Hoje professor, Eugénio lembra-se bem das traquinices de miúdo “naqueles dias de nevão”, numa terra barulhenta e macia que aquecia com a brincadeira. O espaço é agora silencioso e de pedra, dura como os zero graus que se fazem sentir cá fora. “As aldeias acabaram por perder um bocadinho da vida.”
O antigo jardim de infância, escondido atrás da escola que agora é lar, não teve o mesmo destino. O quadro de giz na parede, para fazer “uns rabiscos”, e o crucifixo que Eugénio e os amigos “estimam religiosamente”, são as marcas do passado onde agora está a sede da Associação Humanitária Cultural e Recreativa Beselguense.
“É raro o fim de semana que a gente não se encontra aqui.” Este pequeno pólo de atividade perdura desde 1975, e agora organiza provas de trail e BTT, atraindo um milhar de participantes. “É uma associação que está aqui, mas toda a gente é daqui e foi para fora.”
“Como a maioria dos jovens, acabamos todos por sair, mas como gostamos muito desta terra, acabamos por estar aqui.” Eugénio vive em Moimenta da Beira, separado de Penedono por Sernancelhe.
“Nós saíamos daqui aos 15 anos, porque não tínhamos outra hipótese. A maioria de nós que terminasse o nono ano, com 15 anos, ia para Viseu. Muitos já não regressaram, acabaram por ficar nessas terras”. É o que leva Eugénio a descrever a região como “o interior do interior”, e a puxar o novelo dos problemas.
“Faz-se uma obra de requalificação, a [Nacional] 229, mas foi só de Viseu a Sátão. Quer dizer, os outros não precisam?”, questiona, antes de se lançar para a saúde. “Eu ainda tenho médico de família aqui em Penedono, portanto tive um, tive outro, agora nem sei se tenho, também não tenho ido lá precisamente por causa disso”.
A paisagem carbonizada diz o resto. “Fomos esquecidos, não é? No grande incêndio de 14 de agosto, quer dizer, passou por aqui e não vimos ninguém. O que se salvou foi o que as pessoas puderam salvar.”
“Se nada for feito, vai ser muito complicado”
Penedono foi um dos territórios consumidos pelas chamas dos incêndios de Trancoso e de Sátão. Com início a 9 e 13 de agosto, respetivamente, os dois uniram-se num só no dia 15, e queimaram ainda Aguiar da Beira, Celorico da Beira, Fornos de Algodres, Mêda, Moimenta da Beira, São João da Pesqueira, Sernancelhe e Vila Nova de Foz Côa. Foram mais de 60 mil hectares.
Em Penela da Beira, na parte norte de Penedono, são as árvores negras e pedras queimadas que dominam o pensamento de Aires Macieira.