Nas aldeias de Ourém, ainda não há luz e a população limpa os estragos sozinha. “Tivemos medo de morrer”

Em comparação com zonas como Leiria ou Soure, os estragos em Ourém são muito mais visíveis, com muitas árvores e telhas encostadas à beira da estrada. Muitas freguesias ainda estão às escuras e sem telecomunicações. Ninguém esquece a madrugada da última quarta-feira. “Em 85 anos, nunca vi um tempo assim."

03 fev, 2026 - 09:06 • Alexandre Abrantes Neves , Beatriz Pereira



Ouça aqui a reportagem da Renascença. Foto: Beatriz Pereira/RR
OuvirPausa

Ouça aqui a reportagem da Renascença. Foto: Beatriz Pereira/RR

Aparece por detrás do telheiro que desabou e caiu sobre os dois carros e um trator. Dina vem a sacudir as mãos na roupa. Está estafada do trabalho dos últimos dias.

“Foi o telhado da casa. Nem pudemos dormir porque os quartos inundaram-se todos, inundou-se a casa toda, ainda está a pingar por todo lado. Praticamente se vem outra chuvada ou outro vento, não podemos dormir aqui. Depois, a oficina, os carros, lá atrás os currais dos animais todos. Sobreviveram, mas estão todos coxos e estão a apanhar muita chuva.”

No quintal da casa onde vive com os pais e o filho, o rasto de destruição é visível, desde as telhas e tijolos partidos à porta até às vigas de ferro que perderam a luta contra o vento e que dobraram tanto que agora fazem um ângulo de 90 graus. O cenário é desolador. Mas as memórias ainda são piores.

Tivemos medo de morrer. As telhas a cair... Os meus pais passaram toda a noite a segurar a janela, que a janela desfez-se toda ali”, relata à Renascença, apontando para uns estores castanhos que já não encaixam no desenho da janela.


Maria Celeste, mãe de Dina, viu o barracão e o curral dos animais ficarem completamente destruídos com o mau tempo. Foto: Beatriz Pereira/RR
Maria Celeste, mãe de Dina, viu o barracão e o curral dos animais ficarem completamente destruídos com o mau tempo. Foto: Beatriz Pereira/RR
A família de Dina e Maria Celeste estimam prejuízos superiores a 50 mil euros, bem acima dos apoios do governo. Foto: Beatriz Pereira/RR
A família de Dina e Maria Celeste estimam prejuízos superiores a 50 mil euros, bem acima dos apoios do governo. Foto: Beatriz Pereira/RR


Na visão de Dina, a razão para tantos estragos é óbvia: ali, na aldeia de Casal dos Bernardos, a sua casa é a mais vulnerável à passagem destas tempestades.

O vento vem de lá e a nossa casa está aqui livre. O vento vem da ribeira, chama-se mesmo a Ribeira do Relveiro, e isto aqui é tipo um vale. A nossa casa foi a mais atingida na zona."

Dentro de casa, a chuva forte dos últimos dias não tem dado tréguas. Muita mobília já se estragou, na sala de jantar os pingos constantes atrapalham as refeições e a água até já chegou aos 20 centímetros de altura. Completamente isolada, a família de Dina socorre-se da ajuda de familiares que lhes levam comida feita (o fogão também ficou destruído) e que até já compraram algumas telhas para começar a reconstruir a casa.

Todos vão ajudar, incluindo o filho Luís, de 11 anos, que está dependente dos tios para chegar à escola todos os dias. “E não dá para fazer os trabalhos da escola. Tínhamos um trabalho de grupo e não dá para fazer agora porque aconteceu isto”, assinala, com um tom preocupado.

Em Casal dos Bernardos, a luz só chega pela ajuda de geradores, que vão sendo partilhados pelos vizinhos para garantir que a comida nas arcas frigoríficas não descongela. “Diz que vai demorar ainda umas três semanas. Vamos ver”, prevê Emília Coelho.


Emília tem saudades da família e de um banho quente. "Com água fria, não consigo". Foto: Beatriz Pereira/RR
Emília tem saudades da família e de um banho quente. "Com água fria, não consigo". Foto: Beatriz Pereira/RR
Emília ficou com o alpendre aberto, telhado danificado e com o quintal repleto de destroços. Foto: Beatriz Pereira/RR
Emília ficou com o alpendre aberto, telhado danificado e com o quintal repleto de destroços. Foto: Beatriz Pereira/RR


Na madrugada de terça para quarta-feira, o barulho era tanto que chegou a pensar que o vento já estava dentro de casa a varrer-lhe os móveis. “Dava-me a impressão que era lá em cima, que alguma janela se tinha aberto e que eram coisas lá de casa que andavam aos trambolhões”.

Teve sorte e os estragos ficaram só no exterior, entre uma chaminé que desabou, o alpendre que ficou sem portas e o telheiro que viu a cobertura voar e atingir uma das janelas do carro.

Sabe de cor os estragos todos, mas a reconstrução é um tema sensível.

Não tenho seguro. E também não faço ideia quanto é que me vai custar. Vou pedir ajuda aos amigos e aos irmãos, que é muito bom ter uma família grande e dar-se bem com ela toda. [O tempo] vai depender de quando é que eu tenho quem me ajude. Porque agora nem os construtores pegam nestas coisas todas, têm as deles para fazer, não é?”, assinala.


Soure sentiu a rajada mais forte da tempestade Kristin. “Em 88 anos, nunca vi nada assim”


O tom de Emília é sempre de paciência e boa disposição, com gargalhadas breves. Mas também há coisas que lhe custam.

“O pior efeito é que não posso tomar banho com água quentinha e com ela fria não gosto. Lavo só a cara e as mãos e os pés, com um bocadinho de água quente da panela”.

E também as saudades. “Eu sinto tristeza por estar muito longe da minha família mais próxima. Tenho três filhas, estão todas muito longe de mim. Não consigo comunicar com elas. Uma delas já me mandou cá o filho para ver, mas do Algarve para aqui é assim um bocado longe”.

“Ganhei esta força. Alguém me ajudou”

Em Casal dos Bernardos, o cenário é muito pior do que noutras zonas do país (como Leiria ou Soure), onde os meios parecem chegar mais rapidamente para a limpeza dos estragos. Apesar de as ruas não estarem intransitáveis, as beiras das estradas estão bastante mais sujas, com árvores, ramos, telhas e até mobília que voou do interior das casas para perto do alcatrão.

À volta da casa de Maria, está tudo mais limpo, graças ao seu trabalho e também à ajuda dos vizinhos. “Tenho 85 [anos] e nunca vi um tempo como este”, conta à Renascença, dentro do barracão que saiu danificado pela tempestade Kristin. Se houver chuvas torrenciais, o telhado de chapa pode não aguentar e a água pode danificar os vários equipamentos que Maria aqui guarda, desde o aquecedor até ao fogão e à máquina de lavar a roupa. “Mas espero que não”.


Nas estradas do concelho de Ourém, o rasto de destruição é evidente e ainda há trabalhos para limpar as vias. Foto: Beatriz Pereira/RR
Nas estradas do concelho de Ourém, o rasto de destruição é evidente e ainda há trabalhos para limpar as vias. Foto: Beatriz Pereira/RR
Em comparação com zonas como Leiria ou Soure, as aldeias de Ourém estão em pior estado. Foto: Beatriz Pereira/RR
Em comparação com zonas como Leiria ou Soure, as aldeias de Ourém estão em pior estado. Foto: Beatriz Pereira/RR


Maria vive nesta aldeia desde sempre, onde os pais ergueram uma casa e criaram sete filhos. “Nascemos ali, naquela casa, do outro lado da rua”, conta a irmã Maria do Rosário, de 75 anos e que, entretanto, também se junta à conversa. “Trabalhámos sempre no campo. E naquele tempo era só um tostãozito ou cinco escudos”.

Nos últimos dias, à espera do restabelecimento da energia e sem qualquer ajuda de geradores, o grande desafio tem sido aquecer a casa. A estas duas irmãs valeu-lhes o sentido prático, mas de pouco adianta na hora de ir dormir. “É a lareira, uma fogueirita, aquece só ali onde a gente está. O resto não [se consegue aquecer]. Temos tudo, mas não se pode”.

Tanto uma Maria como a outra Maria, notam a “boa ajuda” e a “amizade” entre os vizinhos, que dão uma mão amiga sempre que é possível ajudar. Mas aqui faltou (e ainda falta) de tudo um pouco. “Os bombeiros vieram cá, porta por porta, para entregar coisas à gente, comida. Eu não tinha leite, deram-me uma embalagem de cinco litros. E água. Olha, uma maravilha”, conta Maria, a irmã mais velha.


Maria do Rosário ficou sem uma chaminé em casa, entretanto arranjada pelo presidente da Junta de Freguesia. Foto: Beatriz Pereira/RR
Maria do Rosário ficou sem uma chaminé em casa, entretanto arranjada pelo presidente da Junta de Freguesia. Foto: Beatriz Pereira/RR
Sem luz nem telecomunicações, Maria do Rosário passa os dias a brincar com a cadela bebé. Foto: Beatriz Pereira/RR
Sem luz nem telecomunicações, Maria do Rosário passa os dias a brincar com a cadela bebé. Foto: Beatriz Pereira/RR


Apesar de um lamento aqui e ali, nenhuma delas sucumbe à tristeza ou à preocupação. Delas não se ouve uma queixa sobre falta de eficiência das autoridades ou de pouca atenção ao concelho de Ourém. “É preciso muita [paciência]. São muitos casos assim”.

E onde é que se vai buscar a boa disposição? “Ganhei esta força. Alguém me ajudou. Acho que há alguém que ajuda a gente, filho”.

Agora é manter a cabeça erguida e esperar que o piore passe. Quando isso acontecer, o primeiro plano entre as duas irmãs já está escolhido. “A gente não ouve nada. E eu gostava tanto de ouvir as notícias, gostava muito de ouvir a rádio Renascença”.


Artigos Relacionados