Nuno Pereira da Silva, coronel de infantaria na reserva, partilha com a Renascença as suas observações nos corredores do poder no Iraque pós-Saddam Hussein, agora à luz da guerra desencadeada com o ataque israelo-americano ao Irão.
Nesta entrevista, o especialista em estratégia militar argumenta que o Irão está a defender-se com base num plano preparado para um cenário em que a sua capacidade de comando esteja destruída.
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De acordo com o antigo assessor do Instituto de Defesa Nacional, a conquista do Irão pelos Estados Unidos iria requerer uma forte presença de militares no terreno com uma projeção de forças não inferior a 400 mil militares na região.
O que é que a sua experiência lhe diz sobre as grandes diferenças e semelhanças entre o Irão e o Iraque?
Quando estive no gabinete de guerra do primeiro-ministro do Iraque, disse a um tenente-coronel xiita que os iraquianos e os iranianos eram parecidos. Respondeu-me que eles [iranianos] eram persas e os iraquianos eram árabes. Ou seja, não tinham nada a ver uns com os outros, a não ser a religião.
A primeira diferença é logo esta - são ambos xiitas, mas uns são árabes, outros são persas. Foi mesmo uma das coisas que aprendi logo nos primeiros dias no Iraque.
Em termos da operação, os americanos conseguiram conquistar o Iraque ao fim de poucos dias, mas depois de lá chegarem, não tinham plano para o dia seguinte.
À partida, tinham o apoio de alguma parte da população civil xiita. Mas só depois de terem destruído o país e deixado saquear os museus, é que os norte-americanos tiveram um plano para tomar conta do regime e dos ministérios.
Isso foi uma das coisas que mais ódio aos americanos criaram, para além das equipas de "soldados da fortuna", que levaram para fazer segurança. Deslocavam-se em carros blindados com um grande letreiro a dizer que tinham de parar a 100 metros, caso contrário levavam um tiro.
No Irão, Trump pensou que fazia aquilo em dois dias, mas não está a ganhar a guerra. Não esperou que houvesse esta reação da parte do Irão, de incendiar todos aqueles países à volta, inclusive o Iraque. E não tem um plano para o dia seguinte. Destruir pelo ar é fácil, depois começa a guerra civil.