Exposição
Guggenheim Bilbao mostra Ruth Asawa, artista detida nos EUA devido a origem japonesa
21 mar, 2026 - 08:19 • Maria João Costa viajou a convite do Guggenheim de Bilbao
No ano em que se assinala o centenário do nascimento de Ruth Asawa, o Museu Guggenheim de Bilbao organiza a primeira retrospetiva da obra da artista na Europa. Até 13 de setembro pode ver 250 peças da artista americana de origem japonesa.
Quando tinha cinco ou seis anos, o neto de Ruth Asawa habituou-se a ver em casa “penduradas em cima da cabeça” muitas das esculturas que agora estão expostas no Museu Guggenheim de Bilbao, no País Basco. Trata-se da primeira retrospetiva da artista na Europa.
Henry Weverka guarda na memória de infância peças que faziam “parte do ambiente”. “Não me lembro de ficar muito tempo a olhar para cima! Quando se vive com elas muito tempo, passam a fazer parte”, conta de forma orgulhosa na visita à exposição que reúne 250 obras da avó.
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Este ano celebra-se o centenário do nascimento de Ruth Asawa. A artista nascida na Califórnia, nos Estados Unidos, em 1926, tinha origem japonesa. Os seus pais tinham emigrado para a América onde eram agricultores.
As obras agora expostas em Bilbao, na sua maioria esculturas suspensas, refletem o olhar cuidado que a artista tinha para a natureza, em parte por ter, em criança trabalhado na quinta com os pais.
Tendo em conta o passado da minha avó, que foi presa devido à sua etnia e discriminada, é realmente triste ver isso a acontecer novamente
Mas a história pessoal de Asawa ficou também marcada pela Segunda Guerra Mundial. Na altura, ela e a sua família estiveram entre os 120 mil japoneses emigrados nos Estados Unidos que foram presos em campos de detenção.
"A América estava em guerra com o Japão", sublinha Cara Manes, uma das curadoras da exposição e adjunta do Departamento de Pintura e Escultura, do MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque.
“Ela viveu esta experiência aos 16 anos e, segundo o que conta, durante esse período, que foi muito traumático, dentro desses campos as pessoas puderam reunir-se e as crianças continuaram a ter aulas. Ela recordava que pôde aprender ou ter aulas de arte com pessoas que eram artistas e desenhadores”, explica Geaninne Gutiérrez-Guimarães, do Museu Guggenheim Bilbao e outra das curadoras da exposição.
Nas salas do museu com a assinatura do arquiteto Frank Gehry o visitante encontra trabalhos em origami, pinturas, desenhos, impressões e esculturas. Muitas delas são feitas numa malha de arame e são suspensas. Foram inspiradas por uma viagem que a artista fez ao México.
Cara Manes explica que Ruth Asawa começou a usar essa técnica depois de ver nos mercados do México uns “cestos em forma de galinha para pôr os ovos”. Adaptou essa técnica da cestaria às esculturas que passou a criar.
“Não é muito normal ver uma coleção desta dimensão, por isso é espantoso ver as peças penduradas lado-a-lado”, diz mais uma vez orgulhoso o neto Henry Weverka. “A minha avó interessava-se muito pelo positivo/negativo, pelo espaço da frente e o detrás, por isso quando temos uma escultura ao lado de outra e depois de outra, isso muda a nossa perceção. É muito entusiasmante ver tudo nesta escala”, aponta.
Em vida, Ruth Asawa nunca foi uma “artista comercial”, nunca vendeu muito, diz o neto, mas nem por isso deixou de participar em exposições, chegou mesmo a ser representante dos Estados Unidos numa Bienal de Arte de São Paulo, no Brasil.
Nas paredes do Guggenheim de Bilbao estão também expostos muitos dos desenhos de flores. Por detrás destes trabalhos de desenho biológico está a paixão com o marido, o arquiteto Albert Lanier que conheceu quando estudou em Black Mountain College e com quem teve seis filhos.
Ambos cultivavam um jardim na casa que serviu de estúdio à artista. As flores desse jardim e muitas de bouquets que o marido lhe ofereceu, Ruth Asawa preservou em desenho, agora mostrados nesta exposição de Bilbao e que já esteve antes em Nova Iorque e em São Francisco.
O neto revela que comprou a casa. “Sinto-me muito sortudo por poder passar tanto tempo com o seu trabalho, como passo. Comprei a casa onde cresci, e hoje cuido dessas plantas com o meu filho de quatro anos. Quando vejo esses desenhos florais, vejo o amor e o carinho que foram dedicados ao cultivo dessas flores plantadas pelo meu avô que tinha o dom de arranjar essas flores e oferecê-las à minha avó. Depois, por sua vez, ela desenhava-las e devolvia-las a ele”, conta Henry Weverka.
Se fosse a casa dela em meados da década de 60 ela poderia dizer: 'Ei, tens um rosto interessante. Posso fazer um molde?
Organizada em conjunto pelo San Francisco Museum of Modern Art (SFMOMA) e do Museum of Modern Art, de Nova Iorque (MoMA) esta exposição junta trabalhos que vão de 1947 a 2006 e que são mostrados em 10 secções. Entre esses trabalhos, logo na entrada, está um desenho colorido, muito pequeno com a impressão dos pés de um bebé.
“Ela também cortava batatas a meio e fazia carimbos com elas, com os seus filhos, e fazia moldes das mãos e dos pés dos netos”, recorda Henry. “Se fosse a casa dela em meados da década de 60 ela poderia dizer: 'Ei, tens um rosto interessante. Posso fazer um molde?'”, diz a rir o neto da artista.
Da avó Ruth Asawa, Henry Weverka diz ter aprendido muito. “Acho que o maior presente que nos deixou, a todos, foi ter-nos ensinado a ver o mundo. Ensinou-me a tratar as pessoas. Era uma artista extraordinária. Era uma defensora incrível das artes, uma líder cívica. Não falava muito em público, mas quando o fazia, as pessoas ouviam-na porque valorizavam muito a sua opinião”, lembra.
“Ela moldou a visão sobre como ver e como me mover no mundo”, diz Henry, que reconhece que hoje é de novo difícil ser americano e viajar pelo mundo. Na sua opinião, o legado da sua avó artista deveria ser um exemplo.
“Tendo em conta o passado da minha avó, que foi presa devido à sua etnia e discriminada de tantas formas durante tanto tempo, é realmente triste ver isso a acontecer novamente”. Segundo Henry, as pessoas deveriam olhar a história da avó.
“Ela veio do nada, era aberta a exposições em galerias e foi-lhe recusada a participação em exposições, porque diziam que era uma ‘dona de casa oriental’. E, para a minha avó, isso não importava. Ela baixava a cabeça, ia trabalhar, encontrava alegria nas coisas e sem precisar de reconhecimento da crítica”, sublinha o neto.
A exposição poderá ser vista em Bilbao até 13 de setembro.



















