"Hora e meia de porrada" deixou Ferreira do Zêzere de rastos. População anda "de gatas debaixo dos eucaliptos" para aceder a casas isoladas

Não há registo de feridos, mas há uma vítima indireta da passagem da depressão Kristin pelo concelho: um cidadão alemão que se sentiu mal depois de trabalhos na remoção de árvores. Com estradas ainda cortadas, Ferreira do Zêzere começa a reerguer-se aos poucos. Esgotaram as telhas nos armazéns e a população vai remendando as feridas com plásticos, à luz das velas, isolada do mundo.

30 jan, 2026 - 04:37 • Catarina Santos , Miguel Marques Ribeiro



Veja a reportagem em vídeo. Elisabete é proprietária do único restaurante aberto em Ferreira do Zêzere. Foto: Miguel Marques Ribeiro/RR

Um homem está empoleirado num telhado e alinha, o mais rápido que pode, uma série de telhas. Um plástico laranja esvoaça sobre uma cratera de dois metros quadrados. É fim da tarde e Ferreira do Zêzere começa a mergulhar numa penumbra espessa, só rasgada pelos faróis de um ou outro carro que serpenteia as estradas, cheias de ramos e árvores caídas.

Pedro Alberto, o dono da casa, está de lanterna na testa, dentro do sótão, a passar telhas para o lado de fora. Teve sorte, ainda conseguiu comprar algumas resmas num armazém local. “Estão as telhas todas esgotadas, já, por aí”.

O tetris que ali se desenrasca não é fácil. A casa tem 200 anos, não tem placa e o que conseguiram comprar não encaixa totalmente no que estava. É só um desenrasque, porque a água está a infiltrar-se rapidamente em todas as divisões. “Vamos ter que inventar aqui um bocadinho, porque já não há destas telhas".


Entre 4.000 a 4.500 habitações terão sofrido danos no concelho devido à passagem da depressão Kristin, estima o presidente da câmara. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
Entre 4.000 a 4.500 habitações terão sofrido danos no concelho devido à passagem da depressão Kristin, estima o presidente da câmara. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR

Na madrugada de quarta-feira, Pedro Alberto viu tudo voar, completamente impotente. “Isto foi uma hora e meia, sempre a dar a porrada em tudo. Pumba, pumba, pumba. E sem conseguir fazer nada, porque não se podia sair, voavam telhas por todo lado".

Vive com o pai, de 86 anos, a mulher e dois filhos. “A chaminé, ao cair, fez uma grande cratera e com as rajadas de vento, que estavam fortíssimas, levantou o telhado todo.” Danificou ainda uma viga que suportava o telhado. “Isto vai ter de ser tudo novo, vai ter de ser uma obra completa. Agora é remediar para não haver mais estragos".

O quarto do pai fica mesmo por baixo da chaminé que ruiu. “Só vim cá acima, tentando perceber como é que estava o meu pai, se estava tudo bem. E de resto foi esperar que isto passasse".

Não é a primeira vez que sofre um susto por causa de temporais, mas este foi mais persistente. Hoje, Pedro Alberto é técnico de desporto na Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere, mas há 15 anos, quando um tornado devastou 35 quilómetros por aquelas bandas, era presidente da junta. “Foi mau demais. Só que o tornado foi cinco minutos. Passou, destruiu, foi. Isto foi uma hora e meia.”

"Foi uma hora e meia". Não encontrámos uma pessoa na vila que não o repita, uma e outra vez, a cada frase. “Às 4h o céu estava estrelado. Mas entre as 4h30 e as 6h andou por aí o demónio”, dizia-nos um funcionário da autarquia. “Nunca me benzi tanto”, assegura.


Uma loja no centro da vila com a montra danificada. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
Uma loja no centro da vila com a montra danificada. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
O parque de merendas ficou cercado por árvores tombadas. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
O parque de merendas ficou cercado por árvores tombadas. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR


Além da casa principal, voaram também os telhados da adega e da garagem de Pedro Alberto. “Tenho ali um contendor em madeira que se deslocou cerca de um metro para o lado. Uma coisa pesadíssima, de madeira e ferro.” Perdeu os pellets acumulados para o aquecimento da casa, mas as arcas frigoríficas ainda estão a conseguir manter os alimentos. Até quando, não sabe. A água voltou esta quinta-feira, mas a eletricidade vai demorar bem mais.

Já é noite cerrada. O cunhado e mais dois vizinhos fixam lonas sob as telhas. Pedro Alberto improvisa uma viga de ferro para reforçar o suporte do telhado. A noite anterior foi de muita chuva e um dos toldos que tinham colocado desprendeu-se.

“Nesta altura, isto é tanta desgraça que tem de ser as famílias e um amigo ou dois que apareçam, que é o caso... Porque até os próprios pedreiros, que costumam trazer máquinas e ajudar, têm os armazéns todos destapados".

Esses estragos de maior monta foram sobretudo nos arredores da vila, onde ainda há estradas cortadas, árvores tombadas, arrancadas pela raiz ou simplesmente partidas, como se uma motosserra invisível tivesse passado por ali desgovernada.

Pelo meio, escondidas entre a vegetação, há casas isoladas onde só se acede andando muitos quilómetros a pé. Não há eletricidade, telecomunicações móveis, rede fixa ou internet. “Há muitas aldeias, casas muito espalhadas, pessoas de muita idade, sem ter grande mobilidade, os filhos estão longe", conta Fátima Antunes, encostada à entrada de um supermercado.

Ficou um dia sem conseguir contactar os pais, que moram a sete quilómetros do centro. “Para irmos lá foi a minha irmã e o meu irmão a pé e tiveram que passar praticamente de gatas debaixo dos eucaliptos”, descreve. “Só hoje é que eles tiveram acesso à estrada, porque não houve ninguém que lá foi. Só hoje é que apareceu alguém”.


Grande parte do parque florestal do concelho tem estragos, incluindo árvores centenárias. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
Grande parte do parque florestal do concelho tem estragos, incluindo árvores centenárias. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR

O balanço é ainda "grave”, declara o coordenador municipal da Proteção Civil, Pedro Mendes. "Quer pelo nível de danos, quer pela extensão, que abrange todo o concelho. A esmagadora maioria das edificações tem danos. A rede viária estava fortemente comprometida”.

Os serviços conseguiram já chegar a “mais de 98% dos locais que estavam inacessíveis”, adianta. "Restam ainda alguns pequenos acessos a edifícios individuais".

Descrever o cenário nas estradas em volta emociona Fátima. “Aquilo está... é um fim do mundo. É árvores com grande porte no chão. É uma catástrofe mesmo. Casas sem telhado, sem proteções nenhumas, tudo se arrancou. Olhe, é uma tristeza muito grande, muito mesmo".

Fátima antevê que a experiência desta semana se repita com mais frequência. “É algo que nós temos de começar a ter mais presente na nossa vida, que isto vai ser muito mais intenso. E acho que temos que nos voltar... para a comunidade. E não sermos só eu, só eu, só eu. Começarmos a ter aquele sentido de ajudar, de família".

Também viveu a experiência do tornado há 15 anos, mas garante que “isto foi muito mais assustador”. A voz foge-lhe quando tenta rebobinar duas noites. “A gente... Ouvir o vento, ouvir os barulhos, ouvir tudo a cair, as chaminés na casa, tudo a arrancar, foi muito mau. Mau mesmo. Só quem passa".

Dona de um talho no centro da vila, Fátima valoriza, ainda assim, que os danos em Ferreira do Zêzere sejam sobretudo materiais. “Houve, noutras áreas, pessoas que perderam a vida, mas graças a Deus aqui não tenho ouvido assim muita coisa".


A equipa de proteção civil no terreno é formada por cerca de 150 elementos. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
A equipa de proteção civil no terreno é formada por cerca de 150 elementos. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
A vila continua às escuras e não há previsão para o restabelecimento da eletricidade, dada a extensão dos danos. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
A vila continua às escuras e não há previsão para o restabelecimento da eletricidade, dada a extensão dos danos. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR


Uma equipa prepara camas de campanha para elementos da proteção civil deslocados. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
Uma equipa prepara camas de campanha para elementos da proteção civil deslocados. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
O presidente da Câmara de Ferreira do Zêzere, Bruno Gomes. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
O presidente da Câmara de Ferreira do Zêzere, Bruno Gomes. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR


Era o que diziam os registos até meio desta quinta-feira, mas à noite o presidente da Câmara havia de adiantar à Renascença a notícia de um morto na sequência de trabalhos de limpeza. “Tivemos, por parte da Guarda Nacional Republicana, a notícia de que um cidadão alemão teve uma paragem cardiorrespiratória e faleceu”, afirmou Bruno Gomes. O homem tinha um pacemaker e “começou a sentir-se mal depois de uma intervenção em algumas árvores, com motosserra".

Junto ao posto de comandos improvisado, em frente à biblioteca municipal, o autarca faz contas aos prejuízos. Estima que “80% ou 85%” das habitações do concelho tenham sido afetadas — "desde 20 ou 30 telhas até à totalidade da cobertura”. Não há uma contagem certa, mas Bruno Gomes aponta para "um número em torno das 4500 habitações com problemas — alguns de extrema gravidade, que coloca em causa a segurança e que inviabiliza a pernoita das pessoas".

É o caso de Leonel Maia, que viu desaparecer toda a cobertura da habitação. “Estar em casa ou estar na rua é a mesma coisa. Estou a favor de amigos. Viúvo, "com “mais ou menos 78 anos”, vive sozinho e ficou alojado em casa de uma neta.

Da passagem da depressão Kristin recorda “um barulho ensurdecedor”, que o fez temer o pior. “Não fiquei com o teto do quarto em cima por uma fração de segundos”, conta, enquanto dá mais um gole no copo de tinto, ao balcão do único café aberto na vila.

No posto de comandos ali ao lado aparecem muitas pessoas a pedir ajuda – nem que seja para usar o único telefone que funciona nas redondezas. Três casos já foram encaminhados para realojamento em lares ou centros de dia pelos serviços de ação social, adiantou à Renascença o coordenador da Proteção Civil. Mas Leonel ainda não passou por lá. “Não vale a pena. Se eu estou mal, fico na mesma, porque ninguém me resolve a situação. Sou só eu que preciso de ajuda? Há centenas de pessoas que precisam de ajuda e eles não podem acorrer a todo lado".


O telhado da casa de Pedro Alberto teve que ser reparado devido á queda de uma chaminé e à deslocação de telhas. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
O telhado da casa de Pedro Alberto teve que ser reparado devido á queda de uma chaminé e à deslocação de telhas. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR

Por isso Leonel prefere manter-se calmo, de sorriso tranquilo, e “esperar por melhores dias”, ali à luz das velas, no restaurante Pizzaria Toscana. Elisabete, a dona, mantém a porta aberta e vai servindo o que pode. “Consigo manter o cafezinho de cafeteira, porque tenho fogão a gás, consigo cozer uns pastéis de nata, uns pães com chouriço, uns salgadinhos e vou mantendo, pronto, vou mantendo assim".

As ruas estão um breu absoluto, não se vê vivalma, mas dentro daquelas portas há, desde há poucos minutos, um gerador que permite ter as luzes da cozinha acesas. "Isto fechado não se consegue”, atira Elisabete. "Eu sou pequenita ainda, ou seja, estou aqui há pouco tempo, e um dia fechado é difícil".

Por aquele balcão têm desfilado “muitas, muitas, muitas, muitas” histórias como a do senhor Leonel. Elisabete ouve-as e vai dizendo para os seus botões que, apesar de lhe ter desaparecido a esplanada, até nem teve muito azar.

Na rua paralela, o largo da biblioteca vê passar constantes carros da GNR e dos bombeiros — locais e de corporações externas, que vieram ajudar. “Para termos uma ideia, Ferreira do Zezé é no centro do país e nós temos neste momento aqui a trabalhar forças do Baixo Alentejo, Alto Alentejo, península de Setúbal, enfim, diversos locais”, enumera o responsável pela Proteção Civil local.

Juntam-se a estas forças muitos particulares, voluntários, que pelas 20h00 desta quinta-feira carregavam esteiras portáteis e sacos-cama, para montar uma camarata improvisada numa das salas da biblioteca. “Alguns, porque também já estão cá desde ontem, vão começar a fazer um período de repouso um bocadinho mais tranquilo”, esclarece Pedro Mendes.


Continuamos no terreno com muitos homens, com muitos voluntários, com muita solidariedade também, na tentativa de conseguirmos chegar a todos e de encontrar soluções para todos”, descreve o presidente da Câmara.

A maior dificuldade, aponta Bruno Gomes, é o apagão de comunicação. “Passadas 40 horas de o fenómeno se iniciar, continuamos a não ter telecomunicações. Temos única e exclusivamente um telefone satélite, Starlink, e é com isso que tentamos trabalhar todas as horas".

O autarca, que tinha insistido com o Governo para que decretasse o estado de calamidade, ficou aliviado com a decisão tomada no conselho de ministros desta quinta-feira, apesar de considerar que vem com um dia de atraso. “A declaração vem-nos trazer um pouco mais de conforto, porque sabemos que vamos ter alguns apoios, que os nossos munícipes vão ter alguns apoios”.

Não sabe ainda quais nem em que moldes chegarão, mas espera esclarecer essa e outras dúvidas esta sexta-feira de manhã, na reunião que vai ter como Ministro das Infraestruturas. “Espero que as ferramentas sejam clarificadas para eu também poder, junto dos meus munícipes, junto das empresas, dizer com o que é que podem contar, qual é o caminho a fazer”.


Bruno Gomes continua a pedir “pragmatismo” e “coragem política” para que se ativem “todas as ferramentas possíveis”. Adianta à Renascença que contactou na quarta-feira os secretários de Estado da Proteção Civil e da Administração Local, deu conta das necessidades no terreno e pediu reforço de meios. "Hoje o Sr. secretário de Estado disse que passaria [aqui], não teve essa possibilidade, disse que passa amanhã. (...) Amanhã quero perceber se passam, de facto, aqui no concelho, se olham in loco para aquilo que é a gravidade desta situação".

Também o responsável pela Proteção Civil apela a maior celeridade das empresas de telecomunicações para ajudarem a mitigar um problema central. "Ao final da tarde foi feito contacto a diversos níveis, no sentido de tentar que as operadoras pudessem, pelo menos, colocar as unidades móveis, que costumam colocar em diversas outras situações normais, para pelo menos começarmos a ter algum sinal, até que permita a muitos familiares que estão fora, no estrangeiro, saber notícias".

Da parte das operadoras, garante Pedro Mendes, não foi feito “até este momento” qualquer contacto. Já no que toca à eletricidade, “têm sido feitos contactos frequentes e pontos de situação” com a E-redes e com a EDP. “Até este momento ainda não temos nenhuma intervenção exata no terreno".


Para devolver Ferreira do Zêzere ao estado em que estava antes da passagem da depressão Kristin, o autarca Bruno Gomes estima que seja preciso um ano. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR
Para devolver Ferreira do Zêzere ao estado em que estava antes da passagem da depressão Kristin, o autarca Bruno Gomes estima que seja preciso um ano. Foto: Miguel Marques Ribeiro/ RR

“Há unidades geradoras de capacidade média/grande, que a empresa já nos informou que estão a ser deslocadas para aqui, duas ou três”, acrescenta, que permitirão garantir estabilidade em locais estratégicos. “Isso não significa, nem de perto nem de longe, que as instituições principais — estamos a pensar em lares, em centros de dia, em organismos de agentes de proteção civil — ficam todas estabilizadas".

Alguns destes organismos estão a recorrer a geradores, adianta o responsável, “mas é também um número muito limitado porque, como devemos imaginar, não há como laranjas e, portanto, são equipamentos que são finitos e esse é um constrangimento muito grave”.

Um constrangimento que não permite antecipar quando poderão, por exemplo, reabrir as escolas. Além da reparação dos danos causados pela intempérie, a energia será “essencial para garantir alimentação, salubridade, etc.”.

Em relação ao resto da rede, nomeadamente a de baixa tensão, que chega a casa dos consumidores, “não é possível fazer qualquer tipo de previsão neste momento, porque o grau de destruição da infraestrutura é enorme”.

Para devolver Ferreira do Zêzere ao estado em que estava no início desta semana, antes de ter embatido de frente com a depressão Kristin, o autarca estima que seja preciso um ano. Mas para retomar o mínimo de normalidade, seguem-se “duas ou três semanas de muito trabalho — das empresas, da população, dos serviços do município”.

O que não volta a existir “no nosso período de vida” são as árvores centenárias que pereceram, como gigantes derrotados estendidos no chão — e que exigem operações complexas para a remoção. “Nós temos cerca de 70% da nossa mancha florestal caída”, contabiliza Bruno Gomes. “E isso é uma perda também muito grande”.


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