Obama. O homem que diz ocupar uma parte da cabeça de Trump

O antigo Presidente norte-americano foi a Filadélfia num momento crucial para os democratas. A polémica em torno dos porto-riquenhos foi aproveitada por Barack Obama para reforçar o apelo ao voto dos latinos nas eleições de 5 de novembro. Mas o desafio dos democratas é a mobilização do seu próprio eleitorado.

29 out, 2024 - 18:26 • José Pedro Frazão, enviado da Renascença aos EUA



Barack Obama, Bruce Springsteen e John Legend em Filadélfia para apoiar Kamala Harris

Fiel ao seu estilo de campanha, de camisa branca e mangas arregaçadas, Barack Obama reconheceu ao fim de poucos minutos que tinha perante si uma “plateia de convertidos” na arena do Liacouras Center, em Filadélfia.

Um público de meia idade, muitos acima dos 50 anos , compunha a plateia. Se aquele fosse o retrato do eleitorado democrata na Pensilvânia poderia ser a versão grisalha do contingente que deu duas vezes a Casa Branca a Obama. Mas o desafio vai mais longe quando todos os votos vão contar.

“Há um problema de conforto. Não devia ser assim, mas é”, diz à Renascença Daryl, de 55 anos, que representa bem esse grupo de votantes democratas na frente de Obama. Este contemporâneo de Kamala Harris na Universidade Howard garante que há muitas pessoas “confortáveis” com o que se vai passando. “Mas estão mal informados”, avisa este votante nos democratas.

O discurso de Daryl na bancada assemelha-se às entrelinhas do de Obama no palanque. “Kamala tem que conseguir que as pessoas saiam de casa e vão votar. Os votantes existem e deram-lhe - e a Biden - a vitória há quatro anos”, diz o apoiante natural da Pensilvânia.


No palco, Obama foi repetindo que o desafio é convencer vizinhos e amigos da importância de votar. Mais uma vez o calendário é determinante. Obama afixou no discurso de Filadélfia o lembrete de que esta terça-feira termina o prazo para pedir boletins para votar em casa antes do dia das eleições.

Cabeças que se cruzam

Tal Daryl tal Barack, também o ex-presidente diz que há algo nesta corrida “que não devia ser assim, mas é”. Uma disputa renhida, porque a economia, sobretudo a inflação elevada, passa uma fatura elevada a Kamala Harris pelos anos Biden.

“Compreendo que as pessoas querem que alguém abane isto um pouco. O que não compreendo é porque é que essas pessoas acham que Donald Trump vai agitar as coisas de uma forma que lhes seja favorável”, ripostou Obama.

Ao tentar desmontar os argumentos económicos de quem se inclina para Trump, Obama reconheceu que há muita gente atingida pelos preços altos, mas desmente que a economia estava boa nos anos Trump.

“Estava boa, porque era a minha economia. Entreguei 75 meses consecutivos de subida do emprego a Trump e ele cortou nos impostos de quem não precisava de tal. Ele não fez nada”, atacou Obama num roteiro que pretendeu puxar dos galões e carimbar um atestado de incompetência ao seu sucessor.


Trump deu cheques na pandemia? “O Congresso é que deu. Não sejam tontos, não caiam como patinhos”. Planos de Trump para a Saúde? “Ele só tem conceitos de planos. Quer substituir o Obamacare porque fui eu que o criei. Eu ocupo espaço na cabeça dele”, declarou o antigo Presidente.

O regresso do humor?

Depois de Kamala ter entornado mais acidez no discurso democrata, Obama recuperou o humor e a ironia que foram a arma de apresentação da candidata quando substituiu Joe Biden na corrida presidencial.

“O homem não podia ser inventado”, brincou Obama, descrevendo um Trump a publicar em contínuo nas redes sociais e a vender Bíblias sem ligar aos princípios cristãos.

Para ilustrar como Trump não se comove com os problemas das pessoas, o antigo Presidente começou a imaginar um furo no pneu do carro do candidato republicano.

“Acham que Donald Trump alguma vez mudou um pneu furado? Ele chama o motorista e ordena que o faça”, disse Obama perante a gargalhada total.

O discurso não passou por cima da polémica sobre os porto-riquenhos, comparados a uma “ilha de lixo” no comício nova-iorquino de Trump.

“Se alguém não o respeita, que não o vê como compatriota com direitos iguais, é simples: não deve votar nele. Não deve esperar que melhore a sua vida. Temos que rejeitar os políticos da divisão e do ódio”, afirmou Obama.

Não espanta o que o militante Daryl já tinha alertado. “É muito importante ter os latinos aqui na Pensilvânia”, antecipava na bancada. O comício de Trump em Nova Iorque pode ter ajudado, mas o problema é sempre a mobilização. “Não apupem, votem”, foi o bordão da noite em Filadélfia. Os democratas da Pensilvânia gargalharam com Obama ao mesmo tempo por confiança e nervosismo.


A Renascença nos Estados Unidos com o apoio da TAP Air Portugal


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