Violência na Cisjordânia "é constante". Portuguesa atacada foi forçada a ver colonos israelitas agredirem sexualmente pastor palestiniano

Era a última noite de uma missão de dois meses e transformou-se num pesadelo. Uma portuguesa conta como dezenas de colonos israelitas espancaram e humilharam uma família palestiniana na Cisjordânia. Em dois meses no terreno, a mulher, de 25 anos, viu o nível de violência e assédio agravar-se diariamente. Desde o início do mês, colonos mataram pelo menos sete palestinianos. “É difícil voltar à vida aqui na Europa, sabendo que aquilo continua a acontecer e que a maior parte de nós não faz nada.”

20 mar, 2026 - 06:30 • Catarina Santos



Jornalista Catarina Santos falou com portuguesa na Cisjordânia

Era uma noite como tantas outras para Rita (nome fictício). Há uma semana, por volta da 1h da manhã, a portuguesa estava no seu turno de vigia, junto do acampamento de uma família palestiniana da Cisjordânia, quando ouviu os cães a ladrar. Os animais costumam estar presos à volta da propriedade, para darem sinal quando alguém se aproxima.

Ao longe, Rita viu membros da família a acordar e a tentar perceber o que se passava, com lanternas. Por essa altura, ainda acreditava que não fosse nada, que os cães estivessem apenas a “ladrar uns aos outros”. Não estavam.

Aquela deveria ser a última noite de uma missão de dois meses. A mulher de 25 anos, que prefere manter o anonimato, vive desde criança fora de Portugal, num país da Europa.

Passou dois meses integrada como ativista no Internacional Solidarity Movement (ISM), uma organização palestiniana que promove ações não-violentas de resistência à ocupação israelita da Cisjordânia. O seu papel era garantir uma “presença de solidariedade” junto de comunidades que se sentem ameaçadas por colonos.

“Ficamos na casa das famílias para sermos testemunhas da violência que pode acontecer e para documentar o que acontece. E apenas porque as famílias nos pedem para estar lá, essa é a maior razão”, conta à Renascença.


Naquela noite estava em Khirbet Humsa, uma pequena franja de terra fértil onde vive uma família de 12 pessoas, a este da povoação de Tubas, no norte do Vale do Jordão. Já ali chegaram a viver centenas de famílias beduínas. Agora poucas restam. Ali perto, crescem os colonatos de Beka’ot e Roi.

Há quem use o termo “presença protetora” para o trabalho dos ativistas junto destas comunidades, acreditando que a circunstância de estar gente de fora no terreno – ainda para mais cidadãos internacionais – pode dissuadir as agressões. Rita não acredita que tenha esse efeito. “Os colonos que assediam as famílias com quem nós trabalhamos sabem que nós estamos lá, vários deles já nos viram várias vezes. Eu não acho que mude a situação”, afirma, convicta. "Apenas estamos lá para fazer documentação e para eles saberem que há alguém a ver o que eles fazem, que não são eventos isolados. Mas fora isso, pelo menos no tempo que eu passei lá, não diria que previna assédio ou violência.”

E naquela noite não preveniu, de todo.

De repente, Rita percebeu a razão para o sobressalto dos cães. “Ouvi montes de gritos e vi um grupo de colonos com a cara tapada e com paus.” Correu para a tenda onde dormia outra ativista do ISM – uma jovem norte-americana que deveria assegurar o turno seguinte – e um homem palestiniano que pertencia à comunidade. Só teve tempo de os acordar e um grupo de colonos já estava em cima deles. “Depois disso fui empurrada para o chão, eles estavam todos a bater-nos com paus e pontapés e com as mãos."

Inicialmente, Rita diz que não via nada, só conseguia ouvir os gritos de dor dos parceiros a cada pancada. “Estava deitada no chão, de barriga para baixo, e eles amarraram-me as mãos atrás das costas e roubaram-me o telemóvel.” Perguntaram repetidamente o que estava a fazer com o aparelho, mas Rita nem tinha tido tempo para tentar gravar o que se passava.


Amarraram-lhes os pés e atiraram-lhes água para cima. “E depois disso levantaram-me pelo cabelo para eu me sentar e para eu ver que eles estavam a agredir o homem palestiniano sexualmente.” Obrigaram as duas ativistas a assistir.

Tinham baixado as calças do homem, rasgado a roupa interior com uma faca de caça e atado uma abraçadeira com força nos genitais, contou o próprio, Suhaib Abualkebash, ao New York Times. “Pensei que ia morrer, pensei que era o fim”, descreveu o pastor de 29 anos.

“Depois disso eu acho que caí ao chão outra vez, porque era difícil levantar-me, pela maneira como eles me tinham amarrado”, conta Rita. Como não se conseguia levantar, foi arrastada para fora da tenda pelos pés. “Levantaram-me pelo cabelo e um dos colonos estava a segurar a minha amiga pelo cabelo também.”

Enquanto isso, Suhaib Abualkebash era humilhado pelo acampamento. “Estavam a exibi-lo em frente da família, à volta da propriedade.”


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“Desesperada” e tentando encontrar uma forma de “acabar com a violência”, Rita recorda que lhes perguntou o que queriam. "Eles disseram que nos queriam matar.”

Arrastaram as duas ativistas para outra construção. Aquilo a que chamam “tenda” não é apenas um abrigo de pano. São “estruturas semi-permanentes", construídas com o que houver à mão (“pedra, metal...”).

“Perguntavam-nos por que é que estávamos lá, disseram-nos que nós tínhamos que nos ir embora, coisas assim”, descreve. “E disseram que eles eram judeus e que esta terra era deles.”

Atiraram a norte-americana para dentro de uma tenda e vendaram Rita com um Keffiyeh (lenço tradicional palestiniano). Percebeu mais tarde que aquele pedaço de tecido estava cheio de sangue. Pertencia ao avô da família, um homem que teria “entre 70 e 80 anos”, e que tinha sido “atacado na cabeça com uma pedra”.


Empurraram-na para dentro da estrutura, onde estavam várias outras pessoas. “Disseram ‘vai lá para dentro com todos os árabes’.” E recomeçaram “a bater, a atirar água por cima das pessoas, [a dar] pontapés na cabeça, a pisar”.

Rita conta que, sendo palpável o desespero geral, não ouvia murmúrios nem gritos de adultos. “Mas conseguia ouvir as crianças a chorar – e a orar também.” A mais velha, acredita, teria cerca de 11 anos, “mas a maior parte das crianças tinha menos de sete anos”.

A mais nova, Manar, tinha apenas quatro meses de idade. É filha de Suhaib Abualkebash, o pastor agredido sexualmente. Ao jornal israelita Haaretz, a mãe da bebé, Niama Abualkebash, contava que, depois do ataque, foi dar com a filha escondida no berço. “Levantei o cobertor e ela sorriu para mim. Suspirei de alívio e disse ‘É uma mensagem de Alá’.”

Durante toda a hora que durou o ataque, a mulher conta que receou que a bebé começasse a chorar. A filha de três anos tinha sido arrastada da tenda em pijama e atirada para o chão. O mesmo disse o marido ao New York Times. “Graças a Deus ela não chorou, porque eles batiam em todas as crianças que choravam.”

O cenário foi repetido por várias estruturas do acampamento. “Separaram-nos em grupos para aterrorizar todos os membros da família, ameaçaram as mulheres que as iam violar e que iam raptar as raparigas, as crianças pequeninas, que iam crescer com eles. Ameaçaram que da próxima vez iam fazer isso.”


Idoso é assistido depois de colonos espalharem violência em Khirbet Humsa, no norte do Vale Jordão, Cisjordânia. Foto: Jordan Valley Activists
Idoso é assistido depois de colonos espalharem violência em Khirbet Humsa, no norte do Vale Jordão, Cisjordânia. Foto: Jordan Valley Activists

A isto Rita não assistiu, contaram-lhe depois. Só teve noção da dimensão do que ali se passou mais tarde. Ao todo, seriam entre 20 e 30 colonos, que pareceram à portuguesa ter “entre 18 e 30 anos”, e que falavam hebraico, árabe e inglês.

“Também soltaram 350 ovelhas, o valor em dólares é 750 mil dólares, muito dinheiro, muito dinheiro.” Comunidades beduínas como aquela, no Vale do Jordão, dependem inteiramente da pastorícia e agricultura para sobreviver.

A ativista conta que, antes de se irem embora, os colonos ainda roubaram os anéis das duas ativistas, ameaçando partir-lhes os dedos. Tal como já tinham roubado as suas malas, carteiras, telemóveis e documentos, incluindo o cartão de cidadão e o passaporte de Rita.

Quando se afastaram, alguns elementos da família chamaram outros membros da comunidade, “incluindo vários homens jovens, que vieram com paus para proteger a família” e para tentar ir atrás dos colonos e recuperar o gado perdido. Rita diz que foram impedidos de o fazer pelas forças de segurança israelitas, que chegaram ao local cerca de 30 minutos depois do ataque.

"O exército proibiu-os de ir atrás dos colonos. Ficaram retidos no local, para não saírem”, afirma Rita. Quanto aos soldados, “não fizeram nada, apenas ficaram lá no mesmo sítio, não foram à procura dos colonos, ficaram só na propriedade”, garante.

Foram esses soldados israelitas a prestar os primeiros socorros aos feridos. De acordo com um comunicado do ISM, só passadas três horas uma ambulância do Crescente Vermelho conseguiu chegar ao local, devido a alegados bloqueios do exército no caminho. Seis pessoas foram levadas para o hospital com ferimentos ligeiros, incluindo as duas ativistas estrangeiras.


Rita não voltou à comunidade. Entrou em contacto com a representação de Portugal em Ramallah, na Cisjordânia, e explicaram-lhe como poderia sair dali. "Fizeram-me documentos de emergência, deram-me uma maneira de eu poder sair, acompanhada por um diplomata português, que por coincidência estava a viajar na terça-feira.” Esse detalhe fez toda a diferença, acredita. "Pude passar pela fronteira com ele, o que fez tudo muito mais fácil, porque a fronteira israelita é um sítio muito complicado para os ativistas passarem.”

Citadas pelo Haaretz, as Forças de Defesa de Israel (IDF) esclareceram que foram recolhidos "testemunhos, provas e indícios" e que foi iniciada uma "busca pelos suspeitos". Investigadores forenses terão sido chamados ao local e decorre agora uma investigação ao sucedido, dizem as autoridades israelitas, acrescentando que "condenam veementemente atos de violência e crime e continuarão a trabalhar para manter a segurança dos residentes".

A Renascença questionou as IDF e o governo israelita sobre o decorrer da investigação, se os indivíduos envolvidos no ataque foram identificados, que consequências poderão enfrentar e o que está a ser feito pelas autoridades para travar o aumento exponencial de violência na Cisjordânia. Não recebeu ainda qualquer resposta.

"Constatámos recentemente um aumento de atos criminosos de caráter nacionalista, alguns dos quais dirigidos diretamente contra os nossos soldados e a população civil", disse esta quarta-feira o chefe de Estado-maior do Exército israelita. Eyal Zamir afirma que esses ataques são "inaceitáveis, moral e eticamente", mas defende que são perpetrados por “uma minoria” que não representa o movimento dos colonos.

Mais de 500 mil israelitas vivem na Cisjordânia, excluindo Jerusalém Oriental, entre cerca de três milhões de palestinianos, em colonatos que as Nações Unidas consideram ilegais à luz do direito internacional.


Cisjordânia, norte do Vale do Jordão, retratado por "Rita" (nome fictício), ativista portuguesa
Cisjordânia, norte do Vale do Jordão, retratado por "Rita" (nome fictício), ativista portuguesa
Colonato na Cisjordânia, retratado por "Rita" (nome fictício), ativista portuguesa
Colonato na Cisjordânia, retratado por "Rita" (nome fictício), ativista portuguesa


Porquê ir? "Não consigo ignorar que estas coisas estão a acontecer"

Rita nunca tinha estado na Cisjordânia. Nunca tinha tido contacto com a ISM. O impulso que a levou àquelas paragens, diz, foi moral. "Eu acredito num mundo em que a Palestina é livre e acredito que todas as pessoas do mundo merecem viver em liberdade e sem ter as vidas constrangidas por violência e assédio.”

Procurou então uma forma de contribuir. "Não consigo viver a minha vida a ignorar que estas coisas estão a acontecer. Não é possível eu sentir-me satisfeita com uma vida em que isto acontece e eu não faço nada.”

O plano foi sempre passar lá dois meses e regressar. Atribui a um “timing de azar” que a última noite tenha sido de tamanha violência. “Tudo o que aconteceu foram coisas que eu já sabia que estavam a acontecer, mas o sentimento de ser testemunha daquelas coisas foi muito diferente do que eu estava à espera”, desabafa. "Não há descanso nunca, há problemas todos os dias, grandes e pequenos, às vezes pode não haver violência tão grave como houve naquela noite, mas é constante.”

A ativista dá como exemplo "assaltos diários, a constante ameaça de violência, a ameaça de que as casas sejam demolidas”, o ataque a colheitas, a destruição da ração dos animais e dos canais de água.

Durante os dois meses que passou a saltar entre várias comunidades, sempre a norte do Vale do Jordão, viu a situação agravar-se no terreno. “Piorou, piorou muito. Eu fiz um relato, até, no meu último dia, [sobre] uma lista de famílias com quem eu tinha ficado, e metade delas já não viviam lá, foram deslocadas, depois de anos e anos de assédio, de violência [levada a cabo] pelo exército e pelos colonos.”

Desde o início do mês, os colonos já mataram sete palestinianos. De acordo com a agência da ONU para os Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla em Inglês) entre 7 outubro de 2023 e 7 de março de 2026 foram mortos 1.062 palestinianos na Cisjordânia, incluindo 231 crianças.


Um relatório das Nações Unidas desta semana afirma que, no último ano, foram expulsos mais de 36 mil palestinianos na Cisjordânia e houve um aprofundamento do “ambiente coercivo”, resultando na “consolidação da presença ilegal de colonatos”.

O documento do Alto Comissariado para os Direitos Humanos detalha 1732 episódios de violência exercida por colonos entre novembro de 2024 e outubro de 2025, em comparação com 1400 no período homólogo anterior. Estes incidentes vão desde assédio constante, intimidação e destruição de casas e terrenos de cultivo.

“A violência de colonos continuou de forma coordenada, estratégica e largamente incontestada, com as autoridades israelitas a desempenhar um papel central na direção, participação ou apoio a esta conduta”, afirmam os relatores.

Ainda em fevereiro, o governo israelita aprovou um conjunto de medidas que alteram profundamente o regime de propriedade e administração de terras na Cisjordânia ocupada, facilitando a aquisição de terras por colonos judeus. “Vamos continuar a matar a ideia de um Estado palestiniano”, afirmou na altura o ministro das Finanças israelita, Bezalel Smotrich, que tem responsabilidades governamentais sobre a política de colonatos.

"Não haverá um Estado palestiniano", afirmava o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em novembro, durante uma visita ao colonato de Ma’ale Adumim, na Cisjordânia ocupada, onde estão previstas milhares de novas habitações.

O relatório do Alto Comissariado para os Direitos Humanos elenca todas estas afirmações e ações do governo israelita e conclui que “o deslocamento na Cisjordânia ocupada, que coincide com o deslocamento alargado de palestinianos em Gaza, pelas mãos do exército israelita, parece indicar uma política concertada de Israel de transferência forçada massiva pelo território ocupado, com o objetivo de deslocamento permanente, levantando preocupações de limpeza étnica.”

Rita regressou a casa, "bem e em segurança”, como afirmava o comunicado enviado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros às redações. Mas admite que a rotina normal demore a voltar a fazer sentido. “É difícil voltar à vida aqui na Europa, sabendo que aquilo continua a acontecer, e que a maior parte de nós não faz nada.”


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