma força de um texto como este.

Se é verdade que ouço muitas vezes pessoas que me dizem que têm alguma dificuldade em pensar em ler o livro, que é um tema que as deixa desconfortáveis, também é verdade que as pessoas que muitas vezes ultrapassam essa dificuldade, depois surpreendem-se ao perceber que o livro não é aquilo que imaginavam.

Muitas vezes, o problema desses tabus é tudo o que nós imaginamos a partir deles e de uma forma que não é absolutamente específica ou concreta.

O medo, o pânico é sempre algo que não tem forma e quando nós lhe damos forma, nomeadamente através das palavras, acaba por se tornar numa outra coisa que é muito mais manejável e sinto que esse também é um dos aspetos que este livro tenta trazer.

Claro que tem algumas descrições e alguns momentos que são difíceis, mas que, no fundo, são sempre sobre a vida.

Em relação ao primeiro livro que escrevi, o "Morreste-me", este livro tem relações muito diretas, inclusivamente o meu pai também foi chamado a ser personagem neste livro, "A Montanha", e o próprio livro "Morreste-me" é mencionado. Para mim, de certa forma, isso fecha um ciclo, embora eu creia que este tema ainda não acabou completamente para mim.

Há também aqui, em parte, a tua experiência enquanto escritor viajante, a ida pelo mundo. Isso acaba por entrar na escrita deste livro?

Sim, achei interessante trazer o tema das viagens e normalmente a presença em festivais literários, em feiras do livro, apresentações de edições internacionais, porque é uma realidade muito presente para quem escreve livros e os tem publicados em várias línguas.

É um mundo que muita gente sente alguma curiosidade em relação a ele, e que não é assim também tão glamouroso como, às vezes, se pode imaginar.

Aqui essa dimensão acaba por trazer um confronto com essa outra realidade que já falámos, da doença oncológica, quase como o tempo do quotidiano, o tempo do dia-a-dia, a espuma dos dias, versus aquilo que realmente importa, porque essa acaba por ser uma das grandes reflexões deste livro.

Muitas vezes, o livro pretende trazer uma reflexão sobre o significado da vida, porque perante a morte questionamo-nos sobre o significado, e sinto que a própria literatura acaba por ser um meio privilegiado para trazer questões como essa.

As tuas viagens têm sido de alguma forma mais complicadas ultimamente devido ao atual contexto geopolítico?

Não tive problemas a esse nível, porque não viajei para esses lados. Cheguei ontem do México, onde estive a participar numa feira do livro, na Cidade do México, portanto fui para o lado oposto a essas complicações.

Prémio Vergílio Ferreira: Publico livros há 27 anos. Sinto como uma responsabilidade muito grande ver um reconhecimento que diz respeito a tudo aquilo que escrevi

Mas conheces bem alguns dos outros países, como o Líbano e o Irão. Como é que vês a forma como a guerra está a afetar as populações?

Por algumas notícias que tenho através de amigos que vivem em alguns países diretamente afetados, percebo que é um problema bastante grave. Naturalmente que a guerra é sempre uma situação devastadora. Só a própria ameaça da guerra é perturbadora para quem está verdadeiramente sobre ela.

Sinto que nós, no mundo em que vivemos atualmente, acabamos por ter uma relação com essas tragédias de uma forma que me faz lembrar a Cassandra, da mitologia, em que assistia, sabia que era mau, mas sentia-se impotente para fazer alguma coisa.

Nós, que vemos à distância, acho que também temos consciência, mas, na verdade, quando se aproxima, quando se torna uma verdadeira ameaça, como aconteceu a muitos portugueses que estavam, por exemplo, no Dubai ou noutros lugares, aí tudo se transforma.

Parece-me que realmente a guerra, que é um problema que temos vindo a ver nas nossas televisões e ecrãs de uma forma muito persistente nos últimos anos, é realmente uma marca de que não temos evoluído tanto como imaginamos.

Sob o ponto de vista tecnológico, e outros, muitas vezes achamos que estamos muito à frente do que era a nossa realidade há um ou dois séculos, mas depois, quando vemos situações de guerra como esta, percebemos que, afinal, naquilo que importa, ainda estamos muito perto do pior do passado e ainda temos muito para evoluir.

Recebeste recentemente o prémio Vergílio Ferreira, foi destacada toda a tua força criativa e também a forma como fazes com que a literatura portuguesa chegue ao resto do mundo. Que importância tem para ti este prémio e também de que forma é que se regressa à escrita depois de um prémio com o nome de Vergílio Ferreira?

São muito agradáveis estes momentos de reconhecimento, mas também é bom não esquecer os momentos em que não existe esse reconhecimento e que também nos moldam e que também fazem parte da nossa história.

Um momento como este, é claro que é de celebrar, de ficar contente. No meu caso, ainda fico mais contente, não só por se tratar de um prémio que tem o nome de Vergílio Ferreira, que é um autor que me influenciou e me marcou muito, mas também por se tratar de um prémio que parte de Évora, uma cidade que me diz muito a nível pessoal, a nível familiar, uma cidade que marca a minha infância, juventude e que é muitíssimo marcante para mim ter esse reconhecimento a partir dali.

Sendo um prémio de obra, que parte da indicação de universidades e de instituições culturais, acaba por ser também muito interessante.

Este ano vou fazer 52 anos e já publico livros há cerca de 27 anos e por isso já sinto como uma responsabilidade muito grande ver um reconhecimento que diz respeito a tudo aquilo que eu escrevi.

Fico muito contente e tento aproveitar esse encorajamento para também continuar a trabalhar e fazer novos projetos.

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