Reportagem
"Faço 250 km todos os dias para trabalhar com alegria". Psicólogos e assistentes sociais reforçam Santa Maria com apoio privado
12 mar, 2026 - 10:17 • Ângela Roque
Criada ao abrigo do Programa Humaniza, da Fundação La Caixa, em sete anos a Equipa de Apoio Psicossocial da Unidade Local de Saúde de Santa Maria já acompanhou quase 54 mil doentes e respetivas famílias.A Renascença foi conhecer melhor esta equipa de assistentes sociais e psicólogos, todos com formação em paliativos, que garantem um acompanhamento mais próximo, disponível e integral a quem sofre de doenças avançadas, sem descurar a dimensão espiritual e religiosa.
"Faço 250 quilómetros para vir trabalhar todos os dias, mas com uma grande alegria". Residente em Vila Nova da Barquinha, a assistente social Cátia Homem diz à Renascença que é "a caçula" da Equipa de Apoio Psicossocial (EAPS) que, desde 2019, complementa a Unidade Local de Saúde (ULS) de Santa Maria. Há cinco meses na EAPS, Cátia já não se imagina a trabalhar noutro sítio.
"Foi um desafio emocional, um desafio profissional, um desafio familiar. Se não tivesse a retaguarda que tenho, não era capaz de o fazer. Mas, esta equipa veio-me dar alento para gostar cada vez mais daquilo que faço", conta com entusiasmo. Trabalhar com quem sofre de doenças avançadas não é fácil, mas é o que quer fazer.
Olhar cada pessoa para além da sua doença é o objetivo central do projeto que abraçou e que foi criado com apoio privado com o intuito de melhorar a qualidade de vida dos doentes. Desde que integrou aquele hospital, a EAPS já auxiliou quase 54 mil doentes e respetivas famílias, garantindo acompanhamento mais próximo, disponível e integral dos doentes, sem descurar a dimensão espiritual e religiosa.
"Muitas vezes perguntam-me: 'como é que consegues trabalhar com paliativos?'. Mas, no dia em que eu deixar de me emocionar com as histórias dos outros, já não vale a pena estarmos nesta área", afirma Cátia, que na EAPS encontrou o apoio necessário. "Temos uma retaguarda profissional entre nós muito grande, excecional. Quando falamos dos problemas, eles tornam-se um bocadinho mais pequenos, e o facto de podermos partilhar e pedir opinião, pedir estratégias uns aos outros, faz com que as coisas sejam muito mais fáceis".
Trabalhar por objetivos “é essencial”
Alexandra Ramos Cortês é assistente social e coordenadora da equipa, que, atualmente, tem mais duas assistentes sociais e três psicólogos. Em 2018 foi uma das responsáveis pela candidatura ao Programa Humaniza, da Fundação La Caixa, que permitiu esta equipa de apoio psicossocial para apoiar os recursos humanos já existentes em Santa Maria.
"Candidatámo-nos a este projeto e ganhámos o prémio, enquadrado na ULS. Éramos todos profissionais da Unidade de Medicina Paliativa. Isto permitiu criar a Equipa de Apoio Psicossocial, constituída por assistentes sociais e psicólogos. É uma equipa diferente, inovadora, que incluo na área da inovação social em saúde", diz a responsável.
Entre o que é inovador está o facto de trabalharem por objetivos. "Trabalhar assim é essencial. Temos objetivos que não são só assistenciais, mas são enquadrados em linhas estratégicas do próprio Programa Humaniza, ligadas à qualidade do apoio, à sustentabilidade, à docência e à formação, à investigação e à própria Equipa, no sentido da promoção do autocuidado e da coesão da equipa", explica.
Tudo isto estava já definido no Programa a que se candidataram, até porque "já existe há muitos anos em Espanha". "Em Portugal teve início em 2018, e além de nós, que vencemos o prémio, há 11 equipas a nível nacional: temos aqui um vizinho em Lisboa (Irmãos de S. João Deus), temos nos Açores, na Madeira, em Coimbra, no Porto, na Guarda, no Algarve", revela.
Desde 2019 que a EAPS da ULS de Santa Maria complementa, em termos de recursos humanos, o apoio que já havia no hospital, mas assegurando mais profissionais, com mais disponibilidade de horário e com mais formação.
"É uma equipa coesa com formação específica na área da doença crónica avançada. Apesar de os profissionais que se candidataram ao prémio terem todos formação avançada em cuidados paliativos, é diferente toda a Equipa de Apoio Psicossocial ter esta formação", o que permitiu alargar a sua ação. "Muito mais doentes e famílias puderam ser apoiados", sublinha Alexandra Ramos Cortês.
Melhorar a qualidade de vida dos doentes é o objetivo central da EAPS, onde cada elemento dá apoio a outros serviços do hospital. "Neste momento, a EAPS é constituída por seis pessoas: por mim, que sou a coordenadora e diretora, por três psicólogos e por mais dois assistentes sociais, distribuídos por diferentes equipas recetoras, que são os serviços do hospital onde complementamos o apoio que já existe, do ponto de vista do serviço social e do ponto de vista da psicologia".
As equipas recetoras que estão a apoiar são a Unidade de Medicina Paliativa, que "tem apoio do serviço social e da psicologia"; a Unidade de Oncologia, que tem apoio de um psicólogo; e a equipa Intra-hospitalar de Suporte em Cuidados Paliativos Pediátricos, "uma área muitas vezes esquecida, mas essencial". "Temos uma psicóloga a assegurar esse apoio. Vamos gerindo em função das necessidades que os serviços nos apresentam, e se temos, ou não, disponibilidade, de acordo com os nossos recursos", explica ainda.
“Aqui sinto que pertenço a uma equipa”
Joana Semedo Santos é a psicóloga que está a dar apoio aos paliativos pediátricos, e não esconde que é difícil e exigente. "Tem algumas particularidades. É uma área de grande vulnerabilidade também em termos profissionais. É um assunto tabu, mas há várias pessoas que não querem trabalhar nesta área, porque é difícil".
Para já, é a única psicóloga a apoiar o serviço. "Estão a aguardar uma nova contratação, porque o nosso apoio é um complemento. Mas, neste momento, é o que existe", diz.
"Estou quase a fazer três anos na EAPS, e é muito bom. Já estive noutras equipas, noutras instituições, noutros trabalhos e aqui há mais a sensação de se pertencer a uma equipa", refere Joana, que destaca ainda a questão do autocuidado e de cada um poder partilhar as suas vulnerabilidades.
"Temos reuniões semanais. Ontem, por exemplo, comecei a reunião a partilhar uma visita domiciliária num luto, que tinha sido mais difícil para mim. Falámos disso em equipa. Noutros serviços, às vezes ouvimos enfermeiras e médicos a dizer que têm muitas perdas e não há momentos para falar sobre as coisas, para partilhar, como eu sinto que há aqui”.
Outra mais-valia, diz, é poderem ter formação específica em cuidados paliativos. "É muito importante. Estamos a falar em áreas muito específicas e a Fundação La Caixa também nos permite adquirir essa formação. Permite-nos crescer em termos profissionais e, diria, também pessoais".
Dentro da EAPS Joana dá, ainda, apoio à Unidade de Medicina Paliativa. "Estou dois dias por semana a apoiar a Equipa Intra-Hospitalar de Paliativos Pediátricos, onde também há visitas domiciliárias. Vou em equipa, quer com a enfermeira, quer com a médica, quer com a assistente social, e às vezes também a nutricionista. Vamos a casa destes meninos e destas famílias. Inclusivé também a visita de luto, passado um mês do falecimento da criança. Noutro dia estou a fazer consultas externas de psicologia, quer aos doentes, quer às famílias, quer no luto. E o resto dos três dias da semana, estou a dar apoio à Unidade de Medicina Paliativa", indica a psicóloga.
Estar “no sítio certo”
Trabalhar em equipa e todos terem formação é um luxo, sublinha Mário Nascimento, também ele psicólogo na EAPS, e para quem "trabalhar em rede é uma grande segurança". "Posso cair para trás que sei que vou ser apanhado e isso é brutal", destaca. A formação em paliativos é fundamental.
"Quando vamos aos outros serviços e falamos com colegas, percebemos - e percebem - que temos algumas técnicas, algumas maneiras de estar muito diferentes. Isso dá-me mais convicção de que estou no sítio certo", refere o psicólogo que, dentro da EAPS, assegura o apoio ao Hospital de Dia de Oncologia, onde acompanha os doentes desde o diagnóstico até à fase de luto.
"Os casos que nos chegam são sinalizados pelos profissionais de enfermagem, pelos próprios oncologistas e, às vezes, os próprios utentes também pedem esse apoio. Estou presente desde o início do diagnóstico. Há casos de sucesso, mas infelizmente a estatística também dita que esses casos às vezes evoluem negativamente", explica o psicólogo, que tenta ajudar os doentes mais debilitados a lidarem com os seus maiores receios.
"Se há uma coisa que quase todos os doentes de paliativos têm é medo. Não sabem ao que vêm, muitas vezes têm aquela sensação antiga - que eu próprio também tinha antes de vir aqui trabalhar - de que paliativos é só para morrer. Hoje em dia já não é assim". Quando acontece, Mário acompanha a família após o falecimento.
"Não poucas vezes consigo acompanhar a evolução da vida de uma pessoa, desde o diagnóstico até, se acontecer, à morte e depois acompanho os seus familiares no luto. Vemos a vida a acontecer, o que é muito triste e muito violento, mas também é muito reconfortante", assegura. Perguntamos se tem sido compensador estar nesta função? "Tira imenso, e depois dá imenso. Mas, sim, é muito bom", assegura.
Parte humana “é que faz esta equipa ser especial”
Em 2024, a EAPS passou também a dar apoio às chamadas camas de proximidade nas ERPIs, as Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas, através de protocolos estabelecidos com a Unidade Local de Saúde de Santa Maria. "O grande objetivo aqui é estender ações paliativas a essas camas de proximidade, alargar a visão dos cuidados paliativos a essas entidades", explica a também psicóloga Sofia Coelho, que assegura este apoio da equipa nas ERPIs.
Fala com orgulho no trabalho que também aqui estão a conseguir fazer. "Gosto muito, muito. Temos todos muito esta parte humana que é isso que desejamos nos nossos serviços, e acho que é isso que faz esta equipa ser especial", diz Sofia, para quem a possibilidade de "transpor as barreiras do hospital" nos cuidados paliativos faz toda a diferença e torna o seu trabalho "muito compensador e reconfortante".
"Há uma ligação entre o dentro e o fora. Não é porque as pessoas saem daqui que deixam de ter esse apoio. Há uma continuidade de cuidados”. “ Para que o próprio doente e a própria família sentirem que o hospital continua lá", acrescenta Alexandra Ramos Cortês.
Assistência religiosa. Na Quaresma há quem se queira confessar e quem pergunte o que pode comer
Nos critérios do Programa Humaniza, a dimensão religiosa e espiritual é fortemente valorizada. Na equipa, o assistente religioso é uma presença constante junto dos doentes e das suas famílias, acompanhando quem solicite esse apoio, que o padre Fernando Soares diz ser essencial.
"Estipulámos mesmo um protocolo", conta, porque a Fundação valoriza muito a questão da espiritualidade, da religião e dos cuidados em fim de vida, que "faz toda a diferença".
"A EAPS é sensível à dimensão religiosa e espiritual e requisita a nossa presença para falar ao doente e aos familiares com muita frequência. A nossa presença é quase contínua", indica o sacerdote.
Em alturas como a atual, da Quaresma, há sempre dúvidas para esclarecer. "Às vezes aproveitam e confessam-se, por exemplo. Outras vezes perguntam sobre a alimentação", exemplifica. “Os doentes estão vulneráveis, têm orientações sobre a nutrição, o que é que devem e não devem comer, para a questão do seu bem-estar físico, mas depois também fazem passar isso pela sua dimensão espiritual".
"Comer ou não carne nas sextas-feiras da Quaresma, ou na Quarta-feira de Cinzas... perguntam muito por isso, às vezes no contexto da confissão. Outras vezes é na própria conversa, sem ser em celebração sacramental".
Estando fragilizados, tenta-se ter esse cuidado, para que os doentes possam cumprir a sua vontade, sem prejudicar a saúde. "Os nutrientes que são necessários podem vir de outra parte. Por que é que vamos impôr comer carne numa sexta-feira da Quaresma? Eu podia contar aqui um caso, num outro contexto, em que o hospital servia carne nas sextas-feiras da Quaresma, e no dia seguinte, era um corrupio para confissões".
O capelão da Igreja católica sente-se parte integrante da EAPS, que ajuda e onde é ajudado, até porque há sempre perdas difíceis de lidar.
"Imaginemos alguém da minha idade, que tem filhos, uma doença crónica avançada e vai partir... Às vezes é importante partilhar também com o padre", refere Alexandra Ramos Cortês. "Até para esclarecer as dimensões religiosas, o que é espiritual e o que é religioso", acrescenta o sacerdote, para quem "a partilha é sempre um momento de enriquecimento", e há sempre "muito para aprender".
Ver a pessoa para além da doença, melhorando a sua qualidade de vida é o objetivo central da EAPS de Santa Maria, num trabalho que é reconhecido pelos doentes.
A atenção e a alegria também são terapêuticas
Avelina Demba, de 58 anos, é doente oncológica. É acompanhada em paliativos e pela Equipa Psicossocial. "Venho por causa da saúde. Se não fossem eles, já não estaria aqui", assegura Avelina que recebe ajuda, por exemplo, com medicamentos. "Se eles tiverem, dão-me".
Há dois anos, Avelina fez parte do Grupo de Apoio de Interação Social e Espiritual que a EAPS constituiu, com vários doentes que partilhavam a mesma cultura africana. "Dancámos! Fizemos desenhos, houve comida. Foi muito bonito", conta à Renascença.
Ana Rita Massapina, assistente social, diz que o objetivo do grupo foi "ver a pessoa para além da doença", e os resultados provaram que "o controlo de sintomas não depende só de medicamentos. Há um controle sintomático não farmacológico. A atenção e a alegria também são terapêuticas, trabalhar em grupo é terapêutico, a comunicação é terapêutica, a relação que se cria é terapêutica", assegura a assistente social.
"Somos muito mais do que a doença. A doença não nos define", refere, lembrando que este trabalho também é feito com a família dos doentes e com os cuidadores.
Fundamental para o sucesso do Grupo de Apoio de Interação Social e Espiritual, e de outros projetos que vão surgindo, tem sido a ajuda dos voluntários, como Cristina Dinis, reformada há 15 anos de uma atividade ligada à área. "Era delegada de Informação Médica e trabalhei neste hospital de Santa Maria e Pulido Valente há mais de 30 anos", conta.
Está com a EAPS desde o início, acompanhando os doentes nos tratamentos. Há um ano e meio que colabora com um projeto que visa criar maior proximidade entre médicos e cuidadores. "O que faço? Essencialmente é companhia. Aqui, nos paliativos, quando é para ir às consultas, estou com eles. Quando é para fazer sessões de quimioterapia, seja o tempo que for necessário, acompanho. Já tive doentes que levaram três horas de quimioterapia e eu estou sentada ao lado deles, a conversar”.
O Programa Humaniza permitiu reforçar o número de profissionais na equipa e assegurar um horário alargado de atendimento. "Por exemplo, a Unidade de Medicina Paliativa é das 08h00 às 20h00. Nós funcionamos das 8h30 até às 19h30, de segunda a sexta. Isto significa que temos uma abrangência muito maior para atender a eventuais necessidades que possam surgir em vários momentos do dia, e que não sejam só físicas", indica Ana Rita Massapina.
"A disponibilidade dos nossos contactos diretos da Unidade, e toda esta proximidade que se cria com o doente, também vem trazer segurança", sublinha Ana Rita, lembrando que a especificidade dos Paliativos e do Programa Humaniza "vem precisamente abarcar esta dimensão do tempo e do acompanhamento continuado e articulado".
Mas, para se dar uma resposta alargada tem de haver condições para os profissionais de saúde, que aqui "conseguem ter".
“Sou a favor de mais programas de inovação social” em saúde
A coordenadora da equipa, Alexandra Ramos Cortês, diz que sem o apoio privado da Fundação La Caixa não teriam uma equipa reforçada e totalmente dedicada à melhoria do bem-estar dos doentes, em fases tão delicadas como as das doenças crónicas e em fim de vida.
Para Alexandra, é "fantástico" ver a ciência a aliar-se à humanidade, "a dor à dignidade" e "perceber que o sofrimento pode ser atenuado por uma equipa com conhecimento especializado" apoiado também pela Fundação, que permite "formação especializada no luto, na espiritualidade ou a outro nível". "Este apoio da equipa toda na melhoria da qualidade [de vida] dos doentes, tem sido, a meu ver, muito relevante", reforça.
“Sem este apoio, da Fundação, não seria possível. Por isso sou apologista da procura da criatividade, de tentarmos ir ao encontro de algo que nos faça sentido, de projetos e programas de inovação social. E a administração deste hospital é totalmente recetiva a isto", sublinha.
Desde que foi criada em 2019, até 2025, a Equipa de Apoio Psicossocial da ULS de Santa Maria já acompanhou quase 54 mil utentes, incluindo doentes, familiares e cuidadores, e profissionais de saúde.

























