"Só disse ao meu marido: Sai para a rua que nós vamos morrer com a casa em cima"

Figueiró dos Vinhos, no distrito de Leiria, foi uma das localidades mais afetadas pela tempestade Kristin. Entre telhados que voaram, moradores “tapam uma hemorragia gigante com um penso rápido”. O presidente da Câmara sente-se “abandonado” pelo poder político.

29 jan, 2026 - 21:31 • João Maldonado



Efeitos da depressão Kristin em Figueiró dos Vinhos. Reportagem de João Maldonado
Efeitos da depressão Kristin em Figueiró dos Vinhos. Reportagem de João Maldonado

Localizado no distrito de Leiria, Figueiró dos Vinhos fica a cerca de duas horas de distância de Lisboa. Mas nesta quinta-feira, para chegar a este concelho é obrigatório contornar árvores, ramos, pedras, fios de eletricidade e postes caídos. No pós-tempestade Kristin, são muitos os obstáculos que obrigam a abrandar e a pensar a condução de maneira ainda mais cautelosa.

Sem rede no telemóvel, a reportagem é feita como tantas outras foram realizadas ao longo da história do Jornalismo. Perguntando aqui e ali com quem falar. Indo à Câmara Municipal procurar o presidente eleito na autarquia em outubro (liderando um movimento independente) e ouvir as histórias dos habitantes e daquela noite de sobressalto.

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Nos Bombeiros está montado o posto da Proteção Civil. Um verdadeiro centro de operações onde todos aqueles que precisam de ajuda se dirigem. Com limitações tecnológicas, o papel e a tinta da caneta ajudam a organizar os pedidos e a estabelecer prioridades.

Nas ruas de Figueiró dos Vinhos os estragos provocados pela tempestade são evidentes.


Foto: João Maldonado/RR
Foto: João Maldonado/RR

Nos fogos foram as vidas que se perderam, agora foram os bens, vivo aqui há 30 anos, perdi uma casa praticamente.” Carlos Artur, no alto dos seus 76 anos, fala numa “tragédia” sem que a outra semelhante tenha assistido de tão perto. “Toda aquela parte de trás é para desfazer, é para deitar abaixo, não posso ligar a eletricidade sequer, cai-me água pelas lâmpadas”, descreve, lamentando o enorme buraco que tem no teto da casa.

A zona dos quartos está inundada. É pela cozinha que múltiplas esfregonas vão jorrando a água até que se dissipe pela via pública. “Só tenho um bocadinho de sala onde consigo estar - ao pé da lareira.” Foi aí que passou a noite em conjunto com a mulher, mas já não vai passar a próxima. “Dormir é uma figura de estilo, é uma maneira de dizer porque ninguém dormiu”, explica.

Carlos seguirá agora para casa da filha, Rosa, que é quem conduz a Renascença até ao sótão. Impressiona o grau de destruição que vai sendo remendado pelos Bombeiros no local. O buraco onde deviam estar telhas vai sendo tapado com a ajuda de enormes plásticos. Mas não tem chegado para combater a força da água que cai dos céus. “Tapar uma hemorragia gigante com um penso rápido, a tragédia foi tão grande e atingiu tantas pessoas, não há material, e havendo é preciso pessoas que o venham colocar e toda a gente precisa, é complicado”, resume, quase em lágrimas, a filha que assim vê a casa onde cresceu.


Foto: João Maldonado/RR
Foto: João Maldonado/RR

Noutro ponto de Figueiró dos Vinhos está Maria de Fátima. A quantidade de plásticos sobrepostos entre paus de madeira que surgem por cima das telhas levantadas da casa onde vive chama naturalmente a atenção. Convida-nos a entrar e mostra-nos o chão ensopado - “foi em bica ontem à noite”. Depois leva-nos até ao andar de cima e vemos, por dentro, a quantidade de telhado que desabou.

O horror que viveu fê-la temer até pela morte. “Eu só disse assim ao meu marido - tremia que não me segurava - calça uma meias, enfia uns sapatos, veste uma calças e sai para a rua que nós vamos morrer com a casa em cima”.

Entre o breu noturno conta que surgiu um vizinho que tudo viu do lado de fora: “Depois veio uma coisa de vento, uma coisa horrível, ali o meu vizinho disse-me: ‘olha o telhado do vizinho em cima do teu’, eu cheia de nervos nem lhe conto”.

Autarquia sente-se abandonada pelo Governo

Ouvido também pela Renascença, o presidente da Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos, Carlos Lopes, diz-se “abandonado” pelo poder político.

Lamentando a falta de presenças no concelho, diz ficar com “mágoa” por apenas ter conseguido contactar com o secretário de Estado da Proteção Civil – que garantiu a chegada ao território de um gerador.

Questionado sobre quem devia ter estado por cá, Carlos Lopes não hesita: “Naturalmente que o senhor primeiro-ministro ou a senhora ministra da Administração Interna, responsáveis máximos do Governo da República, que hoje já visitaram outros territórios e que pelos vistos entendem que não têm tempo para vir a Figueiró dos Vinhos”.

Ainda em fase de contas, a Câmara Municipal estima prejuízos na ordem das centenas de milhões de euros.


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