Entrevista Renascença
"Perdi o meu editor", diz Siri Hustvedt sobre a morte do marido Paul Auster
05 jun, 2026 - 20:12 • Maria João Costa
“Fantasmas – Um Livro de Memórias” revela o lado mais desconhecido do escritor Paul Auster. A sua mulher, a autora Siri Hustvedt sentiu necessidade de o escrever, depois da morte do marido que quis morrer em casa, na biblioteca.
Os últimos escritos de Paul Auster foram para o seu neto, Miles, que ainda não tem idade para os ler, mas os leitores do livro “Fantasmas – Um livro de Memórias” (ed. D. Quixote) de Siri Hustvedt vão ter o privilégio de os conhecer.
Para lidar com o luto e sentir que “está viva”, a escritora de origem nórdica e viúva de Auster sentiu necessidade de escrever o livro que agora foi traduzido para português por Tânia Ganho.
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Nas quase 300 páginas de “Fantasmas”, o leitor vai encontrar pormenores, alguns muito íntimos sobre a vida do autor de “A Trilogia de Nova Iorque”. Mas conhece também detalhes sobre a vida do escritor que perdeu uma neta e um filho e que preparou a sua própria morte.
Em entrevista à Renascença, de passagem por Lisboa, a autora Siri Hustvedt explica que perder o marido foi perder “o seu editor”, já que era ele quem lia primeiro os seus livros. Agora, e depois de “Fantasmas”, pensa voltar ao romance, mas ainda sente o aroma do cheiro das suas cigarrilhas.
“Fantasmas – Um livro de Memórias” é um livro que sentiu necessidade de escrever depois da morte de Paul Auster em abril de 2024?
Comecei a escrever o livro logo após a morte do meu marido, Paul Auster. Tenho um romance a meio que sei que o Paul acreditava que eu voltaria a escrever. Mas, após a sua morte, senti uma necessidade imperiosa de escrever.
No entanto, sabia que a única coisa sobre a qual poderia escrever era a sua doença, a sua morte, o meu luto e algo sobre os 43 anos que passámos juntos.
Foi a sua forma de lidar com a dor e o luto?
Acho que foi uma forma de me manter ativa no luto, porque o luto parece uma realidade do passado. O luto recai sobre nós. E para ultrapassar isso, e dar sentido à minha fragmentação, o livro foi uma necessidade.
Escreve no livro: “Estou a chorar a morte do Paul, mas, a maior parte do tempo, estou a chorar o fim da Siri e do Paul.” No fundo, mais do que o luto do seu marido, é o luto do casal que foram que sentiu?
Sim, tenho vindo a trabalhar nessa ideia, sobre o que significa este “entre-espaço”. Enquanto escrevia o livro, deparei-me com o pensamento de que, sim, o que me falta é o “e”.
Não é simplesmente sentir a falta do Paul. É realmente o “nós”, os dois, e o que as duas pessoas construíram entre si ao longo do um período de tempo, e isso mudou.
O leitor encontra nas páginas deste livro essa mudança. Conta como se conheceram, como a vossa relação começou de forma atribulada. Mas percebemos como existiam como dupla, com a família que criaram. Nem sempre foi fácil esse caminho de crescimento juntos?
Bem, mais uma vez, acho que não se pode atribuir isso apenas às duas pessoas. Acho que estamos tão habituados, na nossa cultura, a pensar no eu, como algo isolado e cultivado. Esquecemo-nos de que o que acontece é entre as pessoas e não dentro de cada uma delas.
Eu tinha 26 anos quando conheci o Paul. O Paul tinha 34. E, obviamente, quando ele morreu aos 77, eu tinha 69. Já não éramos as mesmas pessoas. E, a certa altura do livro, digo que não sinto saudades do jovem Paul, por mais elegante que fosse — e ele era!
Sinto saudades do homem mais velho. Isso deve-se àquela realidade dinâmica e mutável entre nós, através da qual nos adaptámos às mudanças um do outro, mas também às mudanças que ocorrem entre nós.
Ainda sente, ainda cheira os cigarros dele de que fala no livro?
Não são bem cigarros, ele fumava cigarrilhas que tinham um cheiro muito especial. Em junho, depois de ele ter falecido, senti um cheiro desses charutos. E pensei: bem, alguém deve estar a fumar lá fora, junto ao meu escritório.
Na casa onde moro, em Brooklyn, pensei se seria a vizinha. Fui à janela. Olhei para fora e nada, nenhum fumador. Depois começou a acontecer muitas vezes. Quer dizer, às vezes seis, sete, oito vezes por dia.
Agora, já não me acontece com tanta frequência. Mas, na verdade, quando estive em Madrid, senti o cheiro. Apesar de não acreditar que o fantasma do Paul estivesse lá a fumar, achei isso extremamente reconfortante. E espero que não desapareça.
Ao ler o seu livro ficamos a conhecer outra faceta da sua vida e da personalidade de Paul Auster. Acha que isso pode vir a influenciar a forma como os leitores leem os livros do seu marido?
Não sei se isto irá alterar a leitura de Paul. Há muitos estudiosos que o têm vindo a investigar. Tenho a certeza de que o livro será tido em conta. Mas duvido que irá alterar fundamentalmente as leituras.
Divertimo-nos imenso e sinto falta disso
Já voltou aos seus romances?
Vou recomeçar, do início. A história é essencialmente a mesma, e quero escrever esse livro. Mas também percebo que sou uma pessoa diferente.
Devo dizer-lhe que também há estudiosos a trabalhar na minha obra, portanto, apesar de ele estar morto, e de me acontecer muito ser “a esposa de”… eu sou, acima de tudo, também uma escritora.
Em “Fantasmas” conta como trabalhavam, como liam os livros um do outro. Quão diferente será agora?
Bem, lamento ter perdido “o meu editor”. Se fosse eu que tivesse morrido, o Paul também teria perdido “o seu editor”. Por isso, é triste.
Ao mesmo tempo, estou muito orgulhosa deste livro. É uma obra de arte. Não foi escrito como se as emoções se derramassem na página. É uma obra de arte cuidadosamente construída. Por isso, sinto falta da contribuição do Paul. Mas, obviamente, vou continuar a escrever.
Explica-nos como ele preparou a sua morte. Foi difícil para si perceber que ele se estava a preparar?
Não, preparámo-nos juntos. Ele tinha os seus desejos, e não houve um único segundo em que eu tivesse o mais leve pensamento de alterar esses desejos, de alguma forma.
Sabíamos que ele estava a morrer. E só para enfatizar isto, o Paul e eu falávamos muito sobre a morte, muito antes de termos a certeza de que ele estava a morrer
Ele disse-me, e isto está no livro: “Quero morrer na biblioteca. Quero que coloquem uma cama de hospital lá dentro, se eu não conseguir dormir na nossa cama.”
Ele adorava a luz daquela sala e os livros. Por isso, nunca houve qualquer dúvida quanto a isso. Por estranho que pareça, por mais que temesse a sua morte, nunca senti qualquer apreensão em fazê-lo exatamente como ele queria.
Agora está em paz?
Não estou em paz. Quer dizer, isso é um clichê cultural que se usa para quem está de luto. É como quando dizem: “Ah, tens as tuas memórias.” Não. Eu estou a trabalhar nisso!
Estou viva e tenciono continuar assim. Mas isso não significa que tenha deixado de estar de luto, ou que não sinta falta da pessoa com quem passei todos aqueles anos. Como lhe disse, quando ele estava a morrer: “Divertimo-nos imenso e sinto falta disso.”








