O fator extrema-direita
Há uma variável que pode ainda baralhar os cálculos de qualquer dos lados: o partido Nossa Pátria (Mi Hazank), que se posiciona à direita do próprio Fidesz e que, pela primeira vez desde as legislativas de 2022, ameaça voltar a entrar no parlamento.
Duas sondagens de institutos independentes, o 21 Research Centre e o Zavecz Research, mostraram que o Nossa Pátria é o único partido, além do Tisza e do Fidesz, com hipóteses reais de ultrapassar o limiar mínimo de 5% dos votos para entrar na assembleia. O 21 Research Centre coloca-o nos 5% entre os eleitores decididos; o Zavecz nos 4%.
Não é a primeira vez que o partido surpreende. Nas legislativas de 2022, o Nossa Pátria superou todas as sondagens e entrou no parlamento com cerca de 6% dos votos. Nas europeias de 2024, cresceu ainda mais, atingindo quase 7%.
O partido foi fundado em 2018 por László Toroczkai, então vice-presidente do Jobbik, depois de ser expulso desse partido quando a sua liderança decidiu abandonar as posições mais radicais para tentar chegar ao eleitorado moderado. Toroczkai recusou essa viragem e levou consigo os elementos mais extremistas.
A liderança do Nossa Pátria tem um historial de comportamentos e retórica discriminatória, e alguns dos seus membros tiveram ligações passadas a grupos como o movimento neonazi Pax Hungarica.
Toroczkai, com 48 anos, rejeita a classificação de extrema-direita. Prefere descrever o seu partido como "soberanista", por oposição às "forças globalistas". A plataforma do Nossa Pátria é anti-União Europeia, anti-imigração e anti-vacinação.
Em matéria de política externa, o Nossa Pátria situa-se ainda mais próximo de Moscovo do que o próprio Orbán. Durante a invasão russa da Ucrânia, o partido referiu-se à Ucrânia como um "país hostil" e apelou a que Kiev cedesse território à Rússia "em nome da paz".
Quanto à aritmética eleitoral, Toroczkai foi claro sobre os seus objetivos. "O meu objetivo é que o Mi Hazank fique numa posição em que nem o Fidesz nem o Tisza tenham poder absoluto", disse à “Reuters” durante um evento de campanha.
A hipótese mais discutida é a de que, num cenário em que o Fidesz necessite de apoio externo para governar, o Nossa Pátria poderia sustentar informalmente um governo minoritário de Orbán sem integrar formalmente a coligação.
O que está em jogo além da Hungria
Os resultados da eleição de 12 de abril terão repercussões muito além de Budapeste. Orbán é o modelo de referência para a direita radical europeia.
Desvalorizando a liderança do seu rival nas sondagens, Orbán disse que o Fidesz deve ter como objetivo superar a sua vitória nas eleições de 2022: "Temos de ganhar, não como há quatro anos, mas melhor. Temos de obter uma vitória histórica, porque o próximo governo terá uma responsabilidade histórica."
Do outro lado, Magyar é igualmente claro sobre o alcance do que está em jogo. "Milhões de húngaros tomarão uma decisão e encerrarão as duas décadas mais corruptas da história do país, que fizeram da Hungria o Estado-membro mais pobre da União Europeia", afirmou nos últimos dias de campanha.
Ao fim de 16 anos, a Hungria está, pela primeira vez, dividida sobre quem vai ganhar.