De uma fonte próxima traz-se a água “para tomar banho, para lavar a casa, para lavar os legumes” e “para beber compramos a água própria”, explica Júlia.
Na sua casa existe a única casa-de-banho do acampamento. Lá dentro, garante, “tudo tem condições”. "Temos casa de banho, temos água, temos luz, temos de tudo”, assegura.
"Eu passei pela dor e ainda estou a passar pela dor, só Deus sabe", assegura Júlia, a quem foram retiradas quatro filhas.
Júlia e o marido recebem cerca de 400 euros de Rendimento Social de Inserção (RSI). “Para o mês inteiro é um bocado difícil, mas Deus sabe todo o momento.” No acampamento, reconhece, “ninguém trabalha". "Andamos na sucata, fazemos o que podemos.”
A mulher de 27 anos conhece bem aquilo por que Marlene e Márcio estão a passar. “É triste. Parte o coração de uma pessoa”. Há dois anos, Júlia perdeu a guarda das quatro filhas. “Tiraram as minhas filhas, a Segurança Social.”
As meninas foram colocadas numa instituição, para adoção. “Eu passei pela dor e ainda estou a passar pela dor, só Deus sabe. É o meu sofrimento.”
A razão para a retirada das crianças, segundo ela, foi a incapacidade para cuidar das filhas. “São quatro pessoas muito violentas. Precisava de um pouco de ajuda. A juíza não quis. Quis logo mandar para adoção”.
Júlia não perde a esperança de um dia voltar a reencontrar as meninas. “Eu creio que um dia elas vão descobrir a verdade. Porque a minha filha mais velha já tem nove anos. A outra tem sete anos. Uma cinco anos, a outra dois anos e meio. Um dia elas vão encontrar a mãe e o pai. Eu creio”.
Para a Segurança Social, pelo contrário, só existem críticas. “As técnicas vêm cá sempre para estarem de olho nas crianças. Para ajudar, não. Mas para tirar as crianças, já sim.”
A frustração acumulada é muita. “Continuam a tirar as crianças, mas um dia uma pessoa arrebenta-se. Fica-se cansado da Segurança Social. Não me diga que todos nós, ciganos, temos que fugir para outro lado, para não tirarem as crianças. Isto não pode continuar assim”
Mais tijolos resolvem a situação?
Depois de alguma resistência, Márcio mostra-nos a habitação onde vive com a mulher. “Vês, tem tijolo”, diz, depois de abrir uma porta de latão fechada a cadeado. Lá dentro o espaço é escuro, exíguo. Adivinha-se o frio nas noites de inverno.
Contudo, para este pai, a casa reúne as condições necessárias para criar um bebé. “Tem a cama. Tem também o quarto da menina”, vai apontando, sem autorizar a recolha de imagens.
“Até não está muito frio aqui dentro”, afirma com convicção, mesmo que não exista aquecedor. “Não tem… temos que comprar”, reconhece.
“Se para os pais não é claro o que é que eles têm de fazer, que caminho é que têm de fazer, então estamos mal, não é?”, questiona Joana Simões de Almeida.