Ivan, Marta e Ivan. Como três jovens ucranianos fugiram do Donbass ocupado pela Rússia

Muitas crianças e jovens ucranianos foram crescendo sob ocupação russa nas províncias de Luhansk e Donetsk. Travando movimentos de deportação para a Rússia, a Ucrânia conseguiu resgatar 2000 jovens nos últimos quatro anos, através de um programa que conta com a mediação de países terceiros e organizações da sociedade civil. Três jovens contam como saíram dos territórios ucranianos ocupados.

24 fev, 2026 - 06:58 • José Pedro Frazão



Ivan Matkovskyi, Marta Glazkova e Ivan Sarancha cresceram em Luhansk e Donetsk, mas conseguiram evitar a deportação para a Rússia. Fotos: DR
Ivan Matkovskyi, Marta Glazkova e Ivan Sarancha cresceram em Luhansk e Donetsk, mas conseguiram evitar a deportação para a Rússia. Fotos: DR

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Bola, escola, boxe. Boxe, escola, bola. A infância de Ivan em Kramatorsk, na província de Donetsk, foi vivida neste eixo até aos 11 anos. Até 2017, este tripé assentava numa normalidade assim descrita por alguém que vivia ainda em família, talvez novo demais para se aperceber do estalar do conflito separatista em 2014.

Os quase três meses de controlo pró-russo de Kramatorsk nesse ano foram, em bom rigor, a primeira experiência de Ivan Matkovskyi sob ocupação. O tempo curto da conversa em Lisboa não permite recuar tanto nem perceber o que aconteceu para sair da tutela familiar.

"Foram retirados os direitos parentais à minha mãe", é tudo o que Ivan diz. A entrevista é realizada sob supervisão de uma psicóloga ucraniana que avisa que vai intervir se alguma pergunta passar a linha da incomodidade. Não foi necessário ativar esse dispositivo ao longo de uma hora de entrevistas.

Ivan seguiu para um internato e foi conduzido depois a Mariupol, onde estudou numa escola profissional na área da construção, dirigida por Anton Bilay, personagem central na jornada do jovem Matkovskyi. Estavam ambos na cidade portuária quando começou a invasão russa de larga escala.

Os dias difíceis de Mariupol

Mariupol começa a ser bombardeada, mas Ivan, na altura com 16 anos, confessa que só soube o que se passava pela chamada matutina de quem não tinha a sua tutela. "Estava a dormir num quarto do colégio quando a minha mãe me ligou, pelas sete da manhã, e me disse que a guerra tinha começado", conta-nos Ivan.


Mandaram-nos para Donetsk, de forma a ficarmos num sítio mais controlado pelos russos", conta Ivan Matkovskyi. Foto: DR
Mandaram-nos para Donetsk, de forma a ficarmos num sítio mais controlado pelos russos", conta Ivan Matkovskyi. Foto: DR

Nos dias que se seguiram, os bombardeamentos nunca mais cessaram. Anton Bilay levava comida aos orfãos que dormiam junto ao colégio, mas as condições degradavam-se a cada hora. "Comecei a arrumar as minhas coisas. Uma assistente social ligou-nos e disse que iria haver uma evacuação e que nos levariam para um lugar mais seguro. Mas isso nunca aconteceu."

A comida e a água começaram a escassear até à inexistência. A eletricidade seguiu o mesmo fado, acompanhando o colapso de comunicações. "Nessa altura perdi contacto com o senhor Anton. Logo depois, a polícia ucraniana levou-nos para o centro", recorda Ivan, deixando o dormitório desprotegido para se juntar a mulheres, crianças e idosos num abrigo da Universidade Técnica, a cerca de um quilómetro do emblemático Teatro de Mariupol.

Ao fim de duas semanas, sem água e sem comida, a situação era insustentável e sem sinais de evacuação. "Foi quando vi um avião russo a lançar uma bomba sobre o teatro onde estavam mil pessoas abrigadas. Encaminhei algumas pessoas para esse local ao longo dos dias anteriores." Para Iva, foi o sinal de que era imperioso arriscar uma saída da cidade.

Fugas falhadas e um herói a caminho

Na companhia do irmão de 19 anos, Ivan tentou dirigir-se a um posto de controlo russo à saída de Mariupol. "Queria ir para Berdyansk, porque de lá poderia ir para Lviv, por exemplo, onde estava a nossa mãe. Só que nesse posto os russos pararam-nos, obrigaram-nos a despir, observaram os nossos corpos, talvez para tentar ver alguma tatuagem, ou alguma coisa caracterizada pelos ucranianos." Levados pelos russos, fizeram uma pausa na localidade de Manhush, a 20 quilómetros de Mariupol.

"Pediram-nos para ficarmos ali, mas nós fugimos. Acabaram por nos deter e ameaçaram-nos com tiros contra os joelhos, caso tentassemos uma próxima tentativa de fuga. Chamaram a comissão de proteção de menores e mandaram-nos para Donetsk, de forma a ficarmos num sítio mais controlado pelos russos. Nessa altura, cortaram-me qualquer contacto com familiares e separaram-me do meu irmão, tendo seguido com alguns amigos para Donetsk", recorda o jovem ucraniano.

Ficaria cerca de dois meses no hospital pediátrico número cinco de Donetsk. Ficaram sem nada para fazer, sem ir a qualquer escola. As pressões para um encaminhamento para a Rússia ganhavam volume.

"Começaram a pressionar-nos moralmente. Falavam que tínhamos passaportes russos e que tínhamos famílias russas, mas eu não queria isso". Através de um cartão telefónico, Ivan e o seu colega de orfanato Maksym conseguiram localizar o tutor de Mariupol, Anton Bilay.

O que se segue não cabe no relato curto feito em Lisboa. Bilay, o "herói" de Ivan, viajou de Kiev para Donetsk através da Polónia, Lituânia e Letónia até chegar à Rússia. Mais de 4000 quilómetros depois, apresentou-se em Donetsk com os documentos que conseguiu recolher para provar ter tutela legal sobre os dois rapazes.

Em Junho de 2022, chegaram todos a Kiev. Foram recebidos pelo Governo como uns dos primeiros menores a regressar dos territórios ocupados. Ivan regressou aos estudos e corre hoje o mundo enquadrado nas ações de promoção do programa "Bring Kids Back UA", lançado pelo Presidente da Ucrânia, que o trouxe também a Lisboa.

"Como podemos manter o contacto se somos inimigos?"

Mais a leste, a ocupação da Ucrânia por forças pró-russas começou ainda antes de 24 de Fevereiro de 2022. Na província de Luhansk, a guerra chegou em 2014 e a presença militar fiel a Moscovo faz parte do quotidiano de qualquer criança ou adolescente. Ivan Sarancha lembra-se que as tradições ucranianas foram diluidas com avanços e recuos, na escola e fora dela.

"Tanto quanto me lembro agora, mantivemos a preparação do Kutya, um prato tradicional para o Natal. Também mantivemos as canções tradicionais — uma espécie de Janeiras — e isso foi preservado e não só na nossa família. Quanto à escola, da mesma forma, tivemos língua ucraniana e literatura ucraniana até 2020, até ao meu sétimo ano. Mas depois removeram tudo completamente. Ou seja, havia alguns pormenores da cultura ucraniana, mas depois de 2020 começaram a retirá-los", relata este jovem de Luhansk, no Donbass.


No dia da invasão, Ivan Sarancha não estava em Luhansk, mas num local não identificado na Federação Russa. Passou o dia a escrever a muitos amigos, perguntando o que se passava. A informação não chegava sem cotrolo até si. Foto: DR
No dia da invasão, Ivan Sarancha não estava em Luhansk, mas num local não identificado na Federação Russa. Passou o dia a escrever a muitos amigos, perguntando o que se passava. A informação não chegava sem cotrolo até si. Foto: DR

Na passagem dos 14 para os 15 anos, a invasão de larga escala pela Rússia mexeu com a cabeça deste jovem ucraniano. "Isto mudou a minha mentalidade. Já tinha informações de amigos que viviam no outro lado da Ucrânia. Mas o momento crucial foi a invasão de 2022, que provocou o bloqueio de muita informação." Ivan Sarancha vinha cultivando contactos pelas redes sociais que contrastavam com a informação oficial e filtrada que chegava a Luhansk.

"Era uma comunicação normal com os outros adolescentes. Comunicar nas redes sociais não era proibido e podia fazê-lo livremente. Começámos com o tópico de 'como podemos manter o contacto se somos inimigos?' E eles responderam com uma pergunta: 'Porque somos inimigos?' Ficámos presos a este tópico e começámos a falar sobre este assunto. Mais tarde, por causa disso, comecei a aprender muito com eles. Era informação que não conseguia aprender com os meus pais ou na escola. E assim a minha posição mudou", explica Ivan, que foi ganhando a vontade de sair do território ocupado.

Fuga e choque com a família

No dia 24 de Fevereiro de 2022, Ivan Sarancha não estava em Luhansk, mas num local não identificado na Federação Russa. Passou o dia a escrever a muitos amigos, perguntando o que se passava. "A maioria falou-me em explosões. Foi assustador, claro. E não havia qualquer compreensão de que aquilo estava realmente a acontecer. Nem conseguia acreditar que aquilo tinha realmente começado". Aquilo, era a invasão de larga escala — para muitos chegava a "guerra a sério".

Três anos depois, em 2025, Ivan atingiu a maioridade e com ela a possibilidade de obter documentação que lhe permitia viajar sozinho. Através da Rússia, chegou à Bielorrúsia e daí para a Ucrânia, com o apoio de voluntários. Foi uma fuga em ruptura com os pais, algo que recusa comentar na entrevista, embora tenha já declarado publicamente que a sua mãe encarou a sua saída como uma traição.

Quando chegou à Ucrânia, foi surpreendido meses depois com a presença de um colega de turma que também fugiu de Luhansk. Ivan recorda como o tema da ocupação era delicado naquelas terras do Donbass.

"Eu não sabia de nada disto. Não era possível falar diretamente sobre este assunto no contexto em que estava, com os amigos ou com quem estava presente. A sós, podíamos ter apenas uma ideia do que se passava através de expressões faciais, atitudes, independentemente de a pessoa aparecer ou não depois. Verbalizar? Não. Não se falava sobre a guerra naquele contexto", recorda o atual estudante de química na universidade em Kiev.

Apesar do conflito com os pais, se pudesse voltar hoje para Luhansk, na Ucrânia, Ivan Sarancha fá-lo-ia imediatamente. "Agora já não tenho o desejo que tinha há uns meses, quando cheguei pela primeira vez, porque já me habituei à vida na Ucrânia. Mas, sim, claro, se fosse para um Luhansk ucraniano, claro que gostaria de voltar".

E o que é ser então ucraniano, ao ponto de o não querer ser sob ocupação? "É ser eu próprio".

Da "propaganda em russo" à "militarização das crianças"

A adolescência de Marta Glazkova coincidiu também com o forte sentimento de pertença ucraniana. A explosão separatista de 2014 no Donbass mexeu com a sua infância, vivida na região de Donetsk. No início da ocupação ainda foi recolocada pelos pais em casa de familiares em Mariupol, mas rapidamente voltou à terra natal. Marta associa as invasões às mudanças no currículo escolar no Donbass ocupado.


Marta Glazkova. Foto: DR
Marta Glazkova. Foto: DR

"A partir da terceira classe, a minha escola passou para o regime de educação russa, que se baseava puramente na propaganda em russo. E assim continuou até ao nono ano". Marta descreve assim a sua jornada educativa de 2014 até 2022, quando a grande invasão chegou também às escolas. "Depois disso, começaram não só a incutir propaganda nos livros, mas também a promover a militarização das crianças, e não só nas turmas mais velhas".

Hoje estudante de Linguística em Kiev, Marta salienta ainda algumas nuances no ensino da língua e literatura ucranianas nas escolas de Donetsk. "No início, proibiram completamente. Três anos depois, quando já estava no sexto ou sétimo ano, para encobrir a verdade — de que estavam a definir um genocídio ao proibir a língua ucraniana oficial — reintroduziram a língua ucraniana, mas sob a supervisão de russos. Não havia ali nada de patriótico, apenas a língua, e por um breve período, uma vez por semana. Depois, voltaram ao ensino regular, apenas uma vez por semana, mas era muito censurado, muito básico. Só para dizer que existia."

Marta começou cedo a sua rebeldia pró-ucraniana na frente doméstica. "Eu não tinha uma boa relação com os pais e tornou-se cada vez mais complicado estar a esconder a minha identidade ucraniana." Frequentava uma escola online ucraniana, interessava-se muito por literatura e história, e cada vez era mais difícil viver em família, escondendo a sua própria identidade. "Como também já tinha sido ameaçada que poderia ser mandada para um internato ou para alguma coisa qualquer fora de família, fazia mais sentido sair do que estar submissa a esse tipo de ameaças", relata em Lisboa.

Foi temperando o seu sentimento nacionalista ucraniano num contexto de ocupação russa de Donetsk, assumindo uma espécie de vida dupla. "Não podia falar entre as pessoas que tinham qualquer ligação com a polícia ou com os militares. Na minha escola, sim, podia falar, não abertamente, mas em textos indiretos e não fingia ser pró-Rússia. Mas, na verdade, em alguns casos, eu fui muito cuidadosa, não apenas com as minhas palavras, mas simplesmente pensando se deveria fazê-lo em público e aparecer em alguns lugares potencialmente perigosos."

Controlo no presente, confiança no futuro

Certo dia, um amigo fez-lhe chegar o contacto de uma voluntária de uma organização que ajudava a levar pessoas de territórios ocupados. Durante três meses, a voluntária ajudou-a a preparar os documentos necessários, até ao dia em que fez 18 anos, em 2025. "Viajei primeiro para a Rússia, depois através da Bielorrússia, para o Minsk e para Brest. Infelizmente, na primeira vez, não consegui passar na fronteira. Tive que voltar para o Minsk e depois, na segunda vez, já passei."

A viagem durou nove dias, carregados de ansiedade controlada, "de forma a não entrar em pânico". Ainda teria que passar o interrogatório dos serviços de segurança da Ucrânia, mas quando entrou no comboio em Kiev e comprou um cartão SIM para poder falar com a família, o sentimento de euforia foi enorme. "Sabia que tudo foi bem feito e em segurança", desabafa Marta Glazkova.

Esta ucraniana de Donetsk acredita que a maioria dos jovens naquela região ocupada está tentada a sair da ocupação russa. "Conheço casos em que, já depois do meu regresso, um grande número de pessoas de Donetsk abandonou a região. Eles compreendem que isto é possível se reunirem os seus documentos. Mas para ser honesta, é quase impossível manter essa consciência ucraniana tendo em conta a propaganda pró-Rússia, que simplesmente tenta matar tudo o que há de ucraniano ali todos os dias, sob ocupação."

Há em Marta uma ligação que persiste com o Donbass, agora a partir de Kiev, apesar das chamadas turbulentas para casa. "Apesar das traições, muitos jovens estão prontos para ajudar, porque entendemos que o nosso futuro depende do que fizermos agora e nos próximos anos. No geral, a reconstrução de toda a região de Donetsk pode demorar mais de 10 anos, porque isso é o que mostra o passado recente. Mas em qualquer caso, vou esperar por isso e tenho a intenção de ajudar tanto a minha cidade como todo o Donbass, porque os territórios que foram afetados precisam de alguma forma de recuperação", afiança Marta Glozkova, uma entre 2000 ucranianos que saíram dos territórios ocupados desde o início da invasão de larga escala em 2022.


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