"Mudança de regime no Irão só com uma guerra civil como no Iraque"

Foi um dos portugueses mais próximos do regime pós-Saddam no Iraque, tendo servido pela NATO em Bagdad como conselheiro militar do então primeiro-ministro Al-Maliki, após a intervenção americana em 2003. Nuno Pereira da Silva, coronel do exército, hoje na reforma, explica à Renascença que os norte-americanos são odiados na região, descreve as divisões tribais e étnicas de Iraque e Irão e lembra que os curdos já foram muitas vezes enganados pelo Ocidente na sua pretensão de construir uma nação.

16 mar, 2026 - 08:00 • José Pedro Frazão



Dia de Al-Quds em Teerão durante operação Fúria Épica dos EUA e de Israel contra o Irão. Foto: Abedin Taherkenareh/EPA
Dia de Al-Quds em Teerão durante operação Fúria Épica dos EUA e de Israel contra o Irão. Foto: Abedin Taherkenareh/EPA

Ouça a entrevista a Nuno Pereira da Silva, antigo conselheiro militar do governo do Iraque

Nuno Pereira da Silva, coronel de infantaria na reserva, partilha com a Renascença as suas observações nos corredores do poder no Iraque pós-Saddam Hussein, agora à luz da guerra desencadeada com o ataque israelo-americano ao Irão.

Nesta entrevista, o especialista em estratégia militar argumenta que o Irão está a defender-se com base num plano preparado para um cenário em que a sua capacidade de comando esteja destruída.

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De acordo com o antigo assessor do Instituto de Defesa Nacional, a conquista do Irão pelos Estados Unidos iria requerer uma forte presença de militares no terreno com uma projeção de forças não inferior a 400 mil militares na região.


O que é que a sua experiência lhe diz sobre as grandes diferenças e semelhanças entre o Irão e o Iraque?

Quando estive no gabinete de guerra do primeiro-ministro do Iraque, disse a um tenente-coronel xiita que os iraquianos e os iranianos eram parecidos. Respondeu-me que eles [iranianos] eram persas e os iraquianos eram árabes. Ou seja, não tinham nada a ver uns com os outros, a não ser a religião.

A primeira diferença é logo esta - são ambos xiitas, mas uns são árabes, outros são persas. Foi mesmo uma das coisas que aprendi logo nos primeiros dias no Iraque.

Em termos da operação, os americanos conseguiram conquistar o Iraque ao fim de poucos dias, mas depois de lá chegarem, não tinham plano para o dia seguinte.

À partida, tinham o apoio de alguma parte da população civil xiita. Mas só depois de terem destruído o país e deixado saquear os museus, é que os norte-americanos tiveram um plano para tomar conta do regime e dos ministérios.

Isso foi uma das coisas que mais ódio aos americanos criaram, para além das equipas de "soldados da fortuna", que levaram para fazer segurança. Deslocavam-se em carros blindados com um grande letreiro a dizer que tinham de parar a 100 metros, caso contrário levavam um tiro.

No Irão, Trump pensou que fazia aquilo em dois dias, mas não está a ganhar a guerra. Não esperou que houvesse esta reação da parte do Irão, de incendiar todos aqueles países à volta, inclusive o Iraque. E não tem um plano para o dia seguinte. Destruir pelo ar é fácil, depois começa a guerra civil.


Aiatolá Ali al-Sistani reunido com o Papa Francisco, durante visita do Santo Padre ao Iraque. Foto: Gabinete de al-Sistani
Aiatolá Ali al-Sistani reunido com o Papa Francisco, durante visita do Santo Padre ao Iraque. Foto: Gabinete de al-Sistani

Acredita que pode haver uma guerra civil também no Irão?

No Iraque aconteceu uma guerra civil entre os xiitas de Al-Sistani e os de Al-Sadr, ganha pelo primeiro, com o apoio dos americanos. Apareceu depois o ISIS, que eram as tribos de Saddam Hussein, que se retiraram para o Norte e para a Síria com a guarda revolucionária intacta. Destruiu-se Mossul, a capital do Estado Islâmico, mas o ISIS passou a cometer atos terroristas.

O que pode acontecer no Irão é algo muito semelhante, começando uma guerra civil muito semelhante. Os americanos estão mais uma vez a pôr os curdos a trabalhar como na invasão do Iraque, quando ajudaram os americanos a entrar pelo Norte. Aliados aos americanos e israelitas, os curdos na zona da Síria deram cabo do ISIS.

Os EUA tiveram consciência dos seus erros estratégicos no Iraque?

Começaram a ter esse conhecimento quando viram que as coisas não estavam a correr bem. Pensavam que iriam ser aplaudidos, porque os tinham livrado do partido Baas e de Saddam Hussein. Mas o povo não os aplaudiu, porque destruíram tudo.

Os EUA estão a cometer o mesmo erro, a destruir todas as infraestruturas e todos os pontos de comando. A tropa iraniana está a reagir, porque não é computorizada, como também não era a do Iraque. Estão habituados a trabalhar como nós trabalhávamos há 20 anos, com a régua e o esquadro, a fazer contas de cabeça para fazer tiro.

Os norte-americanos tiraram-lhes os computadores e os iranianos continuaram a trabalhar como fazíamos, com rádios de emissões curtas, com mensageiros, a trabalhar à mão. Os iranianos não precisam de computadores para trabalhar.


Clérigo iraquiano Moqtada Al-Sadr durante conferência imprensa em Najaf. Foto: Str/EPA
Clérigo iraquiano Moqtada Al-Sadr durante conferência imprensa em Najaf. Foto: Str/EPA

Como foi a reconstrução militar do Iraque nesse quadro de xiitas e sunitas?

A reconstrução militar passou pela criação de vários comandos.

Eu estava num deles, no comando da Guerra, no gabinete de apoio ao primeiro-ministro, que estava ligado a um gabinete igual para o Exército e outro para a Polícia. O Exército era sunita e a Polícia era xiita, mas estão divididos por um rio. Os xiitas estão no sul e os sunitas estão a norte. Cada um tinha o seu comando, aquilo de conjunto não tinha nada.

Éramos o comando conjunto que dava ordens para o Exército e para a Polícia, estando em contato com todos os Ministérios. Mas era muito difícil que aquilo funcionasse.

A criação deste tipo de comandos, iguais aos do Ocidente, dando-lhes computadores para trabalharem, também não funcionou.

Formou-se um quartel-general com todo o pessoal que era do Exército que tinha sido desmobilizado. Voltaram a mobilizar, mas os curdos reduziram-lhes um posto. Os que eram generais, passaram a coronéis. Os sunitas andavam ‘meio fugidos’ e os xiitas não se entendiam entre si.


Os americanos estavam muito satisfeitos com o nosso gabinete, mas os iraquianos tinham o deles. Ou seja, os iraquianos funcionam com as famílias. A família do primeiro-ministro era toda xiita e da sua tribo. Todos os Ministérios eram da tribo dele ou de familiares mais diretos. Portanto, este comando era uma invenção americana.

Os americanos obrigavam-nos a ir aos briefings da manhã e da tarde, e davam-lhes a informação que pretendiam que eles soubessem. A minha função era coordenar todo este comando novo.

Eu, pela NATO, estava a trabalhar no gabinete do primeiro-ministro, e havia depois outro comando americano - porque eles nunca confiam na NATO.

Havia sempre dois comandos diferentes. A NATO era sempre vista como uma coisa a mais. Eles tinham os comandos todos e a NATO estava lá para ‘pôr a bandeirinha’, para dizer que estávamos lá, pois para isso precisavam sempre da NATO. Não queriam sequer que nós andássemos armados.

Era a única pessoa que não andava armado lá dentro, e que ia ao gabinete do primeiro-ministro sem estar armado

Não andava armado?

Não, porque cheguei à conclusão que se não andasse lá armado, eles tinham muito mais respeito por mim. Era a única pessoa que não andava armado lá dentro, e que ia ao gabinete do primeiro-ministro sem estar armado.

Tinha um paraquedista que fazia a minha segurança, não precisava de mais ninguém. Não me preocupava com isso.


Saddam Hussein celebra reeleição em outubro de 1995. Foto: Bridgeman Images via Reuters Connect
Saddam Hussein celebra reeleição em outubro de 1995. Foto: Bridgeman Images via Reuters Connect

Quanto tempo demorou a reconstrução do Exército iraquiano?

Naquele momento ainda não havia um Exército nacional. Como disse, havia a polícia, mas que era exército. E havia um aquilo que era mesmo um Exército. A fusão dos dois foi sempre muito difícil.

É muito difícil fazer um comando conjunto. No nosso caso, quando fazemos comandos conjuntos com os americanos ou com os ingleses, mesmo aí, é difícil, porque há mentalidades diferentes trabalhemos na NATO há 50 anos.

Ao odiarem-se uns aos outros, os xiitas no poder aceitavam que apenas a sua tribo podia deter o exército. Os outros tinham uma parte muito pequenina e não tinham sequer o comando

Quando os outros estavam no comando, não lhes davam autoridade. Por exemplo, o chefe do gabinete era um general sunita, que não tinha autoridade nenhuma, porque era sunita.

Aquilo não funciona por postos, mas por tribos. O Iraque funciona por tribos, que fazem alianças umas com as outras, e não têm um Estado.

Winston Churchill tentou fazer dois Estados no Iraque. E tinha a ideia de fazer uma nação curda, juntar o Estado curdo. Tinha a ideia de fazer um Estado xiita a sul e outro sunita a norte. Mas ao fim de pouco tempo, decidiu juntar tudo.

Quando é que deu para fazer um Estado? Quando um homem forte, Saddam Hussein, se juntou ao partido Baas para formaram um Estado, que quase exterminou a religião e tentou desarmar as tribos.

No caso do Iraque, o Estado tem de se formar pela força para funcionar como um Estado. O Exército nunca tem força contra as tribos.


Destruição causada pela batalha de Mossul no Iraque. Foto: Amnistia Internacional
Destruição causada pela batalha de Mossul no Iraque. Foto: Amnistia Internacional

Em que estado está atualmente o Exército iraquiano?

Está exatamente como estou a descrever. É um Exército constituído pelos xiitas, que tem algum material, mas não muito. Os americanos não quiseram dar muito material, porque, a partir de determinada altura, os xiitas disseram aos americanos e à NATO para irem embora. Disseram que todos os estrangeiros tinham de ir embora. Foi nessa altura que voltei para Portugal.

Os americanos não quiseram sair e os iraquianos queixaram-se às Nações Unidas, que quase os obrigou a sair, mas eles ficaram.

Iraque? Sem aquela base americana, aquilo começa novamente numa guerra civil

Que presença militar americana existe hoje no Iraque?

Os americanos ficaram com duas bases, uma delas no aeroporto internacional. Sem aquela base americana, aquilo começa novamente numa guerra civil. A justiça é tribal, cada tribo tem uma milícia armada.

Falando há dias com um camarada meu que foi lá dar instrução, disse-me que os americanos enviaram 50 metralhadoras. Ao fim do dia, 25 já tinham desaparecido, tinham ido para as milícias.


Marines norte-americanos em Bagdad. Foto: Reuters
Marines norte-americanos em Bagdad. Foto: Reuters

Mas há um estado menos tribal no Irão face ao Iraque.

Cada tribo no Iraque tem uma milícia, e quando se juntam fazem exércitos. E as tribos são capazes de se opor ao Exército, porque este não tem tanta força como isso.

No Irão mais de metade da população são persas. Depois há os azeris, os curdos e há mais três ou quatro etnias.

No Irão existe a etnia curda, a que agora os americanos estão a dar poder. Mas os turcos nunca vão querer que eles sejam uma nação.

Os curdos já foram enganados várias vezes pelos americanos. Prometem-lhes um Estado e depois não lhes dão. Mas, aparentemente, estão a armar outra vez os "peshmerga" curdos do Iraque, onde têm uma grande autonomia. Na Síria, os curdos acabaram de perder a zona que tinham.

Há menos dificuldade em fazer uma unidade?

Pode ser que os persas consigam formar um governo. Naquela zona não há nações homogéneas como a nossa. O grande erro no Iraque foi não quererem ter feito um Estado Federal, com grande autonomia. Juntar os sunitas, xiitas e curdos foi um erro. Mas a Turquia nunca quer que os curdos tenham sequer a veleidade de ter uma nação.

Mas nos regimes anteriores a equação tribal foi contida em favor de centralismo.

Só pode ser assim, à força, com uma autoridade, com uma autocracia. Infelizmente, cheguei à conclusão que ali não funciona a democracia.

No Iraque, Saddam queria acabar com a religião e tinha feito universidades. Estava a criar um Estado que nunca tinha havido no Iraque.

O Xá conseguiu isso no Irão, à força. Foi uma autocracia apoiada pelos americanos, que foi substituída por outra. Os iranianos andam em autocracias há anos.


Nouri al-Maliki, antigo primeiro-ministro do Iraque. Foto: Ceerwan Aziz/EPA
Nouri al-Maliki, antigo primeiro-ministro do Iraque. Foto: Ceerwan Aziz/EPA

Havia uma real influência de Teerão sobre Bagdad?

Havia, através de Moqtada Al-Sadr. Quando este perdeu a guerra entre xiitas no Sul, foi-se refugiar no Irão. E a tribo de Al-Sadr ainda é pró-iraniana.

Havia o temor de um controlo do Irão sobre o Iraque na confusão da mudança de regime?

Não, porque o Al-Sadr tinha sido derrubado e tinha ido para o exílio. Os partidos políticos no Iraque eram das tribos.

Por exemplo, o representante dos católicos na Assembleia era o bispo. Saddam considerava os católicos como uma tribo e os partidos são tribais. Quando Moqtada Al-Sadr voltou do Irão, e já estando no Iraque há sete ou oito anos, o partido dele foi para a Assembleia.

O seu papel na Assembleia é complicado, porque eles não aceitam a democracia. Uma democracia que assenta em partidos tribais não funciona. O Estado é a última coisa que se junta.


Cartaz em Teerão com os aiatolás Ruhollah Khomeini, Ali Khamenei e Mojtaba Khamenei. Foto: Abedin Taherkenareh/EPA
Cartaz em Teerão com os aiatolás Ruhollah Khomeini, Ali Khamenei e Mojtaba Khamenei. Foto: Abedin Taherkenareh/EPA

Parece haver uma expetativa de padrões de democracia do tipo ocidental nos jovens do Irão.

Nós achamos que eles querem isso, mas não sei se é assim. Há muita propaganda. A ideia que tenho é que, atualmente, com internet, é mais fácil terem acesso à parte ocidental, olharem para cá e ansiarem por ter algo semelhante. Mas uma coisa é sonhar, outra é conseguir ter.

Tem de haver uma ligação sempre com a instituição militar?

No Irão a instituição central são os Guardas da Revolução. Nem sequer é o Exército. A guarda pretoriana do regime é a que está a resistir de forma interessante.

Os americanos sonham que está toda a gente com computadores e dizem ter destruído centros de comando e controlo e transmissões.

É verdade que destruíram, mas o planeamento estava feito para que as unidades tivessem autonomia. Ou seja, neste momento, não havendo comando, estão a realizar o planeamento que tinham feito há 20 anos.

Como lhes tiraram a comunicação, eles estão a cumprir o planeamento à risca. E estão a cumprir bem.

Para fazer uma intervenção com tropas no terreno, a exemplo do Iraque, os Estados Unidos precisariam de cerca de 400 mil homens, com material

Será possível aos americanos "virar o jogo" pela via militar?

É uma hipótese. Mas para isso é preciso que a Guarda Revolucionária se renda, pois ela suporta o regime. Como em qualquer autocracia, os exércitos são o elemento privilegiado e que sustentam a autocracia.

Faz sentido a lógica de não mudar de aparelho político e militar e apenas decapitar uma liderança para promover uma mudança de regime?

Com um tapete de bombas, como vão conseguir uma mudança de regime sem destruir o aparelho do Estado? Parece-me uma impossibilidade, a não ser que promovam a guerra civil.


Guarda Revolucionária do Irão em exercícios na zona do Estreito de Ormuz. Foto: Sepahnews/EPA
Guarda Revolucionária do Irão em exercícios na zona do Estreito de Ormuz. Foto: Sepahnews/EPA

É possível promover uma mudança num país tão grande sem "botas no terreno"?

Para fazer uma intervenção com tropas no terreno, a exemplo do Iraque, os Estados Unidos precisariam de cerca de 400 mil homens, com material. Não têm esses homens na região. Teriam de fazer uma ponte aérea, que costuma demorar quatro a seis meses.

Trump estava convencido que ganhava a guerra como ganhou na Venezuela, mas eles são xiitas, habituadíssimos a andarem em guerra. É outra civilização, têm resiliência e capacidade de sofrimento.

Não haverá uma cisão geracional no Irão, mais secular?

Pode haver essa cisão, mas será difícil. No Irão o quadro não é tribal, mas étnico. Os persas é que mandam. Têm uma autocracia que controla através da Guarda Revolucionária, das Forças Armadas e de indivíduos a andar de moto, que controlam pelo terror o resto da população.

Para muitos deles, a religião é mesmo fundamental. E a Sharia é fundamental. Eles não acham que aquilo seja uma autocracia. Aquilo é a religião deles. Nós consideramos que aquilo é mau, mas eles não acham.

Quando estava no Iraque, uma vez peguei num Corão que estava em frente a um indivíduo. Pedi para o folhear e essa pessoa ficou danada comigo e tirou-me o Corão da mão. Disse-lhe que não queria fazer mal nenhum. Ele explicou-me que o próprio livro é sagrado. Comparo aquilo com a nossa hóstia, que para nós é sagrada.


Autocarros incendiados em protesto contra o Governo em Teerão, no Irão (21/012026). Foto: Abedin Taherkenareh/EPA
Autocarros incendiados em protesto contra o Governo em Teerão, no Irão (21/012026). Foto: Abedin Taherkenareh/EPA

Como veem os americanos nessa região?

Sempre que têm feito mudança de regime, os americanos fazem mortos, gastam muito dinheiro, mas não tem dado em nada. Vietname, Coreia, Iraque, Afeganistão - há algum sítio onde tenha resultado?

Eles são odiados. A única coisa que unia os xiitas e os sunitas era o ódio que tinham os americanos. Nunca os viram como libertadores e se forem para a Pérsia, é igual. E quando foram para o Afeganistão, foi igual.

E como veem os europeus?

Não acham que sejamos um perigo, que sejamos alguém que os vai "colonizar". Os persas são muito orgulhosos. Se os americanos quiserem impor alguma coisa contra eles, vai funcionar o orgulho nacional e a independência nacional de qualquer pessoa. O que está a acontecer na Venezuela, por exemplo, não é possível no Irão.

Eles querem ser independentes, não querem ser um Estado vassalo. O ódio aos americanos é grande naquela zona do globo.


É claro que os americanos compram e montam bases no Golfo, e pagam por elas. Mas desde que os americanos não interfiram na sua soberania, não há problemas para os árabes.

Neste momento, em termos estratégicos, a jogada de Trump com os Acordos de Abraão dá jeito, porque pôs o Irão contra os árabes e os árabes agora vão unir-se aos americanos.

Agora que o Irão respondeu, os árabes vão aliar-se mais aos americanos, mas apenas por interesse.

Mas não tem havido uma guerra entre Arábia Saudita e o Irão.

O Irão quis bloquear o estreito de Ormuz, que aliás Afonso Albuquerque conquistou por duas vezes. Mas pode ter cometido um erro estratégico ao atacar os países do Golfo.

Teerão pensou que, ao fazer isto aos árabes, estes iam voltar-se contra os americanos para acabar com a guerra rapidamente, porque ficavam sem capacidade de exportar gás e petróleo, a perderem todo o turismo e a credibilidade internacional de país seguro, para o qual as grandes fortunas iam viajar.

Eram paraísos fiscais, onde essas pessoas estavam e viviam maravilhosamente bem. Esse sítio perdeu-se para sempre. Para ser credível em termos turísticos, chamar as grandes fortunas e ter grandes praças financeiras, a coisa está muito periclitante.

Não sei se a curto prazo o que vai acontecer, porque diz-se que os próximos alvos iranianos podem ser as estações de dessalinização da Arábia. Sem turismo, sem petróleo e sem água, é preciso parar a guerra imediatamente.


Incêndio em mesquita durante protestos contra o governo em Teerão, Irão (21/01/2026). Foto: Abedin Taherkenareh/EPA
Incêndio em mesquita durante protestos contra o governo em Teerão, Irão (21/01/2026). Foto: Abedin Taherkenareh/EPA

O conflito no Irão pode desestabilizar o Iraque?

Pode desestabilizar o Iraque, tal como o Azerbaijão ou o Paquistão. Já Adriano Moreira chamava a atenção para toda aquela cintura que vai dali até à China. Há quanto tempo é que os iranianos são considerados pelos americanos como parte de um "eixo do mal"?

Desde que o Xá da Pérsia se foi embora que os americanos ficaram sem aquelas zonas estratégicas e sem aquilo que os portugueses também já tiveram, ou seja, o controlo de grande parte do globo. Desde essa altura, os americanos começaram a tentar reaver aquilo.

Tenho a certeza de que têm uma arma nuclear escondida

Está surpreendido com a capacidade de retaliação iraniana?

Os iranianos estão preparados para uma guerra desde que Bush os declarou como membros do "eixo do mal". Por isso, eles querem uma bomba nuclear a toda a força. Sabem que um Estado, quando adquire arma nuclear, já não é passível de ser invadido, como foi o caso da Coreia.

Tenho a certeza de que têm uma arma nuclear escondida.

Não sei se é para atacar Israel, mas é para não serem atacados, de certeza. Israel tem armamento nuclear, não quer que os outros tenham.

Aliás, Saddam atacou o Irão a soldo dos americanos. Os americanos, durante anos, andaram a financiar Saddam, para fazer a guerra contra o Irão, que não foi ganha pelo Iraque.

Mas o Irão nunca teve ambições territoriais como o Iraque.

O Irão não teve, mas o Iraque foi instigado pelos Estados Unidos, que queriam desestabilizar o Irão. Portanto, eles estão em conflito, direto ou indireto, há 30 ou 40 anos. Os iranianos estão preparados para isto.


Foto: Tolga Bozoglu/EPA
Foto: Tolga Bozoglu/EPA

Está à espera de um fenómeno de invasão com os curdos do tipo Aliança do Norte do Afeganistão?

O Curdistão é uma província com uma autonomia grande em relação ao Iraque. De qualquer maneira, o Presidente da República é curdo. Quando fazia os relatórios diários ao primeiro-ministro Maliki, os turcos bombardeavam os curdos todos os dias. Eles não querem que os curdos sejam uma nação independente, porque um terço da Turquia também é curda.

Os americanos têm de entrar pela zona curda. Será mais fácil entrarem por aí e, por isso, estão a armá-los e a tratá-los bem. A zona curda contém os inimigos do Irão. Os Estados Unidos, mais uma vez, vão pedir para entrar pelo Curdistão iraquiano. É o único sítio que têm para entrar no terreno.

Poderão os aiatolás aceitar uma posição menos central no Irão para manter alguma influência no país?

Não sei, por uma razão muito simples. O Presidente da República era um indivíduo que estava a tentar internamente moderar os aiatolás e a Guarda Revolucionária, mas não conseguiu.

Era o indivíduo mais moderado de todos, aquele que os Estados Unidos tinham de ter apoiado. E tinham de ter apoiado as jogadas internas dele, por ser um indivíduo moderado.

As informações existentes apontam para que a Guarda Revolucionária esteja a comandar e que mesmo os aiatolás estão já a desempenhar um papel secundário. Portanto, têm de decapitar completamente a Guarda.

A Guarda Revolucionária será a expressão de um secularismo autoritário ou de um radicalismo teológico?

Terá as duas coisas, mas talvez mais um secularismo autoritário. Mas naqueles países as coisas confundem-se.

Há com certeza guardas revolucionários que são fundamentalistas. A religião naqueles sítios condiciona a vida. E isso é algo que aqui não percebe, porque também nos descristianizámos.


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