Leiria e Marinha Grande em modo sobrevivência. "É a natureza, temos de aguentar"

A população das regiões do país mais afetadas pela depressão Kristin, no Centro do país, prepara-se para dias de dificuldades. Sem água, eletricidade e comunicações, só querem que o “pesadelo” passe o mais rapidamente possível. E que as suas vidas voltem ao normal.

30 jan, 2026 - 00:18 • João Cunha



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No "day after" da tempestade Kristin, é difícil, sair da autoestrada e seguir para a Marinha Grande. Não só pela chuva, mas pelo cenário, mais percetível com o nascer do dia.

De ambos os lados da estrada, árvores tombadas pelo vento, como se tivessem sido agarradas e dobradas até ao chão por uma mão gigante. A mesma que levantou as coberturas de dezenas de empresas do parque industrial.

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No interior de uma delas, que fabrica peças de plástico para a indústria automóvel, está o diretor-geral da empresa, Eric Sergeant. Um francês que confessa não falar português, apesar de estar por terras lusas há 10 anos, e que ajuda funcionários a apanhar algumas peças que, com sorte, ainda podiam ser enviadas para os clientes, sobretudo os de Vigo, onde uma fábrica automóvel espera que cheguem para acabarem as viaturas que fabrica.

A situação é tal que a empresa mãe, o Grupo Plastivaloire, está a equacionar a possibilidade de fazer chegar à Marinha Grande enormes grupos geradores para produzirem a eletricidade que tanta falta faz.

“Sabe quando é que há de novo energia?”

Após a tempestade, um milhão de clientes ficaram sem luz, um número que tem vindo a descer ao ritmo dos esforços dos operacionais no terreno. Ansioso para que a situação se resolva, Eric Sergeant pergunta: “Sabe quando é que há de novo energia?”. E que as dificuldades da comunicação também se resolvam.

“Hoje não sabemos onde estão os nossos trabalhadores, nem em que condição estão”, lamenta. O outro problema da comunicação é não ter forma de comunicar, por exemplo, com uma fábrica automóvel de Vigo, onde milhares de trabalhadores vão ficar, de braços cruzados, à espera que as viaturas onde faltam as peças que fabrica saiam da linha de montagem.

Admite que não faz nenhuma ideia do montante dos prejuízos na fábrica que dirige, mas aponta para o local onde antes estava uma cobertura para encolher os ombros e explicar que isso é para depois.

No acesso ao centro da Marinha Grande, uma fila com algumas dezenas de pessoas formava-se à porta de uma grande superfície comercial. A luz, no interior, faz supor que têm geradores a trabalhar.



Eduardo Valente, Cassilda Valente e Eric Sergeant relatam as dificuldades após a tempestade Kristin deixar a Marinha Grande desligada do mundo. Fotos: João Cunha/RR
Eduardo Valente, Cassilda Valente e Eric Sergeant relatam as dificuldades após a tempestade Kristin deixar a Marinha Grande desligada do mundo. Fotos: João Cunha/RR

População "em modo" sobrevivência

Armindo Cruz era um dos primeiros na fila. “Venho buscar pão e água, que é o essencial para uma pessoa sobreviver. O básico”, dizia, enquanto confessava que nunca na vida tinha passado por uma situação destas.

“É a natureza, temos de aguentar”, afirma. Mas até quando? “Essa agora é que é uma boa pergunta. Não sei dizer. Mas estou a achar isto muito mau. Luz, água… Isto vai demorar uns tempos”.

Nelson Santos, que mais ao fundo da fila está encostado a um carrinho de compras, à conversa com a filha, também acha que vai demorar, até que a vida regresse ao normal. Para já, gere com cuidado o que ainda tem em casa.


“Tenho arca, que ainda tem carne congelada, que vou tirando, rapidamente”, para que não perca o frio. “Faço fogueira e comemos”, conta à Renascença, confessando que na quarta-feira, fez “moelas guisadas à fogueira”. E não consta que ninguém se tenha queixado.

O importante, diz, é que ninguém ficou ferido. Nem mesmo quando, no meio do vento forte, foi à rua buscar o cão, e os dois, rentes ao chão, conseguiram regressar a casa. Prejuízos só mesmo um portão que não resistiu à força do vento, umas telhas soltas na moradia e o estrago em dois carros, em cima dos quais caíram os painéis solares que estavam no telhado.

Estamos sem água, sem luz, não lavo a louça há dois dias e tenho bacias na rua para apanhar a água da chuva, para usar na casa de banho

Cassilda Valente já saía do supermercado, também ela com o essencial: água, pão e leite. “Foi um pânico total e uma angústia o que vivemos”. Não só por não saberem exatamente o que esperar, mas o medo do momento e do que viria a seguir. E agora, a dificuldade é contactar os seus.

“Tenho uma filha em Lisboa e ela não sabe nada de nós”, lamentava, enquanto arrumava na bagageira do carro, com a ajuda do marido, os garrafões de água.

“Estamos sem água, sem luz, não lavo a louça há dois dias e tenho bacias na rua para apanhar a água da chuva, para usar na casa de banho. E é assim que vamos vivendo, há quase dois dias”.

Se não houver uma grande força de vontade a nível estatal, “vai ser muito difícil a Matinha Grande recuperar”.

Perdi as minhas poupanças quase todas

Atento, Eduardo Valente vai ouvindo, enquanto limpa as lágrimas. Emociona-se com o que está a viver.

“Perdi as minhas poupanças quase todas”, diz, enquanto tira os óculos para secar as lágrimas, lembrando-se dos milhares de euros que tinha investido num anexo e no que vai ter de gastar para recuperar a casa onde vive.

Vale-lhe, às refeições, usar o gás e o fogão com que cozinha. E que partilha com os seus. “A minha irmã vem a minha casa fazer a comida dela, porque ela tem placas elétricas. Eu tenho gás e até faço grelhados. Mas dou a possibilidade aos meus irmão de lá irem a casa fazer a comida e levarem”.


Estragos provocados pela tempestade Kristin entre Leiria e Marinha Grande. Foto: João Cunha
Bomba de gasolina encerrada devido à tempestade Kristin entre Leiria e Marinha Grande. Foto: João Cunha/RR


Longas filas para abastecer o carro

Na rua, o nascer do dia traz um aumento da circulação automóvel. Uma viatura para e, do interior, o condutor pergunta se alguém sabe de uma bomba de gasolina a funcionar.

“Só na Vieira”, gritava um conhecido, que avisava, contudo, para que àquela hora, já a fila deveria estar grande. E estava: mais de 500 metros de carros, encostados á berma, para aceder à única estação de serviço das redondezas que conseguia fazer abastecimentos.

“Mais vale prevenir”, dizia Teresa Constante, ao volante de umas dessas viaturas, que acrescentava que já ali estava “há pelo menos duas horas”.

Mais à frente da Vieira de Leiria, também muito fustigada pelo temporal, fica Monte Real. E dai, a estrada nacional e a autoestrada até Leiria, onde o barulho das motosserras tem marcado presença, ao longo do dia.

Funcionários da autarquia tentam, com sucesso, cortar os largos troncos de árvore tombados pelo vento. O Jardim Luis de Camões, um dos ex-libris de Leiria, ficou totalmente destruído. Pela cidade já não há, como na quarta-feira, tantos pedaços de coberturas, telhas e vidros que tornavam difícil a circulação pedonal.

Aos Sapadores Bombeiros chegavam, aos poucos, pessoas a pedir ajuda: sobretudo lonas, para impedir a entrada de água pelos telhados ou janelas que não resistiram à força da Kristin.

Aqui e ali, alguém usa o telemóvel – onde é impossível estabelecer uma chamada – para tirar fotos e fazer vídeos, para memória futura.

Como se estes dias não ficassem na memória de todos.


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