Soure sentiu a rajada mais forte da tempestade Kristin. “Em 88 anos, nunca vi nada assim”

De terça para quarta-feira, o vento alcançou os 208 km/h e levou telhados, árvores e postes de eletricidade. Em muitas aldeias, idosos continuam à luz das velas. Na vila, as cheias não dão tréguas e ainda podem piorar nos próximos dias. “A próxima tempestade que venha mais mansa”, pede-se em Soure.

31 jan, 2026 - 12:33 • Alexandre Abrantes Neves , Beatriz Pereira



Veja o vídeo: Soure sentiu a rajada mais forte da tempestade Kristin. “Em 88 anos, nunca vi nada assim”

Ao final da estrada principal que atravessa Alencarce de Baixo, o cenário de devastação com copas de árvores tombadas é completado pela figura de uma mulher, que vai arrastando os pés enquanto carrega curvada um balde com pinhas. O vento ainda sopra forte de quando em vez e isso traz memórias de guerra daquela madrugada de quarta-feira. Poucos minutos bastaram para remexer esta pequena localidade e semear traumas em Dulce. “Em 88 anos, nunca passei uma coisa assim. É uma tristeza, é uma tristeza”.

É nascida e criada nesta aldeia de Soure, a poucos quilómetros da vila. Foi aqui que se sentiu a rajada mais forte da passagem da tempestade Kristin: o vento tocou nos 208 quilómetros por hora e deitou ao chão telhas, coberturas de armazéns, árvores de grande porte e quase todos os postes de eletricidade das redondezas. Por sorte, nenhum caiu em cima de casas, mas continuam deixados ao abandono, encostados à beira da estrada mais de 72 horas depois.

Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui

Não temos luz. Nem eu nem ninguém. É só quem tem essas coisas, tem esses geradores e essas coisas assim, mais nada”, conta Dulce à Renascença, enquanto ajeita o gorro castanho e o lenço preto que deixam de fora apenas alguns cabelos brancos.

A sua casa saiu intacta, mas a da filha, ali na mesma rua, ficou com danos num anexo que tinha sido construído recentemente. Tem memória de “alguns ciclones quando era miúda”, mas o tempo foi passando e nunca pensou assistir a uma tempestade que provocasse danos no “interior das casas”. E daí a sensação de abandono por parte do município. “Nunca aqui vi ninguém. Nunca se viu ninguém. Não sei se cá vêm ou se não vêm”.


Na cabeça de Nelson Rodrigues, também é a desorientação que reina, perante as dezenas de milhares de euros em prejuízo que já começa a calcular, num sonho que tinha acabado de nascer. “A fábrica estava a laborar desde o dia 5 de janeiro. Estava tudo novo, tudo terminado”.

Bastaram “cinco, dez minutos” para metade da fachada principal e grande parte da cobertura voar para os terrenos e casas dos vizinhos. A fábrica continua a carburar, mas o material perdido e as falhas de energia colocam a produção de tetos em material PVC abaixo dos 50%. E isso só acentua o medo de Nelson em perder o projeto que ergueu sozinho, na zona industrial de Soure. “Uma catástrofe total. Para mim, para muita gente”, resume, com a voz embargada e os olhos a conterem as lágrimas.

No caminho em direção à vila, as imagens fundem-se e não deixam perceber se foi a chuva ou o vento que afetou com mais força estas ruas: de um lado, enormes árvores tombadas e raízes que trouxeram consigo pedras da calçada; do outro, campos e explorações agrícolas completamente alagadas pelas margens do rio Arunca que galgaram nos últimos dias.

O terreno de Manuel Oliveira sofreu de todos os males. As zonas da exploração de arroz parecem uma piscina, mas, por sorte, a produção tinha sido toda colhida poucos dias antes da tempestade. Mais acima, neste pedaço de terra com cerca de um hectare, as ovelhas e as galinhas andam soltas e de volta do curral onde passavam os dias, antes das fortes rajadas levarem o telhado deste casebre.


A fábrica de Nelson Rodrigues tem a produção a menos de 50% devido ao mau tempo. Foto: Beatriz Pereira/RR
A fábrica de Nelson Rodrigues tem a produção a menos de 50% devido ao mau tempo. Foto: Beatriz Pereira/RR
Os prejuízos ainda não foram calculados e a reparação vai demorar. "A fábrica das telhas também ficou destruída", diz o proprietário. Foto: Beatriz Pereira/RR
Os prejuízos ainda não foram calculados e a reparação vai demorar. "A fábrica das telhas também ficou destruída", diz o proprietário. Foto: Beatriz Pereira/RR


Manuel vive no centro da vila e, na noite da tempestade, ainda teve tempo de sair de casa e resguardar os carros. Mas o cenário pareceu-lhe tão perigoso que só visitou os terrenos na manhã seguinte, quando já “tudo tinha voado”. “Não houve mãos para salvar tudo. Não tive prejuízo no meu corpo. Já vale”, acredita.

O lado positivo também é o primeiro pensamento trazido por Jéssica, que está há horas a tentar expulsar a água de casa: “A gente estar com saúde é o que importa”.


Uma catástrofe total. Para mim, para muita gente

Jéssica veio do Brasil e vive em Soure desde junho do ano passado, numa casa arrendada na zona ribeirinha da vila. O rio Arunca entrou-lhe pela casa e estragou-lhe a mesa de refeições e o armário da cozinha. Valeram-lhe os alertas da junta de freguesia, que a fizeram levantar os restantes móveis e proteger os sofás.

Ainda assim, a água continua a ondular pelo chão da sala e, por isso, o movimento mecânico de a tentar apanhar, ora com uma esfregona, ora com uma toalha, vai continuar por muitas horas. “É um esforço, porque eu trabalho à noite e cheguei há pouco e estou aqui tirando água. Este já é o terceiro balde que enchi”, contabiliza.


"Hora e meia de porrada" deixou Ferreira do Zêzere de rastos. População anda "de gatas debaixo dos eucaliptos" para aceder a casas isoladas


Eletricidade normal só daqui a semanas

No concelho de Soure, e mais de dois dias depois da passagem da tempestade Kristin, a rede móvel ainda é pouca, mas a água canalizada já foi totalmente reposta e a eletricidade também chega já a grande parte da mancha da autarquia. Ainda assim, várias aldeias mantêm-se com quebras na rede elétrica – e, para resolver isso, não há ainda previsão.

“Imagino que possa levar semanas [a restabelecer]. Ainda assim, o trabalho que está a ser feito neste momento é com geradores, colocar a rede a funcionar com o apoio de geradores”, explica à Renascença a vice-presidente da autarquia, Teresa Pedrosa.

Os lares de idosos têm sido a prioridade, mas o objetivo agora é ir instalando geradores, aldeia a aldeia, enquanto a rede de média tensão continua a ser reparada. Nos próximos dias, pode haver casas com falhas de energia, enquanto os vizinhos já têm eletricidade.

“São problemas na rede que não se conseguem resolver neste momento porque não há meios para o fazer. Basta esticar um cabo e emprestar energia elétrica ao vizinho durante algum tempo. É este espírito de solidariedade que é preciso”, apela.


Os danos materiais são visíveis por toda a vila de Soure. Foto: Beatriz Pereira/RR
Os danos materiais são visíveis por toda a vila de Soure. Foto: Beatriz Pereira/RR
A zona ribeirinha da vila está a braços com fortes cheias, que fechou comércio e serviços. Foto: Beatriz Pereira/RR
A zona ribeirinha da vila está a braços com fortes cheias, que fechou comércio e serviços. Foto: Beatriz Pereira/RR


Nas primeiras horas, a Proteção Civil e a autarquia conseguiram desimpedir as vias de acesso aos principais centros urbanos, como Coimbra e Figueira da Foz, e assim garantir o abastecimento do município e a chegada aos hospitais. Desde aí, os trabalhos de remoção dos estragos continuam e “grande parte dos escombros” já foram retirados, mas o problema está ainda longe de estar resolvido.

Uma parte significativa da vila continua alagada e as previsões dos próximos dias não são animadoras, já que os “níveis de pluviosidade não vão baixar” nas próximas semanas. A previsão é especialmente “preocupante” se a chuva voltar a obrigar a descargas da barragem da Aguieira, aumentar o caudal do Mondego e fizer os rios afluentes (como o Arunca) voltarem a transbordar.

“Agora, o que precisamos é de monitorização e precisamos de manter aquilo que temos tido, que é os meios de socorro em prontidão para resolver qualquer situação que aconteça”, assinala.

Cheias são conhecidas, Kristin foi “dantesca”

Na zona ribeirinha de Soure, mais de uma dezena de ruas e becos estão intransitáveis, devido às cheias. O acesso à Segurança Social, à rádio local, a muitos restaurantes e a vários serviços é impossível. Ricardo Neto é um dos empresários que viu a água trocar-lhe as voltas. Tem um ginásio em frente ao jardim que é atravessado pelo rio.

“Não me recordo, nos últimos 15 anos, de ter esta dimensão. Talvez 2004”, relata à Renascença.


OuvirPausa
Ouça aqui a reportagem da Renascença

O cenário “dantesco” da tempestade Kristin (e “ainda mais agressivo” e “desolador” do que o furacão Leslie, em 2018) trouxe as primeiras cheias logo na quarta-feira e, desde então, a água teima em não baixar. Ricardo não consegue entrar no ginásio de que é proprietário há vários dias, mas já sabe que, pelo menos, o chão vai ter de substituir.

É a natureza, nós não dominamos tudo, mas temos aqui as nossas vidas, os nossos estabelecimentos, os nossos amigos. Os prejuízos preocupam-nos a todos e depois nem todos têm a possibilidade de lidar com as coisas da mesma maneira, não é?”.


Basta esticar um cabo e emprestar energia elétrica ao vizinho durante algum tempo. É este espírito de solidariedade

Logo acima, e numa das pontes que liga as duas margens do rio Arunca, um idoso pouco surpreendido aproveita a vista privilegiada sobre a vila para abanar a cabeça com resignação. “Já são muitos anos e é sempre a mesma história. Temos de nos contentar. É a vida”.

Diz que prefere ser tratado por “Xico”. É um veterano das lides do mau tempo, mas mesmo assim ficou “bem assustado” com o vento trazido pela Kristin. “Mantive-me praticamente a noite toda acordado. Estava a dormir no segundo andar, por acaso vim para o rés-do-chão. Foi mesmo assustador”.


A reparação total da rede elétrica pode demorar "várias semanas". Foto: Beatriz Pereira/RR
A reparação total da rede elétrica pode demorar "várias semanas". Foto: Beatriz Pereira/RR
Dulce tem 88 anos e diz nunca ter visto uma tempestade assim. "É uma tristeza". Foto: Beatriz Pereira/RR
Dulce tem 88 anos e diz nunca ter visto uma tempestade assim. "É uma tristeza". Foto: Beatriz Pereira/RR


O vento não lhe trouxe estragos e as cheias muito menos, já que são conhecidas de longa data de quem vive em Soure. As dos últimos dias têm dado mais luta: estão a baixar uma “coisa mínima por dia”, ninguém sabe o que acontecerá na próxima semana e o transbordo pode ainda ser maior. Ainda assim, aqui não há medo.

“Isto só assusta se as pessoas se vierem aqui meter. Porque, de resto, não assusta ninguém, não é?”, questiona, para logo a seguir apontar o dedo. “Uma das coisas principais que devia ser feita era a limpeza do rio. Porque o rio [Arunca], ali da variante para baixo, está completamente entulhado. E ninguém se preocupa com isso”.

Mau tempo na próxima semana? “Que venha manso”

À porta da fábrica de Nelson, as vigas de aço ainda vão rangendo e as lonas soltas esvoaçam quando a brisa se intensifica. Por aqui, parece que a estrutura acabou destruída por um ataque de fúria ou por alguma bomba.

“Começámos a tentar arrumar para perceber o que é que está estragado, o que é que não está estragado. Estivemos a tirar muitas coisas de baixo dos escombros. Porque não temos mão de obra para retirar os escombros”, adianta o proprietário.

A seguradora já passou para a perícia inicial, mas de prazos ninguém ouve falar. Muitas das fábricas na zona – desde Coimbra a Pombal – estão com danos graves e isso vai atrasar as contas e dificultar as obras de reconstrução.


A fábrica que produz as telhas e a fachada também ficou totalmente destruída. O senhor, o empreiteiro, também ficou com o pavilhão dele destruído. Há imensas obras como esta que estão também todas estilhaçadas, todas destruídas”.

Segundo o ministro da Economia, a dimensão dos prejuízos da passagem da tempestade Kristin estará “bem acima” dos incêndios de 2024 e 2025. Depois de uma primeira reunião, Manuel Castro Almeida continua em contacto com os autarcas das zonas mais afetadas para o levantamento dos prejuízos e, só depois disso, haverá decisão sobre eventuais apoios aos lesados.


Não houve mãos para salvar tudo. Não tive prejuízo no meu corpo. Já vale

O envelope financeiro ainda vai demorar a chegar, mas a vice-presidente da câmara Municipal de Soure, Teresa Pedrosa, pede desde já uma linha de crédito, tanto para entidades privadas como públicas.

“Nem os municípios têm por si orçamento para fazer face a estas situações, nem os próprios empresários. É preciso criar uma linha de apoio a estas entidades, às públicas e às privadas também, mas que ela venha rápidamente e que seja eficaz”, apela.


A barragem da Aguieira pode voltar a descarregar e acentuar as cheias em Soure. Foto: Beatriz Pereira/RR
A barragem da Aguieira pode voltar a descarregar e acentuar as cheias em Soure. Foto: Beatriz Pereira/RR
A autarquia pede uma linha de crédito rápida para "entidades privadas e públicas". Foto: Beatriz Pereira/RR
A autarquia pede uma linha de crédito rápida para "entidades privadas e públicas". Foto: Beatriz Pereira/RR


Por enquanto, só resta esperar. No caso de Nelson, os próximos dias vão ser passados a tentar contrariar as previsões meteorológicas dos próximos dias e a acreditar que o mau tempo que se prevê não traga ainda mais prejuízo. “É tentar minimizar os estragos. Esperar que venha bom tempo para a gente conseguir ir reerguendo aos poucos”.

Já Manuel, que nunca pediu qualquer apoio estatal, ainda não pensou como vai reconstruir o curral que perdeu com o vento. O dinheiro “vai-se arranjando conforme se pode” e ainda é cedo para fazer essas contas. “Cara alegre, depois mãos ao trabalho”.

Por agora, o “nevoeirozinho” já reaparece ao fundo e isso é sinal que “daqui a dois minutos já aí está a chuva”. E isso fá-lo deixar um recado às tempestades que ainda estejam por vir. “Olha, para a próxima vem mais mansa”.