Michael Jackson
Entre a lei do dólar e a liberdade para criar. "Michael" nos cinemas para contar a história do "rei da pop"
22 abr, 2026 - 06:00 • Inês Braga Sampaio
O filme biográfico sobre Michael Jackson relata os primeiros anos da carreira do cantor até se tornar a maior estrela global da música. A Renascença falou com um super fã e um crítico sobre o filme e sobre o apelo dos "biopics" musicais.
"Michael" , filme biográfico sobre Michael Jackson, chegou às salas de cinema na quarta-feira.
"Michael" retrata o início de carreira do "Rei da Pop", desde o início, nos Jackson 5, até se tornar um ídolo à escala global. Pelo caminho, ficam clipes e clipes de gravações por usar, depois de o filme ter tido de "ir à faca" para que fossem removidas várias cenas.
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Delfim Miranda é o fundador do Clube de Fãs Michael Jackson Portugal, um portal que já coordena desde 1996. É também cantor e faz atuações de tributo ao seu ídolo, o que lhe deu a oportunidade de ir a Berlim, à exclusiva antestreia europeia de "Michael".
Em entrevista ao "Watch Party", o podcast de cinema e séries da Renascença, Delfim admite que é "suspeito", por ser "um super fã", mas não esconde que "adorou" o filme.
"Eu daria cinco estrelas, porque acho que o filme está muito bem feito. Está muito bem montado e conta a história de Michael Jackson, especialmente os primeiros anos da carreira dele, de uma forma bastante emotiva", diz.
A obra segue a escalada de Michael Jackson até se tornar a maior estrela mundial da música. Conta histórias bem conhecidas, outras menos conhecidas, a começar pela forma como o pai, Joe Jackson (Colman Domingo), tentou limitar a sua criatividade, porque a família é que era "a marca".
Delfim conta que se emocionou ao ver o filme, "porque está realmente feito para fãs".
"Mas também está feito para o público geral perceber bem a história. E tem partes bastante emotivas e também partes cómicas, em que nós acabamos por quase rir e chorar com o filme. Porque percebemos que é uma história de vida, também, além da do músico genial que ele era e da forma como chegou ao sucesso. Isso é retratado no filme. Agora, tem um pequeno senão: é que nós queríamos mais", atira, com uma gargalhada.
O filme foi feito com o apoio da família e dos executores do espólio de Michael Jackson. O cantor é interpretado pelo sobrinho Jaafar Jackson, que se "esforça bastante e faz os números de dança muito bem executados". Delfim Miranda aprova a escolha.
"Eu penso que ele foi escolhido principalmente pelo olhar. Tem os olhos muito parecidos aos do tio e o olhar é muito importante neste filme porque, quando há determinadas cenas que requerem um bocadinho mais de emoção e eles fazem aquele 'close-up' nos olhos, aí parece quase o olhar do Michael", explica.
De Joana D'Arc a Oppenheimer
A história de amor entre o cinema e os "biopics" vai longa. Joana D'Arc foi a primeira figura histórica a ser retratada num filme biográfico, numa obra do visionário francês George Méliès, em 1900.
É frequente estas fitas resultarem em Óscares para os intérpretes: por exemplo, James Cagney (George M. Cohan em "Yankee Doodle Dandy"), Michael J. Fox (Ray Charles em "Ray"), Marion Cotillard (Édith Piaf em "La Vie en Rose"), Daniel Day-Lewis (Abraham Lincoln em "Lincoln"), Charlize Theron (Aileen Wuornos em "Monster") e, mais recentemente, Cillian Murphy (J. Robert Oppenheimer, o "pai da bomba atómica", em "Oppenheimer").
"Têm-se multiplicado os 'biopictures' nos últimos anos, é uma aposta da Hollywood, claramente", confirma o crítico Luís Mendonça, colaborador da Cinemateca Portuguesa e do portal "À Pala de Walsh".
Na perspetiva de Mendonça, este é um género que se "divide um bocadinho nas propostas que têm surgido, entre aquelas que vão mais no sentido de serem meros veículos de propaganda dessas personalidades, no sentido de as vender ou revender, e outros que procuram aceder aos lados menos simpáticos das vidas dessas personalidades".
"Hoje em dia, o cinema gira muito, ou continua a girar, porque também não é uma coisa tão recente quanto isso, em torno de interpretações maiores que a vida, espetaculares, ultra concentradas, digamos assim. Atores que se superam na sua máscara. E isso também torna estes 'biopics' tentadores para a indústria e apetecíveis para o grande público", sugere.
Que o digam os fãs de Michael Jackson.
Há diferentes "eras" para os fãs, uma expressão que voltou a celebrizar-se recentemente a propósito de Taylor Swift, durante o "Eras Tour". Delfim Miranda juntou-se em definitivo à legião de fãs de Michael Jackson depois de ver o concerto do cantor no intervalo do Super Bowl de 1993, que "mudou a história".
O espetáculo não aparece no "biopic", que termina em 1988, mas o português tem uma "leve esperança de que, eventualmente, se este filme tiver sucesso, depois venha uma sequela".
Casos ficaram fora do filme
Foi também em 1993 que Michael Jackson atravessou um dos momentos mais duros da carreira.
Foi no dia 24 de agosto, quando o cantor se preparava para começar a última ronda de concertos do tour "Dangerous", que vieram à luz as alegações do pai de Jordan Chandler, que na altura tinha 13 anos de idade. Evan Chandler acusava Jackson de ter abusado sexualmente do filho.
O caso ficaria resolvido fora dos tribunais, com um acordo entre as partes. Michael Jackson pagou cerca de 23 milhões de dólares à família Chandler (incluindo cinco milhões para o advogado).
"Michael" ia, segundo a revista norte-americana "Variety", representar esse período complicado da vida de Jackson. Porém, os executores do espólio do cantor aperceberam-se, já com a produção do filme em fase avançada, de que o acordo proibia qualquer referência verbal ou visual a Jordan Chandler em qualquer obra cinematográfica.
Rancho de Michael Jackson, Neverland, vendido por 18 milhões
Propriedade foi alvo de buscas em 2003, quando o "(...)
De qualquer modo, Delfim Miranda considera que, "da história que o filme mostra, não faria sentido" incluir o processo. Houve uma segunda leva de alegações, em 2005, e esse caso foi mesmo a tribunal: "People v. Jackson".
"Eu assisti a esse julgamento, foi bastante exaustivo. Foram cerca de sete meses de idas diárias a tribunal e nós tínhamos acesso às transcrições do julgamento. E o que passou cá para fora, dessas transcrições, é que as alegações eram completamente absurdas e que aquelas pessoas simplesmente estavam à caça de muitos milhares de dólares", avalia Delfim Miranda.
Dessa vez, era Gavin Arvizo, com 15 anos à data do julgamento, a denunciar o cantor por alegados abusos sexuais. Michael Jackson foi considerado inocente de todas as acusações.
Delfim acredita que, caso haja um segundo filme, este segundo caso poderá ter tempo de antena: "O filme é bastante consistente. Penso que algumas filmagens possam passar por um eventual segundo filme. Estou a torcer por isso."
A culpa é de Johnny Cash
Luís Mendonça ainda não viu "Michael", mas já viu muitos "biopics", não só musicais. Na entrevista à Renascença, fala de vários: "The Rose", o filme sobre o ciclo de autodestruição até à morte de Janis Joplin (que não o é oficialmente, porque a família da artista cortou laços à última hora); "J. Edgar", "Bird" e "Invictus", todos realizados por Clint Eastwood; "Last Days", um retrato inspirado nos últimos dias de vida de Kurt Cobain.
O colaborador da Cinemateca atribui a responsabilidade "pelo salto deste subgénero", o "biopic" musical, que estava um pouco adormecido nos anos 80 e 90, a "Walk the Line", um filme de James Mangold, de 2005, sobre Johnny Cash e June Carter, que valeu o Óscar de Melhor Atriz a Reese Witherspoon. Além de ter colhido elogios da crítica, foi um sucesso de bilheteira.
"Estes filmes assinalam a verificação de que estas personalidades são muito potentes corpos históricos, que dizem muito sobre os nossos tempos, os nossos dias. E através delas projetam-se inúmeros conflitos, inúmeras angústias e os sonhos, também, do homem e da mulher do século XXI", sustenta.
Também por isso, quando algo relevante é omitido, seja por vontade própria dos cineastas ou por obrigação, fica "aquela sensação do elefante na sala", reconhece Luís Mendonça.
"É um bocadinho onde a arte e o mercado entram em choque, digamos assim. Muitas vezes, estes filmes já surgem higienizados, precavendo qualquer reação negativa do próprio mercado. Não estão necessariamente tão preocupados com os implicados em eventuais episódios menos recomendáveis", sustenta, defendendo que "é preciso salvaguardar a liberdade do criador face à criatura".
Ainda assim, Mendonça também defende a ambiguidade e a dúvida como "exercício de coragem e de liberdade artísticas": "A ideia de que os 'biopics' vão esclarecer também me parece errada. Não é pelo facto de esconderem determinados aspetos da vida daquela personalidade que venderam a alma ao Diabo, que neste caso é o dólar."
"Michael Jackson é uma personalidade complexa. Não é só o cinema a filmar o Michael Jackson, é o cinema a descobrir o cinema do Michael Jackson, não é? Como é que este Michael Jackson foi realizador do seu tempo? Acho que isso é a força. Não é necessariamente dar concessões, nem é necessariamente condenar alguém. É no entre que está, muitas vezes, a complexidade e o fascínio que estas personalidades exercem. Na observação", argumenta.
Sequela à vista?
No caso de "Michael", um eventual segundo filme pode responder a muitas questões. A sua existência dependerá muito das receitas de bilheteira e, para já, a previsão é muito favorável: as projeções iniciais apontam para a melhor semana de estreia de sempre para um "biopic" musical.
Quem estará a torcer por isso é Delfim Miranda, até para poder ver a recriação do concerto do Super Bowl que, em 1993, o tornou um fã de Michael Jackson. Por agora, contudo, está satisfeito com o resultado do primeiro filme.
"É uma história que é pacífica, que não é chocante. As pessoas saem bem dispostas do cinema, sejam fãs ou não sejam fãs. A música é eletrizante, o filme tem uma 'vibe' positiva e eu penso que é um filme não para ficarmos indignados, mas sim para ficarmos satisfeitos com a forma como é apresentada a história", finaliza.
"Michael", que conta, além de Jaafar Jackson, com atores como Colman Domingo, Nia Long, Kat Graham e Miles Teller no elenco, já está nas salas de cinema.










