“Tenho arca, que ainda tem carne congelada, que vou tirando, rapidamente”, para que não perca o frio. “Faço fogueira e comemos”, conta à Renascença, confessando que na quarta-feira, fez “moelas guisadas à fogueira”. E não consta que ninguém se tenha queixado.
O importante, diz, é que ninguém ficou ferido. Nem mesmo quando, no meio do vento forte, foi à rua buscar o cão, e os dois, rentes ao chão, conseguiram regressar a casa. Prejuízos só mesmo um portão que não resistiu à força do vento, umas telhas soltas na moradia e o estrago em dois carros, em cima dos quais caíram os painéis solares que estavam no telhado.
Estamos sem água, sem luz, não lavo a louça há dois dias e tenho bacias na rua para apanhar a água da chuva, para usar na casa de banho
Cassilda Valente já saía do supermercado, também ela com o essencial: água, pão e leite. “Foi um pânico total e uma angústia o que vivemos”. Não só por não saberem exatamente o que esperar, mas o medo do momento e do que viria a seguir. E agora, a dificuldade é contactar os seus.
“Tenho uma filha em Lisboa e ela não sabe nada de nós”, lamentava, enquanto arrumava na bagageira do carro, com a ajuda do marido, os garrafões de água.
“Estamos sem água, sem luz, não lavo a louça há dois dias e tenho bacias na rua para apanhar a água da chuva, para usar na casa de banho. E é assim que vamos vivendo, há quase dois dias”.
Se não houver uma grande força de vontade a nível estatal, “vai ser muito difícil a Matinha Grande recuperar”.
Perdi as minhas poupanças quase todas
Atento, Eduardo Valente vai ouvindo, enquanto limpa as lágrimas. Emociona-se com o que está a viver.
“Perdi as minhas poupanças quase todas”, diz, enquanto tira os óculos para secar as lágrimas, lembrando-se dos milhares de euros que tinha investido num anexo e no que vai ter de gastar para recuperar a casa onde vive.
Vale-lhe, às refeições, usar o gás e o fogão com que cozinha. E que partilha com os seus. “A minha irmã vem a minha casa fazer a comida dela, porque ela tem placas elétricas. Eu tenho gás e até faço grelhados. Mas dou a possibilidade aos meus irmão de lá irem a casa fazer a comida e levarem”.