Nos dias que se seguiram, os bombardeamentos nunca mais cessaram. Anton Bilay levava comida aos orfãos que dormiam junto ao colégio, mas as condições degradavam-se a cada hora. "Comecei a arrumar as minhas coisas. Uma assistente social ligou-nos e disse que iria haver uma evacuação e que nos levariam para um lugar mais seguro. Mas isso nunca aconteceu."
A comida e a água começaram a escassear até à inexistência. A eletricidade seguiu o mesmo fado, acompanhando o colapso de comunicações. "Nessa altura perdi contacto com o senhor Anton. Logo depois, a polícia ucraniana levou-nos para o centro", recorda Ivan, deixando o dormitório desprotegido para se juntar a mulheres, crianças e idosos num abrigo da Universidade Técnica, a cerca de um quilómetro do emblemático Teatro de Mariupol.
Ao fim de duas semanas, sem água e sem comida, a situação era insustentável e sem sinais de evacuação. "Foi quando vi um avião russo a lançar uma bomba sobre o teatro onde estavam mil pessoas abrigadas. Encaminhei algumas pessoas para esse local ao longo dos dias anteriores." Para Iva, foi o sinal de que era imperioso arriscar uma saída da cidade.
Fugas falhadas e um herói a caminho
Na companhia do irmão de 19 anos, Ivan tentou dirigir-se a um posto de controlo russo à saída de Mariupol. "Queria ir para Berdyansk, porque de lá poderia ir para Lviv, por exemplo, onde estava a nossa mãe. Só que nesse posto os russos pararam-nos, obrigaram-nos a despir, observaram os nossos corpos, talvez para tentar ver alguma tatuagem, ou alguma coisa caracterizada pelos ucranianos." Levados pelos russos, fizeram uma pausa na localidade de Manhush, a 20 quilómetros de Mariupol.
"Pediram-nos para ficarmos ali, mas nós fugimos. Acabaram por nos deter e ameaçaram-nos com tiros contra os joelhos, caso tentassemos uma próxima tentativa de fuga. Chamaram a comissão de proteção de menores e mandaram-nos para Donetsk, de forma a ficarmos num sítio mais controlado pelos russos. Nessa altura, cortaram-me qualquer contacto com familiares e separaram-me do meu irmão, tendo seguido com alguns amigos para Donetsk", recorda o jovem ucraniano.
Ficaria cerca de dois meses no hospital pediátrico número cinco de Donetsk. Ficaram sem nada para fazer, sem ir a qualquer escola. As pressões para um encaminhamento para a Rússia ganhavam volume.
"Começaram a pressionar-nos moralmente. Falavam que tínhamos passaportes russos e que tínhamos famílias russas, mas eu não queria isso". Através de um cartão telefónico, Ivan e o seu colega de orfanato Maksym conseguiram localizar o tutor de Mariupol, Anton Bilay.
O que se segue não cabe no relato curto feito em Lisboa. Bilay, o "herói" de Ivan, viajou de Kiev para Donetsk através da Polónia, Lituânia e Letónia até chegar à Rússia. Mais de 4000 quilómetros depois, apresentou-se em Donetsk com os documentos que conseguiu recolher para provar ter tutela legal sobre os dois rapazes.
Em Junho de 2022, chegaram todos a Kiev. Foram recebidos pelo Governo como uns dos primeiros menores a regressar dos territórios ocupados. Ivan regressou aos estudos e corre hoje o mundo enquadrado nas ações de promoção do programa "Bring Kids Back UA", lançado pelo Presidente da Ucrânia, que o trouxe também a Lisboa.
"Como podemos manter o contacto se somos inimigos?"
Mais a leste, a ocupação da Ucrânia por forças pró-russas começou ainda antes de 24 de Fevereiro de 2022. Na província de Luhansk, a guerra chegou em 2014 e a presença militar fiel a Moscovo faz parte do quotidiano de qualquer criança ou adolescente. Ivan Sarancha lembra-se que as tradições ucranianas foram diluidas com avanços e recuos, na escola e fora dela.
"Tanto quanto me lembro agora, mantivemos a preparação do Kutya, um prato tradicional para o Natal. Também mantivemos as canções tradicionais — uma espécie de Janeiras — e isso foi preservado e não só na nossa família. Quanto à escola, da mesma forma, tivemos língua ucraniana e literatura ucraniana até 2020, até ao meu sétimo ano. Mas depois removeram tudo completamente. Ou seja, havia alguns pormenores da cultura ucraniana, mas depois de 2020 começaram a retirá-los", relata este jovem de Luhansk, no Donbass.