O dia em que outra tragédia levou Marcelo a Pedrógão Grande

Uma semana depois da tempestade que varreu a zona Centro do país e provocou dez mortos, o Presidente da República deslocou-se a três das localidades mais fustigadas pela depressão Kristin, para ver de perto os danos: Ourém, Pedrógão Grande e Soure. Durante várias horas, Marcelo vincou a importância da resposta célere na ajuda às populações e admitiu ainda abertura de um "canal de entrada" de imigrantes para ajudar na reconstrução das povoações, devido à falta de mão-de-obra.

04 fev, 2026 - 22:31 • Beatriz Pereira , Alexandre Abrantes Neves



Marcelo Rebelo de Sousa visitou, uma semana depois da tempestade Kristin, os concelhos de Ourém, Pedrógão e Soure. Foto: Beatriz Pereira/RR
Marcelo Rebelo de Sousa visitou, uma semana depois da tempestade Kristin, os concelhos de Ourém, Pedrógão e Soure. Foto: Beatriz Pereira/RR

“Está aqui alguém que não toma banho há mais de dois anos… dias?”. Numa das salas da Escola Básica de Caxarias, em Ourém, ecoam os risos das centenas de alunos que ali se posicionam para ver de perto o Presidente da República.

“Vou explicar-vos o que aconteceu no dia 28 de janeiro: foi uma mistura de uma tempestade com chuva, durante muitos dias seguidos. De repente, a chuva aumentou, aumentou, aumentou. Mas houve uma coisa nova, o vento. Chegou aos 200 quilómetros por hora. E foi durante um período longo, não foi uma ‘rabanada’”. Durante 40 minutos, Marcelo Rebelo de Sousa deixou de lado o papel que abandona daqui a pouco mais de um mês, para voltar a vestir a pele de professor.

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“Isto foi uma calamidade. Calamidade quer dizer que não é só um acidente, não é só uma catástrofe, é mais do que isso. Atingiu centenas de milhares de pessoas. Se somarmos, provavelmente, vamos chegar à conclusão de que são mais de um milhão de pessoas, num país com 11 milhões”, assinalou, frente ao jovem público.


Marcelo esteve reunido com centenas de alunos do ensino básica em Caxarias, no concelho de Ourém. Foto: Beatriz Pereira/RR
Marcelo esteve reunido com centenas de alunos do ensino básica em Caxarias, no concelho de Ourém. Foto: Beatriz Pereira/RR

Este encontro com alunos aconteceu exatamente uma semana depois da tempestade Kristin, "a mais forte desde que há registo" em Portugal, segundo o IPMA. Desde essa madrugada, e depois de uma semana de sucessivas tentativas de um retorno à normalidade, milhares de famílias continuam ainda sem eletricidade, sem água, sem comunicações.

“Quem é que aqui não tem água? Levantem o dedo”. E continuou. “Quem é que aqui não tem eletricidade? E comunicações? Quem é que teve problemas com os telhados das casas?”. As constantes questões do Presidente Marcelo são respondidas com centenas de braços no ar. Entre eles estão os de Clara, Érica e Helena, todas com 11 anos.

“Estou há uma semana sem luz e sem água. Só funcionam com o gerador”. A frase é repetida pelas três. “Está a ser difícil, mas vai aos poucos. Estamos um bocado habituados a estas coisas, mas nunca pensámos que fosse uma coisa tão grave assim, ao ponto de ficarmos sem quase nada...”, refletem, quase em uníssono.


O Presidente da República foi o centro das atenções naquela escola, esta manhã. Foto: Beatriz Pereira/RR
O Presidente da República foi o centro das atenções naquela escola, esta manhã. Foto: Beatriz Pereira/RR
O Presidente da República junto dos jovens. Foto: Beatriz Pereira/RR
O Presidente da República junto dos jovens. Foto: Beatriz Pereira/RR


Da janela da sala de aula, onde Marcelo explana a “calamidade” e o que está a ser feito no terreno para ajudar as populações, veem-se árvores caídas, dentro do recinto da escola. São a pequena, muito pequena, representação daquilo que se constata em grande escala nas estradas da zona Centro do país, a mais fustigada pela tempestade. Esta quarta-feira, Marcelo Rebelo de Sousa fez, por isso, questão de visitá-la, num périplo por três das localidades mais afetadas pelo mau tempo, entre elas Pedrógão Grande.

De novo, Pedrógão

Depois de Ourém, Marcelo Rebelo de Sousa deslocou-se, debaixo de chuva intensa, a Pedrógão Grande. Na Câmara Municipal, que ainda não esqueceu os grandes incêndios de 2017, o chefe de Estado reuniu-se com os presidentes das juntas de freguesia e proteção civil, numa sessão de esclarecimento, no âmbito dos efeitos de destruição da depressão Kristin.

Foi aqui, ainda antes de agradecer o trabalho destes profissionais, que Marcelo começou o rol de declarações que acabaria por dar aos jornalistas ao longo do dia. O primeiro foi uma espécie de balanço da prestação de Luís Montenegro.

"A primeira reação do primeiro-ministro, perceber que era grave e ir à Proteção Civil, bem. Depois, a ideia de que era uma extensão mais pequena: foi insuficiente, porque afinal era mais ampla. Depois, o primeiro-ministro vai para o terreno, nota que é mais ampla e declara calamidade: bem. Não se percebe quão ampla era e aponta-se para menos concelhos: menos bem. Quando teve a visão, avançaram as medidas e a equipa: bem", declarou.


Marcelo numa sessão de esclarecimento, em Pedrógão, no âmbito dos efeitos de destruição da depressão Kristin. Foto: Beatriz Pereira/RR
Marcelo numa sessão de esclarecimento, em Pedrógão, no âmbito dos efeitos de destruição da depressão Kristin. Foto: Beatriz Pereira/RR
No centro cultural do concelho foi aberto um balcão de apoio de urgência para as pessoas afetadas pela depressão. Foto: Beatriz Pereira/RR
No centro cultural do concelho foi aberto um balcão de apoio de urgência para as pessoas afetadas pela depressão. Foto: Beatriz Pereira/RR


Já o ministro da Economia não foi poupado, com o Presidente a considerar que Castro Almeida não se "saiu bem", depois de este ter sugerido às famílias afetadas pela depressão que poderiam usar o "ordenado do mês passado" para pagar os estragos, até chegarem os apoios anunciados pelo Governo.

Sobre a ministra da Administração Interna, o Presidente da República foi bem mais brando esta quarta-feira. Na terça-feira à noite, apontou que “não correu bem” o esclarecimento do Governo à população sobre a tempestade, deixando críticas implícitas e fortes a Maria Lúcia Amaral nas entrelinhas.

No périplo pela zona Centro poucas horas depois, o nome da ministra não passou nem uma vez pela boca de Marcelo, que até chegou a mostrar alguma solidariedade. “Eu próprio já disse coisas que me arrependi”, afirmou em Pedrógão Grande. “Numa situação de calamidade, vivida por um governante pela primeira vez, eu tenho de reconhecer, eu ponho-me na posição [deles]”.

Depois dos elogios ao trabalho rápido das autoridades na resposta à calamidade no concelho de Pedrógão, Marcelo passou para o plano nacional. Pediu mais clareza dos políticos no esclarecimento dos apoios e não a linguagem do “politiquês” e alertou ainda para que as medidas sejam rapidamente aplicadas. “As medidas podem ser extraordinárias, mas se não chegarem ao terreno, deixam de ser extraordinárias”.


Marcelo insistiu até à exaustão neste ponto – aquele que “realmente” lhe “causa preocupação” – e mostrou-se pouco certo de que o Estado e o Governo tenham ao seu alcance a capacidade para entregar as ajudas financeiras à população de forma célere. “Havemos de chegar a um esquema que funcione muito bem. Noutros tempos, era na base dos governadores civis. Agora, já é irreversível a modificação”.

Questionado se pensa que o país ainda não entendeu a gravidade da situação, Marcelo relembrou que nos primeiros dias, “os portugueses não perceberam a dimensão disto”. E atirou: “Num município, 80% das casas ficaram destelhadas. Imagine-se em Lisboa 80% da cobertura dos imóveis ser atingida gravemente? E as pessoas terem de viver num cantinho?”.

Também neste momento, o ainda Presidente lançou-se para lá da segunda volta das presidenciais, marcada para domingo, e deixou desde logo o caderno de encargos para o seu sucessor.

“Isto é um desafio que ultrapassa estes 30 dias, ou 33, ou 34 do meu mandato. Vai cair em cheio, em cima do meu sucessor, e que tem aí um papel muito importante”, avisou.

O tema das presidenciais só havia de voltar em Soure, com duas breves referências. Primeiro, a “preocupação” de Marcelo com as mesas de voto nas zonas afetadas no próximo domingo de eleições – e, depois, com a resposta a André Ventura, que o acusou de “erro político” ao não ter desmarcado a visita a Madrid.


“O Presidente da República não está sujeito a jogos políticos, não está em campanha eleitoral”, avisou, relembrando logo de seguida o candidato presidencial daquilo que acredita ser a postura correta de um Presidente. “[O Presidente] está a pensar nos problemas dos portugueses e da melhor maneira de servir os portugueses”.

Ainda em Pedrógão, e depois de ser convidado pelo presidente da Câmara Municipal, João Gomes Marques, Marcelo visitou um dos locais mais afetados pela intempérie, dentro do concelho: o quartel de bombeiros.

Aqui, o chão está praticamente todo molhado. A cair do teto do piso superior veem-se pingos de chuva, que são amparados já no chão por vários baldes, que se espalham pela sala. O Presidente da República fez questão de observar bem perto os estragos. O mais visível é o grande buraco no teto, destruído pela força da tempestade.


Várias panelas e baldes estão espalhados no chão do quartel de bombeiros para amparar a água que cai do teto partido. Foto: Beatriz Pereira/RR
Várias panelas e baldes estão espalhados no chão do quartel de bombeiros para amparar a água que cai do teto partido. Foto: Beatriz Pereira/RR
Parte do teto do piso superior do quartel de bombeiros fico partido com a tempestade. Foto: Beatriz Pereira/RR
Parte do teto do piso superior do quartel de bombeiros fico partido com a tempestade. Foto: Beatriz Pereira/RR


Já na sala ao lado, transformado em centro de operações improvisado, a lareira é o centro das atenções, por ser o único aquecimento possível no local. “É um método antigo”, disse o chefe de Estado.

À saída do quartel, ainda antes de partir para a última paragem do dia, Marcelo Rebelo de Sousa, voltou a falar sobre o que correu mal durante os últimos dias. Questionado pelos jornalistas, admitiu que as comunicações "portaram-se mal" durante a depressão Kristin, embora "não tão gravemente como em 2017”. “Está visto que para problemas mais complicados que isso, ainda é preciso retirar lições porque é uma experiência nova e exige respostas novas”.

Soure alagou e Marcelo quis ver

De Pedrógão, o Presidente da República dirigiu-se para Soure, o local que sentiu a rajada mais forte da tempestade Kristin, com o vento a atingir os 208 quilómetros por hora.

Na passada sexta-feira, quando a Renascença fez reportagem no local, a vila encontrava-se inundada pelo rio Arunca, que tinha galgado as margens e inundado várias casas do centro de Soure. Esta quarta-feira, o cenário parecia mais controlado, mas a previsão é que volte ao que estava há alguns dias, perante o agravamento da situação meteorológica.


O chefe de Estado quis ver de perto a subida do caudal do rio Arunca, em Soure. Foto: Beatriz Pereira/RR
O chefe de Estado quis ver de perto a subida do caudal do rio Arunca, em Soure. Foto: Beatriz Pereira/RR

“Isto, daqui a três horas, vai ser completamente diferente. Não vai ser possível passar por aqui”, afirmou o Presidente da República, em cima de uma ponte de madeira, de onde observou de perto a subida do caudal do rio.

Na última visita do dia, o chefe de Estado passou ainda por uma fábrica de tetos falsos em material PVC, aberta dia 5 de janeiro, e que ficou totalmente destruída pela força do vento. Na última sexta-feira, também a Renascença passou pelo local, a quem o proprietário Nelson Rodrigues falou naquilo que diz ter sido “uma catástrofe total”. Cinco dias depois, com os destroços já arrumados e com a presença de Marcelo nas instalações, Nelson voltou a lamentar “a catástrofe”, a quem o Presidente respondeu: “Lá para junho, julho, vai estar melhor. Já não estarei como Presidente”.


Marcelo fala com Nelson Rodrigues, cuja fábrica, que abriu no dia 5 de janeiro, ficou bastante destruída, na madrugada de 27 para 28 de janeiro. Foto: Beatriz Pereira/RR
Marcelo fala com Nelson Rodrigues, cuja fábrica, que abriu no dia 5 de janeiro, ficou bastante destruída, na madrugada de 27 para 28 de janeiro. Foto: Beatriz Pereira/RR
O Presidente da República esteve sempre com a proteção civil de Soure, na sua visita pelo concelho. Foto: Beatriz Pereira/RR
O Presidente da República esteve sempre com a proteção civil de Soure, na sua visita pelo concelho. Foto: Beatriz Pereira/RR


Com os apoios anunciados, Marcelo voltou a pedir rapidez na execução e fez um pedido ao Governo. "Tem de se encontrar uma solução. Acho que o Governo vai pensar em abrir uma via, um canal de entrada de mão-de-obra especialmente vocacionada para este tipo de desafio".

É o regresso de Marcelo Rebelo de Sousa a um tema do qual tem sido bastante crítico da atuação do Governo: a gestão da imigração. Depois de enviar para o Tribunal Constitucional a Lei do Estrangeiros – e de promulgar a nova versão, já com as alterações pedidas pelo Tribunal Ratton –, o assunto ficou adormecido, mas esta quarta-feira Marcelo relembrou-o. Aproveitou uma pergunta sobre a reprogramação do PRR (já defendida para dar resposta à catástrofe) para pressionar o Governo. “Não é uma questão de haver vontade [política], mas sim necessidade de resolver o problema”.

Já de volta ao posto da Proteção Civil, Marcelo jantou com os funcionários da Câmara Municipal e da E-Redes, que continua no terreno a tentar repor a luz, que ainda falta a 76 mil clientes na zona fustigada pela depressão, até às 17h30 desta quarta-feira. O chefe de Estado visita quinta-feira Alcácer do Sal e mantém na agenda a visita a Madrid, pelo menos por enquanto. “Decidirei, depois de ver esta noite. Vou para Alcácer do Sal, mas, antes disso, eu já terei tomado a decisão”.


Marcelo reuniu-se durante a tarde com a Câmara e a proteção civil de Soure. Foto: Beatriz Pereira/RR
Marcelo reuniu-se durante a tarde com a Câmara e a proteção civil de Soure. Foto: Beatriz Pereira/RR

Uma semana depois da tempestade Kristin, o número de mortos subiu para dez, mais uma já provocada pela depressão Leonardo. A Proteção Civil contabilizou cinco mortes diretamente associadas à passagem da depressão Kristin e a Câmara da Marinha Grande anunciou uma outra vítima mortal, a que se somaram depois quatro óbitos registados por quedas de telhados (durante reparações) ou intoxicação com origem num gerador. Esta quarta-feira, um homem morreu ao tentar atravessar um curso de água, em Serpa.


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