Cinema português
"Pai Nosso": o filme sobre os dias de Salazar depois de cair da cadeira
28 mai, 2026 - 06:30 • Maria João Costa
Estreia esta quinta-feira o filme do realizador José Filipe Costa sobre a vida de Salazar depois de cair da cadeira, em 1968. Com base no diário do médico, o cineasta filma a farsa em que Salazar viveu os últimos dias, pensando que ainda era presidente do Conselho.
A data de estreia, 28 de maio, não é um acaso. “Pai Nosso – os últimos dias de Salazar”, de José Filipe Costa, chega aos cinemas, esta quinta-feira, para assinalar o centenário da revolução de 1926, que instaurou a ditadura militar e conduziu Salazar ao poder.
O filme, que estreou no Festival de Roterdão, ja recebeu prémios de Melhor Ficção, Melhor Caracterização e Melhor Interpretação para Catarina Avelar. É uma longa-metragem que retrata os últimos anos de vida de António de Oliveira Salazar.
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Em entrevista ao Ensaio Geral, da Renascença, o realizador explica que trabalhou sobre uma história que “não é assim tão conhecida”.
Para filmar o que aconteceu ao ditador português depois de 3 de agosto de 1968 – o dia em que caiu da cadeira, durante umas férias no Forte de Santo António do Estoril – o cineasta socorreu-se dos diários do médico de Salazar.
“Há a ideia de que Salazar caiu da cadeira e pronto, acabou ali a sua vida e, não. Ele ainda viveu mais quase dois anos. O contacto com o diário do médico pessoal do Salazar, que foi publicado depois do 25 de Abril, ajudou a perceber que de alguma maneira Salazar foi 'sequestrado' dentro do próprio Palácio de São Bento, ou seja, foi o fascismo sequestrar-se a si próprio”, diz Costa.
No filme, Salazar surge doente, sempre rodeado da governanta, Maria de Jesus, de outras três criadas, do médico e do enfermeiro. Mas há sempre duas figuras vigilantes a acompanharem os dias de Salazar. Esses elementos da PIDE são aquilo a que José Filipe Costa diz ser o sistema a virar-se contra o seu criador.
Até à sua morte, em julho de 1970, Salazar vê a sua saúde ir definhando e é personagem principal de uma das maiores encenações de poder da História. O filme mostra como Salazar foi mantido nessa farsa, reunindo no Palácio de São Bento com ministros. Em toda essa encenação a governanta teve um papel central.
“É uma história que oferece muitos dilemas e muitos paradoxos às personagens. Como é que elas lidam com a situação e com a mentira. Sendo católicas têm aquele mandamento ‘não mentirás’ e, portanto, sobretudo a governanta Maria de Jesus, tem de mentir e incorporar essa mentira no dia-a-dia durante dois anos.”
Mas o filme vai mais longe. Com base nos relatórios médicos são mostrados momentos em que Salazar sofre alucinações. Essa foi uma opção estética que José Filipe Costa quis introduzir no filme para desmascarar a história.
Assumindo que optou por um título “provocador”, José Filipe Costa conta neste filme com produção de Uma Pedra no Sapato e distribuição da Nos Audiovisuais, com o ator Jorge Mota no papel do ditador português e Catarina Avelar no papel da governanta, uma interpretação que lhe mereceu o Prémio de Melhor Interpretação no Festival Caminhos do Cinema Português.
Trabalhar com Catarina Avelar foi uma boa experiência para a atriz Cleia Almeida. Sendo de outra geração, encarna o papel de uma das criadas de Salazar. Ao Ensaio Geral, da Renascença recorda como sentiu que ela e as outras atrizes apoiaram “muito a personagem da Maria”.
“Nós, no fundo, éramos três apoios da Maria, nesta farsa. Somos meninas que eram trazidas de ‘lá de cima’, com muito poucos estudos ou nenhuns. Fomos colocadas ali naquela casa para servir o patrão e tudo era à volta do patrão. Quando Salazar cai da cadeira, somos forçadas, porque para nós não há hipótese nenhuma de fugir, às ordens da Maria de Jesus. Somos forçadas a fazer parte daquela peça de teatro que para nós é muito divertida”, explica.
“Pai Nosso – os últimos dias de Salazar” é, segundo José Filipe Costa, um filme necessário ao Portugal de hoje. O cineasta considera que se mantém a ideia de Salazar como “figura paternal” que, na opinião do Costa “é fantasmagórica”.
“É um fantasma que ainda aí está e, sobretudo, agora sente-se esse regresso desse fantasma, dessa figura que ultimamente foi muito falada de uma maneira até mitificada. Há todo um lado de Salazar, que, apesar da modéstia que ele sempre quis exibir, não o é. Ele foi responsável pela montagem de um aparelho repressor que durou muitos anos, com a Censura e a PIDE”, aponta.
José Filipe Costa destaca também as ideias que Salazar defendia sobre a condição feminina. “A mulher era colocada num papel de submissão ao marido”, sublinha dando como exemplo a relação com a governanta. “É paternalista em relação à Maria, mas ao mesmo tempo, a Maria está sempre no seu lugar e conhece o seu lugar. É uma coisa muito do fascismo e da ditadura”, remata.









