Reportagem

Encontro de rituais ancestrais faz de Bemposta um palco vivo de identidade

16 abr, 2026 - 17:08 • Olímpia Mairos

O VI Encontro Internacional de Rituais Ancestrais transforma aldeia de Mogadouro num palco vibrante de identidade, comunidade e emoção — reunindo milhares de participantes e afirmando-se como uma referência europeia viva e em crescimento.

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Encontro de rituais ancestrais faz de Bemposta um palco vivo de identidade. Foto: Olímpia Mairos/Renascença
Encontro de rituais ancestrais faz de Bemposta um palco vivo de identidade. Foto: Olímpia Mairos/Renascença
Encontro de rituais ancestrais faz de Bemposta um palco vivo de identidade. Foto: Olímpia Mairos/Renascença
Encontro de rituais ancestrais faz de Bemposta um palco vivo de identidade. Foto: Olímpia Mairos/Renascença
Encontro de rituais ancestrais faz de Bemposta um palco vivo de identidade. Foto: Olímpia Mairos/Renascença
Encontro de rituais ancestrais faz de Bemposta um palco vivo de identidade. Foto: Olímpia Mairos/Renascença
Encontro de rituais ancestrais faz de Bemposta um palco vivo de identidade. Foto: Olímpia Mairos/Renascença
Encontro de rituais ancestrais faz de Bemposta um palco vivo de identidade. Foto: Olímpia Mairos/Renascença
Encontro de rituais ancestrais faz de Bemposta um palco vivo de identidade. Foto: Olímpia Mairos/Renascença
Encontro de rituais ancestrais faz de Bemposta um palco vivo de identidade. Foto: Olímpia Mairos/Renascença
Encontro de rituais ancestrais faz de Bemposta um palco vivo de identidade. Foto: Olímpia Mairos/Renascença
Encontro de rituais ancestrais faz de Bemposta um palco vivo de identidade. Foto: Olímpia Mairos/Renascença
Encontro de rituais ancestrais faz de Bemposta um palco vivo de identidade. Foto: Olímpia Mairos/Renascença
Encontro de rituais ancestrais faz de Bemposta um palco vivo de identidade. Foto: Olímpia Mairos/Renascença
Encontro de rituais ancestrais faz de Bemposta um palco vivo de identidade. Foto: Olímpia Mairos/Renascença
Encontro de rituais ancestrais faz de Bemposta um palco vivo de identidade. Foto: Olímpia Mairos/Renascença
Encontro de rituais ancestrais faz de Bemposta um palco vivo de identidade. Foto: Olímpia Mairos/Renascença
Encontro de rituais ancestrais faz de Bemposta um palco vivo de identidade. Foto: Olímpia Mairos/Renascença

Há acontecimentos que se descrevem. E há outros que se sentem antes mesmo de se compreenderem. O VI Encontro Internacional de Rituais Ancestrais, em Bemposta, no concelho de Mogadouro, pertence claramente à segunda categoria. Durante três dias, 17, 18 e 19, esta aldeia do concelho de Mogadouro transforma-se num território onde a memória coletiva ganha corpo — e onde a tradição deixa de ser evocada para ser plenamente vivida.

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Com mais de 70 grupos provenientes de Portugal, Espanha, Itália e Bulgária, e mais de mil participantes, o evento cresce de ano para ano, consolidando-se como um dos maiores do género na Europa. Ainda assim, como sublinha a organização, o essencial não está apenas na dimensão: “São mais de 70 grupos, são mais de mil figurantes. […] Nestes dias podemos esperar muita cultura, muita tradição, muitas danças, música, tudo o que você possa imaginar”, adianta Amélia Folgado.

Uma aldeia que se transforma — e transforma quem a visita

Bemposta, com cerca de 550 habitantes, vive uma metamorfose profunda durante o encontro. O que normalmente é um território marcado pela tranquilidade e pelo isolamento, torna-se um espaço vibrante, cheio de vida e movimento. Como descreve a presidente da Maschocalheiro – Associação de Bemposta: “São 5.000, 6.000 e nem há contabilidade.”

A pressão logística é enorme — e faz-se sentir em toda a região, conta: “O concelho de Mogadouro, o concelho de Miranda e os concelhos vizinhos estão tudo a 99% esgotados de alojamento e de refeições […] nós aqui vamos servir ao almoço, só para grupos, cerca de mil refeições, e à noite serviremos aproximadamente 1400, 1500.”

Mas mais do que números, há um impacto emocional e comunitário evidente: “Nós temos muita alegria e enche-nos o coração ver estes dias assim, cheios, ver tanta gente a chegar, a participar, a querer conhecer o que é nosso”, diz Amélia.

O desfile: intensidade, corpo e identidade

O ponto alto do encontro acontece no sábado, com o grande desfile internacional — um momento em que a aldeia se transforma num palco aberto, sem fronteiras entre quem vê e quem participa. Segundo Amélia “é um espetáculo muito vivido, não é só ver, é participar, é estar ali no meio, sentir os sons, as cores, as pessoas, tudo junto.”

As máscaras, muitas delas pesadas e de traços marcantes, carregam séculos de simbolismo. Os movimentos, os sons e os gestos compõem uma linguagem ancestral que continua viva: “É tudo muito intenso, muito sensorial […] é uma coisa que não se consegue explicar totalmente, tem de se viver”, sublinha.

Máscaras carregam séculos de simbolismo. Foto: Maschocalheiro – Associação de Bemposta
Máscaras carregam séculos de simbolismo. Foto: Maschocalheiro – Associação de Bemposta
Máscaras carregam séculos de simbolismo. Foto: Maschocalheiro – Associação de Bemposta
Máscaras carregam séculos de simbolismo. Foto: Maschocalheiro – Associação de Bemposta
Máscaras carregam séculos de simbolismo. Foto: Maschocalheiro – Associação de Bemposta
Máscaras carregam séculos de simbolismo. Foto: Maschocalheiro – Associação de Bemposta
Máscaras carregam séculos de simbolismo. Foto: Maschocalheiro – Associação de Bemposta
Máscaras carregam séculos de simbolismo. Foto: Maschocalheiro – Associação de Bemposta

Pensar a tradição: as jornadas

Há um momento em que o ritmo abranda. Depois do som dos chocalhos, da intensidade do desfile e da energia coletiva que percorre as ruas, Bemposta abre espaço para outra dimensão — mais silenciosa, mas igualmente essencial. É nesse intervalo que acontecem as Jornadas dos Rituais Ancestrais.

Não são um apêndice do evento. São, na verdade, o seu lado mais reflexivo que permite pensar e debater a tradição. Contam com a participação de nomes de relevo como o ator, escritor e investigador André Gago, a antropóloga Paula Godinho (Instituto de Historia Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa), o geógrafo e também artesão de máscaras Carlos Ferreira, o antropólogo Luís Vale (Centro de Investigação em Antropologia e Saúde, Universidade de Coimbra, e o jornalista e Javier Pérez Andrés, uma referência na comunicação da identidade e da cultura tradicional territórios de Castilla y León.

As jornadas assumem-se, por isso, como “um espaço de reflexão e diálogo entre academia, criação e território”, reunindo investigadores, artistas e especialistas que procuram compreender aquilo que, no exterior, se sente de forma quase instintiva.

O que está em causa não é apenas descrever os rituais, mas interrogá-los. Perceber o que significam hoje. Que lugar ocupam num mundo cada vez mais globalizado. E, sobretudo, que futuro podem ter.

Ao longo das sessões, fala-se de identidade, de memória, de pertença. Discute-se o papel das mascaradas enquanto linguagem cultural e enquanto ferramenta de valorização dos territórios. Como refere a organização, trata-se de propor “uma leitura contemporânea das mascaradas e dos rituais”, capaz de ligar o passado às exigências do presente.

No campo da animação, o programa destaca momentos de grande energia e envolvimento do público, com a atuação da Banda de Gaitas de Paramos (Tui, Pontevedra), referência da música tradicional galega, capaz de surpreender com outras sonoridades, e do grupo de folk rock Zingarus (Bragança), que promete uma abordagem contemporânea e vibrante às assumidas influências tradicionais.

O esforço invisível que sustenta a festa

Por trás da celebração existe uma estrutura complexa, sustentada sobretudo pela dedicação da comunidade local. “Hoje é o dia D, estamos nos últimos preparativos […] agora é mais a logística das comidas, dessas coisas assim, porque em relação aos grupos isso já está tudo organizadinho”, conta Amélia Folgado.

A dimensão do evento implica um enorme esforço humano e financeiro, diz: “Isto envolve muito dinheiro e muita mão de obra […] nós dependemos muito de voluntários, da Câmara, da Junta, porque se fôssemos pagar tudo era impossível fazermos isto aqui.”

Ainda assim, o trabalho é vivido com entusiasmo coletivo: “A aldeia fica toda num alvoroço, tudo satisfeito, só se fala nisto […] perguntam sempre como é que conseguimos fazer tanta coisa com tão pouca gente.”

Tradição, identidade e novas gerações

Um dos grandes desafios passa pela continuidade destas práticas. Num mundo em rápida transformação, a ligação das novas gerações à tradição nem sempre é garantida, mas em Bemposta parece estar assegurada.

“Nós tentamos incutir nos nossos filhos, para eles se enraizarem, para não se perder isto que é nosso”, diz Amélia, sublinhando que apesar das dificuldades, há sinais encorajadores: “estamos a conseguir, porque os jovens estão a aproximar-se, estão a querer fazer parte, a entrar para a associação […] e isso é um bom sinal.”

Aqui, a tradição não é apenas herança — é construção ativa e contínua.

O ritual exige esforço físico, anonimato e devoção. Foto: Maschocalheiro – Associação de Bemposta
O ritual exige esforço físico, anonimato e devoção. Foto: Maschocalheiro – Associação de Bemposta
O ritual exige esforço físico, anonimato e devoção. Foto: Maschocalheiro – Associação de Bemposta
O ritual exige esforço físico, anonimato e devoção. Foto: Maschocalheiro – Associação de Bemposta
O ritual exige esforço físico, anonimato e devoção. Foto: Maschocalheiro – Associação de Bemposta
O ritual exige esforço físico, anonimato e devoção. Foto: Maschocalheiro – Associação de Bemposta
O ritual exige esforço físico, anonimato e devoção. Foto: Maschocalheiro – Associação de Bemposta
O ritual exige esforço físico, anonimato e devoção. Foto: Maschocalheiro – Associação de Bemposta

O chocalheiro: um ritual de promessa, sacrifício e comunidade

No coração da identidade de Bemposta está o chocalheiro, uma figura central, profundamente simbólica e carregada de memória coletiva. “O chocalheiro de Bemposta é um ritual que nunca se perdeu […] vem dos nossos pais, dos nossos avós, dos bisavós, nós nem temos datas de quando começou”, conta Amélia.

O ritual do chocalheiro constitui um dos momentos mais marcantes da vida da aldeia, reunindo em si significado religioso, esforço físico e uma intensa emoção partilhada. Mais do que um ritual, é um ato de entrega individual que se transforma numa experiência coletiva, onde fé, tradição e comunidade se entrelaçam e ganham vida.

Segundo Amélia Folgado, “no dia 26 de dezembro, pelas primeiras horas da manhã — por volta das oito — sai à rua o chamado chocalheiro manso”. Envolto no frio e, muitas vezes, no nevoeiro típico da época, percorre as ruas da aldeia trajado a rigor. A máscara que enverga é pesada, limita-lhe a visão e exige resistência, razão pela qual nunca caminha sozinho: é sempre acompanhado por um guia, figura essencial que o orienta ao longo de todo o percurso”.

“De porta em porta, o chocalheiro pede esmola, correndo e fazendo a 'avénia' em sinal de agradecimento a quem contribui. No final, tudo o que é recolhido é entregue a Nossa Senhora das Neves, num gesto que reforça a dimensão devocional e comunitária do ritual”, prossegue.

Já o chocalheiro bravo, que sai no dia 1 de dezembro, segue um ritual semelhante, mas com maior intensidade e uma máscara distinta. “Na noite anterior tem lugar um momento determinante: o leilão das 'mandas'. É aí que se decide quem assumirá a responsabilidade — e a promessa — de desempenhar o papel. O leilão prolonga-se até à meia-noite, sendo o último lance, ao soar das doze badaladas, aquele que determina quem 'vai apanhar a esmola'”, descreve.

Mais do que uma simples encenação, este ritual carrega uma forte dimensão simbólica. Associado à figura do diabo — que, segundo a tradição, vagueava pelo mundo tentando afastar as pessoas do caminho da fé — o chocalheiro representa também a sua própria humilhação. Como castigo, é condenado a percorrer a aldeia pedindo esmola e a entregá-la à Virgem.

Contudo, “esta humilhação é, na verdade, uma promessa. São frequentemente pessoas que enfrentaram dificuldades ou fizeram pedidos que, ao serem atendidos, assumem este compromisso como forma de agradecimento. Ainda assim, o anonimato é essencial: quem veste o traje não deve ser reconhecido. Ao longo do percurso, multiplicam-se os palpites entre a população — alguns acertam, outros não”, conta a presidente da Associação de Bemposta.

“O momento mais intenso chega no final. Quando o chocalheiro conclui o percurso e chega ao local habitual, uma multidão reúne-se à sua volta, acompanhando-o até ao desfecho. A máscara é finalmente levantada, revelando a identidade até então escondida. Seguem-se aplausos, abraços e, muitas vezes, lágrimas — expressão de alívio, devoção e do cumprimento de uma promessa profundamente sentida”, completa.

Um território que resiste à desertificação

Bemposta afirma-se também como um exemplo de resistência num território marcado pela perda populacional. “Somos um canto bastante desertificado […] mas conseguimos trazer bastante gente, turistas, pessoas que vêm dormir cá, participar, mexer com a economia”, assegura.

O impacto social é visível, garante: “Os imigrantes que estão no estrangeiro deixaram de vir na Páscoa para virem agora […] para se encontrarem aqui nestes dias.

A tradição transforma-se, assim, num ponto de reencontro — com a terra, com as raízes e com a comunidade.

Uma internacionalização construída pela experiência

O crescimento internacional do evento não resulta de campanhas massivas, mas da experiência vivida por quem participa. Segundo Amélia, “eles vêm a primeira vez e querem voltar sempre […] e depois fazem publicidade nos países deles”.

Há também um reconhecimento espontâneo: “Há outros que se convidam, que ligam a dizer que gostavam de participar no encontro”, acrescenta.

Esse dinamismo reforça a ambição da organização: “O objetivo é continuar a crescer, trazer mais grupos, mais países, e afirmar Bemposta como uma referência europeia.”

Entre cultura e paisagem: Um convite aberto

O encontro estende-se à natureza envolvente, criando uma experiência que liga cultura e território: “Temos o passeio da Faia da Água […] com aquela cascata de 60 metros, que é considerada a maior da Península Ibérica.”

A paisagem torna-se parte integrante do evento: “Nesta época o contraste das cores da natureza, o verde com as flores brancas, amarelas, azuis, roxas, de todas as cores, é uma beleza mesmo de aproveitar.

No final, tudo converge numa ideia simples, mas poderosa aqui expressa por Amélia Folgado: “Se quiserem mergulhar num grupo, num enorme banho de cultura […] é chegarem a Bemposta.”

E talvez seja essa autenticidade — essa intensidade difícil de traduzir — que deixa marca em quem participa: “Quem vem uma vez quer voltar.”

Num mundo cada vez mais homogéneo, Bemposta afirma-se, assim, como um lugar singular — onde a tradição não é apenas preservada, mas vivida com uma força rara.

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