Música

Miles Davis. Nasceu há 100 anos um "visionário" que é "intrínseco" a qualquer artista de jazz

26 mai, 2026 - 08:00 • João Malheiro

Obra do músico esteve sempre em constante evolução entre os anos 40 e os anos 90, antecipando-se às tendências do grande público. Gileno Santana recorda, à Renascença, um dos artistas mais influentes da história do jazz.

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Miles Dewey Davis III nasceu a 26 de maio de 1926, em Alton, uma cidade do estado norte-americano de Illinois. Filho de pai dentista e mãe violinista, este jovem cresceu numa boa família que cedo lhe despertou o gosto pela música.

100 anos depois, Miles Davis é hoje uma das figuras incontornáveis do jazz, deixando para trás uma vasta obra discográfica que vai desde os anos 40 até aos 90. Ao longo das décadas, a sua música esteve em constante evolução, "sempre um passo à frente" em relação ao que era a vontade do grande público, como explica à Renascença o trompetista Gileno Santana.

"Ele estava sempre atual. O bebop nos ano 40, o período modal dos anos 50, o jazz eletrónico e a fusão dos anos 60 e 70 ou o hip-hop dos anos 90" que levaram a discos "completamente diferentes", mas que eram sempre tops de venda.

"É isso que é fascinante no Miles Davis. Como ele sempre acertava", refere o também professor de música, que, por tudo isto, resume Miles Davis na palavra "visionário".

Ao longo da carreira, o artista procurava sempre reunir os melhores músicos que representavam "escolas e mundos diferentes" e dar-lhes liberdade para serem espontâneos e criativos, dentro da linha matriz que Miles Davis definia para os seus álbuns.

Gileno Satana explica que Miles Davis tinha preferências claras e uma "profunda identidade musical", contudo "não era autoritário".

"Muita gente confunde a personalidade sisuda do Miles Davis e pensa que era uma pessoa antipática. Ele não era uma pessoa antipática, era uma pessoa pragmática", caracteriza.

A verdade é que, apesar de ter crescido numa família com posses, o que lhe permitiu ter acesso a uma boa educação, a vida de Miles Davis foi marcada por vários problemas. Abusou do álcool e de drogas, sofreu de racismo e também agredia e abusava fisicamente das mulheres que teve.

Uma vida pessoal conturbada que, segundo Gileno Santana, encontrava na música "a cura" para tudo. "A música só sobreviveu estes cem anos, por conta da verdade que existia dentro dela", reflete.

Em artistas com uma obra tão vasta, não é fácil para novos ouvintes encontrarem uma casa de partida para explorar a discografia. Para Gileno Santana, quem procura ir à descoberta de Miles Davis deve começar por "Kind of Blue", o "maior álbum da história do jazz".

"«O Kind of Blue» devia ter sido uma coisa que afinal transformou-se em outra. São cinco temas de fácil audição", considera.

Depois, o ideal é explorar os vários períodos de Miles Davis. As gravações com o Charlie Parker, nos anos 40, em que o bebop "foi a grande revolução musical nos Estados Unidos", os quintetos em "Cookin'" e no "'Round About Midnight", o "Birth of the Cool", um disco "bastante particular que vai em contracorrente com o que existia na altura".

"Depois, passava pela fase mais experimental do Miles, como no «Bitches Brew». O «Tutu», um disco icónico em que passa para o hip-hop. E, para terminar, ficava com «Doo-Bop», um disco póstumo", aponta.

Este especialista recomenda, ainda, "You're Under Arrest", um disco de covers de canções pop, lançado no final dos anos 80, que conta com reinterpretações de temas como "Human Nature", de Michael Jackson e "Time After Time", de Cyndi Lauper, que revela esta constante atenção às tendências de Miles Davis.

De todas estas recomendações, Gileno Santana volta ao "Kind of Blue" esta terça-feira, num espetáculo que vai celebrar os 100 anos de Miles Davis no Conservatório de Música do Porto. O objetivo é fazer com que os espectadores sintam que estão a ouvir o icónico disco em palco, tal como ele é na gravação.

"É como se o público carregasse no play e ouvisse ali, em tempo real, o maior álbum de todos os tempos da história do jazz. Foi por isso que escolhi a mesma formação e os músicos que me acompanham", conta.

A principal exigência de Gileno Santana para os artistas que o acompanham em palco para honrar Miles Davis é que se inspirem no icónico músico e um "conhecimento profundo de todos os períodos" da sua carreira. Algo que não é difícil, já que "todos vão beber da fonte, têm a influência do Miles Davis".

"Para um músico de jazz, é impossível não se passar pelo Miles. Não se consegue. É a mesma coisa que alguém estudar música clássica e não saber quem foi Mozart, Bach ou Beethoven", esclarece.

"É quase intrínseco. Qualquer músico de jazz tem esse conhecimento, porque faz parte da história", acrescenta.

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