Não podem fazer greve, mas criticam Governo. “Só não nos levam a casaca e as calças se não puderem”

Pelas ruas do Porto, a Renascença recolheu testemunhos de quem concorda com a Greve Geral, mas não pode faltar ao trabalho. A redução do vencimento no final do mês impede-os de ficar em casa, mas não faltam críticas ao pacote laboral desenhado pelo executivo de Luís Montenegro.

11 dez, 2025 - 16:13 • Miguel Marques Ribeiro



Falta de condições económicas e pressão dos clientes condicionam participação de trabalhadores na Greve Geral. Composição e fotos: Miguel Marques Ribeiro/RR
Falta de condições económicas e pressão dos clientes condicionam participação de trabalhadores na Greve Geral. Composição e fotos: Miguel Marques Ribeiro/RR

O impacto da Greve Geral fez-se sentir esta quinta-feira por todo o país, mas muitos trabalhadores tiveram de picar o ponto no emprego, apesar de concordarem com as razões do protesto.

“Não temos poder económico para aderir”, lamenta Helena Fernandes, que critica o rumo escolhido pelo Governo.

Temos andado a perder direitos de ano para ano e de legislação para legislação”, aponta, sentada por detrás do balcão de um quiosque de venda de bilhetes de autocarros turísticos, situado em plena Praça da Liberdade, no Porto.


Carlos Mendes Pereira fechou microempresa e fez greve em 2013. Desta vez, vai manter aberto o negócio de AL, mas critica o pacote laboral. Foto: Miguel Marques Ribeiro/RR
Carlos Mendes Pereira fechou microempresa e fez greve em 2013. Desta vez, vai manter aberto o negócio de AL, mas critica o pacote laboral. Foto: Miguel Marques Ribeiro/RR

“As condições de trabalho já são más. Muitos trabalhos são precários, ganhar um ordenado mínimo é precário. Já não se vive com um ordenado mínimo”.


"Acho que é muito mau para onde estamos a caminhar" - Helena Fernandes

Helena “gostaria de fazer greve”, mas teve de se apresentar ao serviço. Parte do seu vencimento depende das comissões ganhas com os bilhetes vendidos. Perder um dia de trabalho ia representar um corte significativo na remuneração. “Estamos em época baixa, não é? Se formos abdicar de um dia de ordenado, ainda é pior. De qualquer forma, acho que é muito mau para onde estamos a caminhar”, assegura.

Imigrantes têm “receio”

Ao lado de Helena está Nicolás, um equatoriano de Quito que veio para Portugal há quatro meses. Para um imigrante é mais difícil aderir a um protesto, sublinha, porque há “receio” de eventuais consequências. “Existe o risco de que se nós fizermos a greve, tenhamos algum problema, seja com a polícia, o Governo, com a AIMA ou mesmo com a empresa.”


Os imigrantes têm também um menor conhecimento da legislação, refere. “Não conhecemos as leis, se podemos fazer ou não uma greve, se podemos fazer ou não uma manifestação.”

Maurício Assunção usa os mesmos argumentos. Este pedreiro imigrado em Portugal há quatro anos e meio sabe que a greve é motivada pelo pacote laboral proposto pelo Governo, mas admite não conhecer todos os contornos da nova legislação. “A fundo mesmo, eu realmente não sei o que é”, reconhece.


"Não conhecemos as leis, se podemos fazer ou não uma greve" - Nicolas, imigrante

Ainda assim, Maurício admite fundamentos no protesto. “Se mudar a lei para pior, acredito que a greve seja justa. Provavelmente, se eles estão querendo fazer greve, boa coisa não deve ser."


Salário reduzido e cortes nas comissões, devido à época baixa no turismo, impedem Helena Fernandes de fazer greve. Foto: Miguel Marques Ribeiro/RR
Salário reduzido e cortes nas comissões, devido à época baixa no turismo, impedem Helena Fernandes de fazer greve. Foto: Miguel Marques Ribeiro/RR
O taxista Abel Camões critica os lucros que as grandes empresas "sacam aos trabalhadores". Foto: Miguel Marques Ribeiro/RR
O taxista Abel Camões critica os lucros que as grandes empresas "sacam aos trabalhadores". Foto: Miguel Marques Ribeiro/RR


A trabalhar na construção de um prédio na Avenida Fernão Magalhães, o brasileiro admite que, se pudesse, juntava-se ao protesto. “Sim, dependendo das razões, sim.” No entanto, o impacto financeiro é desmobilizador. “Se eu não trabalhar, não vou receber. Já ganhamos pouco. Perder um dia é complicado".

Um factor determinante numa obra que é das maiores em curso na cidade do Porto e que, segundo foi possível perceber, estava a laborar com normalidade às primeiras horas da manhã. Os imigrantes representam a fatia maioritária dos trabalhadores, aponta Maurício: “Acho que são 90% ou mais”.

Fazer greve contra si próprio

Um pouco mais abaixo, no Campo 24 de Agosto, a Renascença encontra Abel Camões, um taxista reformado que não tem dúvidas em apoiar a Greve Geral. “Concordo plenamente. Se eles sabem que podem lutar, devem lutar até ao fim, para não perder os direitos que têm, não é? Eu acho bem que façam a greve.”


No entanto, o facto de ser trabalhador por conta própria é um obstáculo à participação. “Se fosse trabalhador por contra de outrem, não estava aqui. Ficava em casa também. Porque senão... Os bichos papões deste país só nos levam a casaca e as calças se não puderem. Porque se eles puderem… Eles só sabem olhar para o umbigo deles”.


"Se fosse trabalhador por contra de outrem, não estava aqui" - Abel Camões, taxista

Tal como noutros casos ouvidos pela Renascença, o fator financeiro pesou na altura de decidir ir trabalhar. “Eu sou o dono do táxi e, portanto, não vou fazer greve contra mim. Portanto, tenho que trabalhar. Isto agora está muito mal, uma pessoa tem de aproveitar tudo, senão está tramada. Todos os dias são necessários para trabalhar, de outra maneira não conseguimos”, explica o transmontano.


Esta obra situada na Avenida Fernão Magalhães esteve a trabalhar normalmente. 90% da força de trabalho são imigrantes. Foto: Miguel Marques Ribeiro/RR
Esta obra situada na Avenida Fernão Magalhães esteve a trabalhar normalmente. 90% da força de trabalho são imigrantes. Foto: Miguel Marques Ribeiro/RR
Imigrantes estão mais desprotegidos perante o empregador e existe "receio" de consequências, considera Nicolás, equatoriano. Foto: Miguel Marques Ribeiro/RR
Imigrantes estão mais desprotegidos perante o empregador e existe "receio" de consequências, considera Nicolás, equatoriano. Foto: Miguel Marques Ribeiro/RR


A completar a magra reforma de 500 euros com as bandeiradas de um Toyota preto e verde, Abel crítica o modelo de distribuição da riqueza do país. “Dão-se ao luxo, alguns, como Pingos Doces, Continentes, de lucrar duzentos milhões por ano. Pois claro, cem milhões eles sacam dos trabalhadores. Portanto, acho muito bem que façam greve e que lutem pelos direitos deles. Porque eles darem por iniciativa deles dá cabo do cofre que têm em casa. Portanto, não vale a pena.”

O cliente anti-greve

Carlos Mendes Pereira é outro exemplo de um empresário em nome individual, da área de fotografia e vídeo, que não pôde aderir ao protesto para não perder clientes. “Todos os trabalhadores liberais ou microempresários como eu dependem diretamente dos trabalhos avulsos que vão fazendo. E isso complica muitíssimo, porque não temos nenhum garante de faturação”, explica.

Ao fazer a greve, esses profissionais “estão a perder trabalhos que muitas vezes não recuperam, vão perder faturação e isso é o seu ganha-pão, não há muito como recuperar o que se perdeu.”


Para um trabalhador que ganha à peça, a adesão é por isso “muito mais difícil”, argumenta. “Já tive situações de não querer trabalhar e ter clientes que forçavam. Noutras alturas, consegui recusar. Uma das vezes perdi um cliente, porque o cliente disse que a greve não era justificação para não trabalhar. Era anti-greve e cortou relações profissionais comigo".

A situação, desta vez, é ambivalente. "Divido-me entre o audiovisual e tenho também uma casa de alojamento local. No audiovisual não estou a trabalhar, recusei os trabalhos que tinha para hoje, mas no alojamento local tenho uns clientes estrangeiros que vão chegar e que obviamente não vou deixar ficar na rua”, justifica.


"Esta lei laboral quer proteger os patrões e as grandes empresas. É um caso claro." - Carlos Mendes Pereira

No entanto, não é impossível alinhar as necessidades individuais com o interesse geral dos trabalhadores. “Houve uma altura que eu tinha um empregado, na minha microempresa, e fizemos greve, recorda o diretor de fotografia e videógrafo, a propósito da última greve geral, em 2013.


Abel Camões defende os argumentos dos sindicatos: "Devem lutar até ao fim, para não perderem os direitos que têm". Foto: Miguel Marques Ribeiro/RR
Abel Camões defende os argumentos dos sindicatos: "Devem lutar até ao fim, para não perderem os direitos que têm". Foto: Miguel Marques Ribeiro/RR

"Encontrámos-nos no estúdio, viemos ambos para a rua e havia manifestação. Encontrei uma pessoa, até, que me perguntou o que eu estava a fazer naquela situação sendo patrão. E eu disse que estava a lutar pelos direitos do meu empregado, porque eu acho que o direito laboral é um pilar da sociedade”, explica.

Apesar dos impedimentos vividos desta vez, considera que a Greve Geral se justifica. “Esta lei laboral quer proteger os patrões e as grandes empresas. É um caso claro”, argumenta.

Para o empresário, a prosperidade económica depende da defesa dos direitos laborais. “Sem haver uma classe trabalhadora estável, segura e confortável, a produtividade baixa, os níveis de pobreza aumentam, há uma instabilidade financeira que se transfere também para o campo emocional, as pessoas sentem-se inseguras e isso obviamente não resulta numa sociedade feliz e próspera.”


2025 “vs” 2013. Um comparador de greves gerais em imagens
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