Santa Cruz do Douro e a trasladação de Eça de Queiroz. "A alma do escritor está aqui"

Na povoação sobranceira ao Douro, assiste-se ao regresso da urna de Eça de Queiroz a Lisboa, para receber honras de Panteão Nacional, com um misto de sentimentos. Entre a alegria de uns e a mágoa de outros, há quem acredite que a trasladação não leva a alma do escritor: "Era ali que ele estava, é ali que ele continua para mim."

07 jan, 2025 - 06:30 • Miguel Marques Ribeiro



No último fim-de-semana antes da trasladação, a Fundação Eça de Queiroz organizou uma homenagem ao escritor que contou com a presença da ministra da Cultura, Dalila Rodrigues. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
No último fim-de-semana antes da trasladação, a Fundação Eça de Queiroz organizou uma homenagem ao escritor que contou com a presença da ministra da Cultura, Dalila Rodrigues. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR

Do lado de fora do cemitério de Santa Cruz do Douro, nenhuma indicação lança a suspeita de que ali estão depositados os restos mortais de Eça de Queiroz.

“É na parte de baixo do cemitério. Vamos por aqui. Temos que descer as escadas. Depois, fica aqui à esquerda”, explica Elsa Vieira, que acede a mostrar o jazigo de família para onde os restos mortais do escritor foram transferidos, desde Lisboa, em 1989.

Tomando o sentido inverso, Eça de Queiroz vai ser trasladado esta quarta-feira para o Panteão Nacional. Em Santa Cruz do Douro, há quem ainda não se tenha habituado à ideia de ver partir uma das suas referências mais ilustres.

“Devia manter-se igual”, desabafa Elsa Vieira, enquanto lava o jazigo de um familiar no cemitério. “[Por causa do Eça] temos aqui visitas."

"Eu nasci aqui, ouvi sempre dizer: ‘O Eça de Queiroz é ali’ " - Maria Fernanda Sala

Elsa acaba por conceder que, em última instância, “a família é que decide o que fazer”, mas, para alguns habitantes, o sentimento de perda parece difícil de ultrapassar.


Os restos mortais de Eça de Queiroz foram transferidos para Santa Cruz do Douro, para o jazigo da família, em 1989. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
Os restos mortais de Eça de Queiroz foram transferidos para Santa Cruz do Douro, para o jazigo da família, em 1989. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
A trasladação do cemitério de Santa Cruz do Douro, em Baião, para o Panteão Nacional foi envolta em polémica, devido à oposição judicial de uma parte dos descendentes do escritor. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
A trasladação do cemitério de Santa Cruz do Douro, em Baião, para o Panteão Nacional foi envolta em polémica, devido à oposição judicial de uma parte dos descendentes do escritor. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR


Maria Fernanda Sala, proprietária do café Katekero, situado a umas centenas de metros do cemitério, fala com orgulho da relação do escritor com a terra.

“Eu nasci aqui, ouvi sempre dizer ‘o Eça de Queiroz é ali’. É uma coisa de que nós temos orgulho”, afirma. Pela porta do negócio que abriu com o marido há 40 anos entra “muita gente que vem ver" o escritor.

“Saem na estação de Aregos e vêm a pé, grupos de estudantes, para ver o Eça de Queiroz. Muitos não sabem onde é e eu explico”, afirma a mulher, que está contra a retirada dos restos mortais do escritor da povoação.


“Eu acho muito mal tirá-lo dali. A maioria das pessoas é contra tirá-lo dali”, diz com convicção. “O que é que vão levar? Terra. Não vão levar mais nada, que já nem existe, já fez mais de cem anos”, diz.

Um escritor que atravessa gerações

Na localidade, de uma forma ou de outra já todos ouviram falar de Eça. Maria Luísa Oliveira, proprietária de um mercado local, leu pela primeira vez "A Cidade e as Serras" ainda muito jovem.


Maria Luísa Oliveira leu pela primeira vez "A Cidade e as Serras" ainda muito jovem, através da biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
Maria Luísa Oliveira leu pela primeira vez "A Cidade e as Serras" ainda muito jovem, através da biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR

“Quando eu tinha uns treze ou catorze anos, começou a vir por aqui a biblioteca itinerante, que era da Calouste Gulbenkian”, recorda.

"Esta terra ficou mais evoluída, mais conhecida, mediante o que ele falou no livro ['A Cidade e as Serras']" - Maria Luísa Oliveira

A primeira leitura não foi propriamente agradável. “Na altura, achei um bocado maçudo, para dizer a verdade. Mas depois fui-me aperfeiçoando e comecei a compreender que, de facto, esta terra ficou mais evoluída, mais conhecida, mediante o que ele falou no livro. Toda a gente sabe que comeu aqui o arroz das favas, o frango acerejado e tudo o que vem no livro.”

A passagem do escritor por Tormes, em Santa Cruz do Douro, no concelho de Baião, marcou profundamente a história da terra e até a sua toponímia: “Temos aqui o Eça de Queiroz, temos aqui a Fundação do Eça, temos o Caminho de Jacinto que vem da estação para cima, a pé, onde ele passou a cavalo, como diz no romance [‘A Cidade e as Serras’].”


Este sentimento de ligação ao autor atravessa gerações. Inês Monterroso, de 16 anos, vive na Casa de Tormes com a família, sede da Fundação Eça de Queiroz (LEQ).

“A alma do escritor está aqui, apesar de ele ter passado por aqui poucas vezes. Mas a sua alma está aqui, o seu espólio, as suas coisas estão aqui. Por isso, acho que a Casa de Tormes acaba por ser um bocadinho a casa do Eça”, afirma a jovem.

Processo marcado pela divisão familiar e política

A trasladação dos restos mortais motivou um longo processo judicial, desencadeado por um grupo de descendentes do escritor, que não se reviu no processo iniciado pelo atual presidente da FEQ, Afonso Reis Cabral, trineto de Eça e ele próprio um destacado escritor no panorama nacional.


A paisagem de Tormes, em Santa Cruz do Douro, inspirou o livro "A Cidade e as Serras", de Eça. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
A paisagem de Tormes, em Santa Cruz do Douro, inspirou o livro "A Cidade e as Serras", de Eça. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
A passagem do escritor pela povoação do concelho de Baião marcou profundamente a história da terra e até a sua toponímia. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
A passagem do escritor pela povoação do concelho de Baião marcou profundamente a história da terra e até a sua toponímia. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR


A cerimónia de trasladação chegou a estar marcada para setembro de 2023, mas teve de ser adiada e só em outubro de 2024 veio a autorização definitiva para que a concessão de honras de Panteão Nacional pudesse avançar.

"As pessoas sentem-se de certa forma defraudadas e até consideram um autêntico roubo" - António Fonseca

Famoso pelas polémicas literárias que levantou em vida, muitas delas reunidas na obra “As Farpas”, decidiu o destino que o escritor nascido na Póvoa de Varzim em 1845 continuasse a desencadear controvérsia 125 anos depois da sua morte. Em Santa Cruz do Douro, a disputa assumiu mesmo contornos sociais e políticos.

O anterior presidente da junta de freguesia de Santa Cruz do Douro e S. Tomé de Covelas, o social-democrata António Fonseca, tem sido um dos rostos da oposição à trasladação. “As pessoas sentem-se de certa forma defraudadas e até consideram um autêntico roubo”, garante.

Uma manifestação foi organizada este domingo, com a presença de algumas dezenas de pessoas, na mesma altura em que a urna do escritor esteve exposta na sala de entrada da Casa de Tormes — oportunidade para os locais prestarem uma última homenagem, antes da sua partida para Lisboa.


Para António Fonseca, que integra atualmente a oposição à gestão socialista da autarquia, está em causa uma valorização de Lisboa em detrimento do interior do país.“Há um mundo que se sente muito magoado por ter sido abandonado e por ainda lhe roubarem o pouco que tem. Há anos que o interior está abandonado”, declara.

Jazigo votado ao esquecimento em Lisboa

A urna de Eça de Queiroz chegou à pequena povoação encostada ao rio Douro em 1989, depois de ter sido descoberta num dos muitos jazigos abandonados no Cemitério do Alto de S.João, em Lisboa.

Este desejo de trazer os restos mortais para "junto dos seus", como se lê na lápide, em Santa Cruz do Douro, foi impulsionado pela sobrinha, Maria da Graça Salema de Castro, que criou, também, na Casa de Tormes, a Fundação Eça de Queiroz, que reúne grande parte do espólio do escritor e a da sua esposa.


António Fonseca é um dos rostos da oposição à trasladação do escritor para Lisboa. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
António Fonseca é um dos rostos da oposição à trasladação do escritor para Lisboa. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR

“Ninguém aceita de bom grado que depois de Eça de Queiroz ter estado 90 anos em Lisboa, depois de ter estado abandonado e o jazigo estar prestes a ir a hasta pública para ser vendido, ninguém entende esta acção”, avança António Fonseca.

"Nova viragem" para a Fundação

Para o presidente da autarquia de Baião, o socialista Paulo Pereira, o protesto de parte da população de Santa Cruz do Douro contra a trasladação é sobretudo motivado por razões político-partidárias.


Contornando a polémica, o autarca prefere sublinhar as vantagens que a concessão de honras de Panteão Nacional ao escritor traz para a região. “A memória de Eça e da sua obra é aqui evocada todos os dias na Fundação Eça de Queiroz. É verdade que os restos mortais do Eça de Queiroz permaneceram um tempo aqui em Santa Cruz. Mas a verdade é que, estando esta figura ao nível do Panteão e da importância que isso representa, é um passo que pode ser muito mais positivo para Baião”, defende Paulo Pereira.

"É um passo que pode ser positivo para Baião" - Paulo Pereira

A diretora executiva da FEQ, Anabela Cardoso, admite que a atribuição de honras de Panteão Nacional, conjugada com a atribuição de um subsídio anual de 75 mil euros pelo ministério da Cultura, pode dar um novo impulso à Fundação. “É um momento que nos conduz para uma nova perspectiva e para uma nova viragem e certamente que contribuirá para a divulgação da vida e obra de Eça de Queiroz, que é para isso que nós trabalhamos todos os dias”, declara.

Tudo gira em torno de Eça

Entre a cidade e as serras, a capital e a província, os avanços e recuos em torno da trasladação do escritor mostram-nos os contrastes de que o país é feito e, para os habitantes de Santa Cruz do Douro, este processo vai continuar a suscitar uma mistura de sentimentos, admite António Vieira, o atual presidente da junta de freguesia local.


Na Casa de Tormes está sediada a Fundação Eça de Queiroz, que gere uma parte substancial do espólio do escritor e da sua esposa. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
Na Casa de Tormes está sediada a Fundação Eça de Queiroz, que gere uma parte substancial do espólio do escritor e da sua esposa. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
Além de objetos pessoais, na Fundação é também possível visitar a biblioteca do escritor. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
Além de objetos pessoais, na Fundação é também possível visitar a biblioteca do escritor. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR


“É um misto. [Para] a maioria deles é [um sentimento] de tristeza, mas [para] outros não, é também de alegria que vão falando. Sentem que por um lado é um orgulho o Eça ir para o Panteão e outros defendem que deveria continuar aqui, no cemitério em Santa Cruz de Douro. As opiniões são diversas e nós temos que respeitar”, refere António Vieira.

"Ninguém vai ao cemitério de Santa Cruz para ver o Eça" - Inês Monterroso

A jovem Inês Monterroso não tem dúvidas: a decisão de proceder à trasladação foi a mais correta. “Eu acho que os restos mortais devem ir para o Panteão, porque o Eça deve ser homenageado num sítio em que o vejam. Ninguém vai ao cemitério de Santa Cruz para ver o Eça”, destaca a jovem.


Já o antigo presidente da junta de Freguesia, António Fonseca, lamenta a perda de um ativo económico para a região. “Tudo gira em Santa Cruz do Douro e Baião à volta do Eça. Nós temos mais de 900 camas para vender”. Os turistas “vêm a Baião atraídos pela paisagem descrita em ‘A Cidade e as Serras’, pela gastronomia queirosiana e obviamente aproveitavam para visitar 'o santuário'. Ou seja, a sede, a Fundação de Eça de Queiroz e o túmulo do Eça de Queiroz”, refere o empresário.

No café Katekero, de onde provavelmente acompanhará a cerimónia prevista para esta quarta-feira, Maria Fernanda vê a situação com indiferença: “Para mim tanto me faz. Eles que o levem para Lisboa.”

No entanto, para a baionense o escritor continuará a habitar o lugar de sempre. “Quem vier eu vou indicá-lo sempre para ali, para o cemitério. Era ali que ele estava, é ali que ele continua para mim. É sempre ali para mim. É amanhã, não é? Eles é que sabem… Nós não mandamos nada”, diz, com um misto de resignação e desconfiança para com a classe política da capital, que tanto foi objeto de análise nos escritos de Eça de Queiroz.


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