Em Alcácer do Sal, a cervejaria A Papinha virou um "aquário". "33 anos de trabalho… e num dia acaba tudo"

Durante dois dias, a água do Sado entrou pela baixa de Alcácer do Sal e fechou a Papinha por dentro. Subiu pelas canalizações, empurrou frigoríficos, deixou arcas inutilizadas e marcou as paredes quase até ao teto. Ricardo Costa, que ali começou a trabalhar aos 14 anos, olha para o espaço vazio e admite que não sabe “por que ponto é que há de pegar”.

13 fev, 2026 - 22:40 • Beatriz Lopes



Ricardo Costa e Nuno Carvalhinho tentam reerguer a cervejaria "A Papinha" após as cheias. Foto: Beatriz Lopes/RR
Ricardo Costa e Nuno Carvalhinho tentam reerguer a cervejaria "A Papinha" após as cheias. Foto: Beatriz Lopes/RR

A marca da água atravessa a parede da Papinha quase junto ao teto. É o que permanece de um momento em que tudo o resto se moveu. Ricardo Costa encosta a mão aberta e mede a distância que escapou: “Ficou a cinco dedos”. O estabelecimento e o armazém das arcas ficaram submersos. “Foram dois aquários. Com tudo submerso durante dois dias.”

A porta estava fechada. Estão habituados às subidas do rio e tinham protegido o que podiam. Mas desta vez não entrou pela frente. “Começou a sair dos ralos.” Pelas canalizações, pelas tubagens da cerveja que passam pelo chão desde o pequeno armazém onde estão os barris. “A casa começou a encher de dentro para fora.”

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As arcas continuam alinhadas contra a parede, agora vazias. Ali guardavam marisco — arcas inteiras de camarão e de choco. O choco frito era, segundo os moradores, “dos pratos que mais saíam” numa das casas “que mais roda na cidade”.

Quando Ricardo entrou pela última vez no armazém, a água já lhe chegava à cintura e os frigoríficos começaram a levantar. “Ainda levei com um em cima.” Saiu. “Largámos tudo. Não havia mais nada a fazer, porque a água não parava de subir.”


Foto: Beatriz Lopes/RR
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Cá fora, as cadeiras e os álbuns da casa secam ao sol. As páginas ondulam. Algumas fotografias colam-se. “São os álbuns desta casa.” Ali estão verões sucessivos, mesas cheias, clientes habituais. “Tenho clientes que ainda eram da altura do meu pai.” E explica: “É uma casa de passagem. Quem conhece Alcácer… muita gente pára aqui quando vai para o Algarve, quando vem para cima. É ponto obrigatório.”

Mas limpar não é simples. “A gente olha para isto e não sabe por que ponto é que há de pegar.” Esfregam o chão, lavam as cadeiras, deixam-nas ao sol. Quando voltam, estão manchadas outra vez. “Quanto mais limpa, mais sujo está.” A água do rio deixa lodo. “Tem de ser lavado duas e três vezes.”

Ricardo tem 52 anos. Quando lhe perguntamos a profissão, responde: “Era empregado de restauração.” O verbo sai no passado. “Agora não sou. Está como está.” Não sabe quanto tempo a casa vai estar fechada.

"A Papinha" abriu em 1979, fundada pelo pai e por um sócio. A sociedade desfez-se em 1988. Ficou apenas o pai. Em 1992, morreu. Ricardo tinha 19 anos. “Eu comecei aqui com 19 anos, quando o meu pai faleceu, mas já cá andava desde os 14 a ajudá-lo.” Diz que foi “jogado para o meio das feras”.


Foto: Beatriz Lopes/RR
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“Trinta e três anos de trabalho… e num dia acaba tudo”

Há quatro anos comprou o prédio. Depois de décadas ali, decidiu investir. Agora fala em lay-offs e moratórias. “Vamos tentar respirar um bocadinho.” Já falou com o seguro. “Deixe lá ver se cobre alguma parte dos prejuízos.” Foi também à câmara, mas admite: “A gente não pode estar à espera disso”.

A ajuda tem vindo sobretudo da rua. Junta de freguesia, voluntários que se organizaram espontaneamente, vizinhos. “Não falta produtos, não falta vassouras.” Trazem detergentes, fatos de proteção, pequenos lanches. “Andam sempre a perguntar se precisamos.” No sábado a seguir à cheia, quando veio apenas tirar o que restava das arcas, começaram a aparecer pessoas para ajudar. “Começámos logo a limpar.”

Entre eles está Nuno Carvalhinho, 51 anos, piloto numa companhia aérea portuguesa e amigo de infância. Tinha férias marcadas quando a rua encheu. “Esta rua parecia de guerra”, recorda, falando dos vidros partidos e das coisas espalhadas pelas lojas. Divide os dias entre vários amigos afetados. “Venho ajudar o Costinha.” E repete o que tem dito a todos os que encontra: “Vai ficar melhor.” Acredita que sim. “Vai ficar melhor ainda do que estava”.


Foto: Beatriz Lopes/RR
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Ricardo tenta acompanhar essa convicção. Já passou pela crise de 2011. Já atravessou a pandemia. “Só faltava esta.” Perguntam-lhe por previsões. “Não consigo fazer previsões.” Se em três meses estivesse a trabalhar, já seria uma meta. “Chegássemos ao princípio de maio, fim de maio, começássemos a trabalhar, era uma boa meta.”

Junho, em Alcácer, é mês de rua cheia. Há sardinhada, música ao vivo, bailarico pela noite dentro. "A Papinha" costuma ter as mesas ocupadas até tarde. Ricardo não arrisca promessas. Mas fala nesse prazo como quem aponta um farol.

À porta, insiste no que sempre disse: “Estamos cá para isso, estamos cá para receber as pessoas. Sejam oito, sejam 80”.

Pela primeira vez em muitos dias, o sol abriu. “Deu para secar as cadeiras rápido.” Agora precisam de mais dias assim. “Uns quantos dias de sol para ver se isto seca tudo e a coisa começa a voltar ao normal devagarinho.” Faz uma pausa. “É uma vida.”


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