Cinema

Os filmes bíblicos para ver esta Páscoa

01 abr, 2026 - 15:00 • João Malheiro

Do cinema mudo à animação, de Cecil B. DeMille a Mel Gibson, as histórias da Bíblia já foram recriadas no grande ecrã de formas muito distintas. A Renascença recorda algumas destas longas-metragens.

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A semana de Páscoa é sempre uma boa altura para reunir a família à frente da televisão e ver um filme.

Há muitos clássicos do cinema que contam a história da Semana Santa e outros que, apesar de abordarem outras partes da Bíblia, também costumam ser revisitados nesta altura do ano.

A Renascença reúne alguns filmes bíblicos para rever esta Páscoa.

"Ben-Hur" (1925)

Toda a gente conhece o clássico de 1959 que adapta o romance de Lew Wallace, mas pode não estar a par que, duas décadas antes, em pleno cinema mudo, Hollywood já fazia épicos.

Judah Ben-Hur é um príncipe judeu que acaba por ser escravizado pelo romanos. Enquanto luta pela liberdade e por justiça, converte-se ao Cristianismo. O seu percurso de vida cruza-se com o de Jesus, até aos momentos finais da vida de Cristo.

Com 2h20, é um dos filmes mais ambiciosos e o mais caro deste período do cinema. A famosa corrida de carroças - que costumamos associar à versão mais moderna desta narrativa - também se encontra no filme de 1925. Gastaram-se mais de 60 mil metros de película só para gravar essa sequência.

Com centenas de figurantes e cenários impressionantes, em particular para a época, este "Ben-Hur" é um clássico que merece a sua própria distinção.

O filme foi restaurado ao longo dos anos e encontra-se disponível em edições de colecionador, quer DVD, quer Blu-Ray, do seu remake mais famoso. Em 2021, entrou em domínio público, pelo que pode ser visto, por exemplo, no Youtube.

"Ben-Hur" (1959)

Quando um jovem William Wyler, ainda em início de carreira, trabalhou como assistente de realização no "Ben-Hur" de 1925, longe estaria de imaginar que, décadas depois, seria o realizador de uma nova versão que acabaria por se tornar um dos épicos mais reconhecidos de Hollywood.

Uma empreitada ambiciosa do produtor Sam Zimbalist que esteve em risco de colapsar em mais do que uma ocasião, mas acabou por chegar a bom porto. Apesar de ser o filme mais caro da época, tornou-se um dos mais bem-sucedidos de sempre na bilheteira e arrecadou 11 Óscares - um recorde que só foi igualado por "Titanic" e o terceiro "Senhor dos Anéis", mas nunca superado.

A direção de fotografia de largo formato, os enormes cenários, o guarda-roupa detalhado e um grande elenco liderado pela prestação icónica de Charlton Heston são algumas das razões que fazem com que as pessoas voltem a rever este filme, especialmente na altura da Páscoa. Se não fizer parte da programação de algum canal televisivo português durante os próximos dias, a obra pode ser vista em formato físico ou alugado ou comprado em diferentes plataformas, como Youtube ou Prime Video.

"The King of Kings" (1927)

Outro épico da era muda, realizado por Cecil B. DeMille, com a aspiração de capturar alguns dos episódios mais marcantes da vida de Jesus, incluindo a sua morte e Ressureição. O filme inclui duas sequências a cor e tem passagens dos Evangelhos em intertítulos.

H.B. Warner, ator que assume o papel de Cristo, passou o período das rodagens em isolamento total, proibido de fazer praticamente qualquer tipo de aparição pública. Um esforço que realizador e ator acabaram por concordar que foi recompensado na interpretação final.

De resto, houve secretismo em torno de toda a produção, com o objetivo de surpreender o público quando fosse a hora de exibir o filme. A estratégia acabou por resultar numa bilheteira que valeu o dobro do orçamento das filmagens.

Por esta altura, já não era surpresa que Cecil B. DeMille fosse capaz de realizar um épico bíblico, um género de cinema que de resto ajudou a imortalizar o nome deste cineasta (vamos voltar à sua filmografia mais à frente).

Também já está disponível em domínio público e pode ser visualizado, por exemplo, no Youtube.

"O Rei dos Reis" (1961)

Dois anos após a morte de Cecil B. DeMille, a MGM decidiu avançar com um novo épico a retratar a história de Jesus Cristo, usando o nome do clássico a preto e branco.

Desta vez, é Jeffrey Hunter a fazer de Cristo, num filme que conta com a imponente voz de Orson Welles na narração. Depois do trabalho extenso que fez para "Ben-Hur", o compositor Miklós Rózsa voltou a criar música para o universo bíblico.

Vários teólogos ajudaram no processo da escrita do argumento, para garantir um retrato fiel dos Evangelhos. Em 1960, o Papa João XIII aprovou o guião final, numa reunião no Vaticano com o produtor Samuel Bronston.

"A Maior História de Todos os Tempos" (1965)

Quatro anos depois, Hollywood voltou à carga e a United Artists decidiu adaptar de novo a vida de Cristo para o grande ecrã.

A narrativa, dividida em dois atos, cobre os principais episódios do Novo Testamento, desde o nascimento de Jesus até à sua Ressurreição.

O elenco é de peso. Max von Sydow interpretou Jesus Cristo, Charlton Heston regressou aos épicos, desta vez enquanto São João Batista, Donald Pleasence assume o papel do Diabo e Sidney Poitier tem uma curta aparição como Simão de Cirene.

Apesar de não ter sido um sucesso de bilheteira, recebeu cinco nomeações para Óscar nas categorias técnicas de Direção de Arte, Direção de Fotografia, Melhor Guarda-Roupa, Melhor Banda Sonora e Melhores Efeitos Visuais.

Para além de existir em formato físico, o filme pode ser alugado ou comprado, por exemplo, no Prime Video.

"A Última Tentação de Cristo" (1988)

A obra polémica de Martin Scorsese, que estava interessado em "explorar o eterno conflito espiritual" que ele próprio já assumiu sentir enquanto católico.

Baseado no romance de Nikos Kazantzakis - ignorando em parte os Evangelhos -, numa adaptação escrita por Paul Schrader, o filme causou polémica por retratar um período da vida de Jesus em que é tentado a pecar de diversas formas. Parte da narrativa confronta Cristo com um cenário alternativo em que pode escapar à sua crucificação e morrer de velhice.

Aquando do lançamento, muitos grupos religiosos protestaram contra o filme e Martin Scorsese teve de ser protegido em público por guarda-costas durante alguns anos.

Willem Dafoe lidera um elenco de luxo que conta também com Harvey Keitel, Harry Dean Stanton, David Bowie e o próprio Martin Scorsese, num papel curto. A banda sonora ficou a cargo do músico Peter Gabriel.

O filme, que valeu a Scorsese uma nomeação ao Óscar de Melhor Realizador, pode ser comprado ou alugado no Prime Video ou na Apple TV, por exemplo.

"A Paixão de Cristo" (2004)

Mel Gibson interpreta as 12 horas finais de Jesus à sua moda, num filme ambicioso e violento, que deixou marca no início deste século.

Como faria mais tarde em "Apocalipto", o cineasta optou por descartar o inglês e gravar uma longa-metragem faladas nas línguas apropriadas ao período histórico de Cristo: o aramaico, o hebraico e o latim. Consta que Gibson até rejeitou a ideia de "A Paixão de Cristo" ser sequer exibido com legendas, mas tal não aconteceu.

Apesar do foco no sofrimento de Jesus e o retrato da comunidade judaica dividirem opiniões até hoje, havendo quem acuse Mel Gibson de antissemitismo, a verdade é que o filme foi um êxito. Até hoje, é a longa-metragem independente mais bem-sucedida na bilheteira internacional.

E pode mesmo estar na hora de rever esta obra, porque Mel Gibson prepara-se para duas sequelas, ambas com data de lançamento em 2027, com o intuito de retratar a Ressurreição de Jesus em grande detalhe. Está disponível para visualização na Netflix.

"Filho de Deus" (2014)

É um filme que nas principais datas religiosas pode sempre aparecer na programação de um dos canais generalistas, em Portugal. "Filho de Deus" é na verdade uma reedição dos episódios da série "A Bíblia" centrados em Cristo, transformados em formato de filme.

O português Diogo Morgado e a popularidade viral que a sua interpretação de Jesus adquiriu é uma das razões que levou a esta estratégia de lançamento.

Dez anos depois de "A Paixão de Cristo", esta versão é, de certa forma, o outro lado da moeda na forma de retratar Cristo, centrando-se mais nos seus milagres e na sua compaixão e reduzindo a violência explícita em torno da sua morte.

Tratando-se de uma obra feita, inicialmente, para televisão, a escala da produção é muito inferior a alguns dos épicos de Hollywood já mencionados. De qualquer forma, o filme tornou-se uma referência, tendo sido acarinhado pelo público português. Está disponível para visualização no Prime Video.

"Os Dez Mandamentos" (1923)

Não obstante a história de Moisés pertencer ao Antigo Testamento, a verdade é que é impossível negar a importância de "Os Dez Mandamentos" na história global do Cinema e, em particular, do género dos épicos bíblicos. Como uma espécie de bónus, voltamos atenções para três versões que vale a pena ver em época santa.

Como prometido, começamos com o primeiro épico religioso de Cecil B. DeMille, arrojado pelo seu uso de cor, a escala dos seus cenários e os efeitos visuais - evidentes na cena que retrata a divisão do Mar Vermelho.

No entanto, a libertação dos judeus por Moisés é apenas parte deste filme. A segunda metade centra-se numa narrativa situada na época contemporânea, que retrata os valores presentes nos Dez Mandamentos e as consequências para quem não os segue.

O filme entrou em domínio público em 2019 e está, por isso, disponível de forma gratuita no Youtube.

"Os Dez Mandamentos" (1956)

Décadas depois de filmar o seu primeiro épico bíblico, Cecil B. DeMille decidiu recriá-lo, focando-se apenas na história bíblica.

Antes de ser Ben-Hur, Charlton Heston assumiu o papel de Moisés e deu voz às manifestações de Deus no filme. Em contracena estava Yul Brynner e o seu Ramses imponente e estoico.

A Paramount levou a produção para o Egito para o cineasta poder filmar mesmo no Monte Sinai, onde Moisés recebeu os Dez Mandamentos. A longa-metragem foi filmada no formato VistaVision. Sem surpresa, "Os Dez Mandamentos" tornou-se o filme mais caro da história de Hollywood, aquando do seu lançamento.

O custo da ambição de DeMille foi rapidamente compensado pelo sucesso comercial e crítico. "Os Dez Mandamentos" é até hoje considerado um dos melhores filmes de sempre. Acabou por ser o último do cineasta, antes da sua morte, em 1959.

Poderá ser comprado ou alugado online, também no Prime Video.

"O Príncipe do Egito" (1998)

Um remake animado musical pela Dreamworks de "Os Dez Mandamentos" não é a ideia mais óbvia do mundo, mas o resultado foi brilhante.

Com uma técnica de animação tradicional capaz de recriar alguns dos momentos mais épicos desta história, um elenco que contou com Val Kilmer, Ralph Fiennes, Michelle Pfeiffer, Sandra Bullock, Patrick Stewart, Helen Mirren, entre muitos outros, e uma banda sonora composta por Hans Zimmer, o filme tornou-se um grande sucesso e é hoje visto como um dos melhores filmes de animação de sempre.

A canção original "When You Believe" tornou-se um sucesso comercial, depois de uma versão pop fruto da colaboração entre Whitney Houston e Mariah Carey. Nos Óscares do ano seguinte, a música venceu o prémio de Melhor Canção Original o que fez de "O Príncipe do Egito" o primeiro filme de animação feito por um estúdio que não a Disney a ganhar um Óscar.

Uma proposta bíblica que poderá ser mais facilmente acolhida pelos mais novos, mas que é capaz de entreter toda a família, e que está disponível na Skyshowtime.

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  • João Rodrigues
    04 abr, 2026 Lisboa 11:09
    Nem um filme biblico para ver em nenhum canal, a vergonha a que isto chegou...

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