“Sr. Engenheiro”

"Já só nos resta rir". Musical sobre Sócrates estreia no Tivoli

31 mar, 2026 - 06:30 • João Maldonado

“Sr. Engenheiro” é propositadamente colocado entre aspas por causa de um pedido da Ordem dos Engenheiros: “Por favor, não lhe chamem engenheiro." A Renascença esteve num dos últimos ensaios do espetáculo que conta com Manuel Marques no papel de José Sócrates. O nome do antigo primeiro-ministro nunca é expressamente mencionado.

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“Já só nos resta rir”. Musical sobre Sócrates chega ao palco
Ouça a reportagem do jornalista João Maldonado

A “reeducar a voz para cantar”, como protagonista surge Manuel Marques. Para alcançar a melhor caricatura possível de José Sócrates, o ator garante ter passado horas a ver de forma minuciosa vídeos na internet. “Ainda sou do tempo em que, para fazer uma imitação, tínhamos que requisitar cassetes de vídeos. Hoje em dia, temos esse mecanismo que é o YouTube”, brinca.

Sobre da personagem que interpreta – “intrigante, mas ao mesmo tempo fascinante no pior sentido” –, entende tratar-se de uma espécie de sinédoque. Afinal, “é um bocadinho Portugal, reflete um bocadinho do desenrasque, dos esquemas de um certo Portugal”.

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A mesma ideia sublinha Rui Melo, o encenador. “Até acho que não é só sobre o Sr. Engenheiro. É sobre a portugalidade. É sobre o chico-espertismo português”, retrata depois do ensaio aberto à comunicação social a cerca de 48 horas da estreia oficial, esta terça-feira, no Teatro Tivoli, em Lisboa.

Com texto de Henrique Dias, a ação oscila entre teatro cantado e falado, entre um interrogatório do Ministério Público e todo o tempo que vai desde a infância de Sócrates até à sua prisão preventiva.

São lembrados os computadores “Magalhães”, as ligações à Venezuela de Hugo Chávez, passando pelo TGV, pelos empréstimos do melhor amigo” – referindo-se, claramente, a Carlos Santos Silva, que está sempre presente em toda a ação –, mas também pelas escutas, pelas chamadas telefónicas com os filhos, pelo livro que o antigo primeiro-ministro publicou, pelo Jornal Nacional da TVI, pelo motorista João Perna ou pela licenciatura alegadamente concluída a um domingo.

Numa hora e meia de ação, durante a qual nunca é mencionado qualquer nome completo das personagens centrais, o “pá” está continuamente a ganhar vida nas frases que são elaboradas e temas como o Freeport dão origem a canções originais – tal como as prescrições de acusações. O episódio da entrega de pizza, viral na internet em 2015, é também ilustrado com humor.

“Gosto muito dessa ideia de poder brincar com uma história que as pessoas conhecem. É uma farsa teatral, em que o público conhece a história toda, mas os atores comportam-se como se estivessem a viver a história pela primeira vez”, afirma o homem à frente da encenação deste musical.

Questionado pela Renascença sobre se temem um processo fruto de tudo o que expõem nesta obra “muito complexa”, como caracteriza Rui Melo, o encenador diz que sobre este caso “já só nos resta rir”.

Medo de um processo? "Medo, não”. Contudo, completa: "Não me surpreenderia se existisse”.

Sobre uma eventual presença do antigo líder de Governo num espetáculo, a resposta é dada entre risos: “Tenho algumas dúvidas que ele venha, mas gostava muito. Ficava muito contente com a presença dele e ia revelar muito fair-play.”

Quanto ao nome escolhido é de salientar que “Sr. Engenheiro” é propositadamente colocado entre aspas pela organização depois de um pedido da Ordem dos Engenheiros. “Recebemos um pedido da Ordem dos Engenheiros por razões que as pessoas penso que conhecem.: 'Por favor, não lhe chamem engenheiro.' E nós atendemos. Pusemos engenheiro entre aspas."

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